“Sexta à noite um comediante morreu em Nova York.”

17/07/2008

Gostaria de ter mais tempo para escrever um artigo bacana sobre Watchmen ser nada menos que a melhor série em quadrinhos da história, sobre como Alan Moore atingiu a imortalidade com essa obra, como a última página da última das 12 edições da obra é provavelmente um dos mais perfeitos finais de história ja concebidos pela Humanidade, ou mesmo como a adaptação para o cinema dessa obra-prima é uma das coisas mais aguardadas (e podemos dizer também temidas) pelos fãs de cultura pop desse planeta - todos vocês, inclusive. Mas estou meio sem tempo, daqui a pouco saio daqui do serviço e o PC de casa anda um lixo completo, desanimando qualquer tentativa de escrever mais do que mensagens curtas no MSN. E de qualquer modo, esse artigo nem precisa ser escrito mesmo: deixemos que as imagens falem por si só. Eis, para vosso deleite, o trailer de Watchmen - O Filme, que estreiará em Março de 2009 nos EUA.

Depois eu volto aí para saber a repercussão…

(Eu tinha colocado um link do YouTube, mas a Warner Bros. foi estupendamente rápida e tirou tudo do ar menos de 5 mins depois de eu ter assistido. Até a última conferência minha - 17h50 da tarde de quinta - o link acima estava funcionando - se os tubarões da indústria do entretenimento tirarem do ar esse também, já não é culpa minha!)


In John McClane We Trust

12/07/2008

– Você acaba de abater um helicóptero com um carro!
– Eu estava sem balas.

John McClane é definitivamente um cara durão. Talvez o mais durão dos caras durões de Hollywood. No mesmo nível – ou até acima – de caras como Dirty Harry, Jack Bauer, Leônidas (300), Paul Kersey (Desejo de Matar), Rambo, Rocky Balboa, o Exterminador do Futuro e qualquer personagem interpretado por Steven Seagal.

Confesso que já não lembro muito bem dos três primeiros filmes, mas em Duro de Matar 4.0 (que finalmente pude assistir na semana que passou), McClane está tão duro de matar que talvez devessem mudar o nome da série para “Imortal”, “O Cara Mais Durão do Universo” ou coisa parecida. Não que haja algo de errado com isso, afinal a quase invulnerabilidade do nosso herói frente a situações possivelmente fatais – ou no mínimo extremamente dolorosas – sempre foi um dos grandes charmes de Duro de Matar, ao lado da implausibilidade das frenéticas cenas de ação.

Nesta quarta aparição de McClane nas telonas, isso tudo é elevado (pelo menos) à décima potência. O que é justamente aquilo que torna o filme tão descerebradamente divertido. Do início ao fim, temos ação absurdamente inverossímil e empolgante, além de inúmeras provas do quanto John McClane é cabron.

MUITOS SPOILERS ADIANTE!!!

Em Duro de Matar 4.0, logo no começo o protagonista já cuida de um grupo de mercenários altamente treinados e equipados, armado apenas com uma pistola, criatividade e seus colhões king size. Mais tarde, destrói um helicóptero militar com um carro de polícia, acelerando na direção de uma rampa improvisada e jogando-se para fora do veículo em movimento antes que ele acertasse o helicóptero em pleno ar. Sai andando quase que normalmente, sem nenhuma lesão grave. Depois, é chutado através de uma janela de quase dez metros de altura. McClane não só sobrevive, como logo após atropela sua agressora com uma caminhonete dentro do centro de comando de uma estação de energia federal. Na seqüência, sobrevive à explosão da tal estação, vai até o covil dos bandidos – que seqüestraram sua filha – com um plano simples: “Eu vou matar esse **** e pegar a minha filha… Ou vou pegar a minha filha e matar esse ****… Ou vou matar todos eles…”. Na perseguição aos vilões, pula num caminhão em movimento, nocauteia o motorista e fica com o controle do volante. Foge de um caça F-35 dirigindo o caminhão em meio a um viaduto que está sendo destruído pelos disparos do jato. Acaba surfando sobre o caça desgovernado (no melhor estilo Capitão América em Guerra Civil) antes de saltar para escapar da explosão do avião e cair num pedaço do viaduto, descendo-o – sem um arranhão sequer – como se fosse um escorregador. Para fechar, o momento mais cabron de todos: quase morrendo, feito de refém pelo grande vilão, McClane força um disparo de pistola que atravessa o próprio ombro e mata o bandido. Genial!

FIM DOS SPOILERS.

Em suma, John McClane não precisa estar bem armado, nem ter um plano ou, muito menos, reforços. Para ele, improvisar e ser (extremamente) durão é o que basta.

Yippee-ki-yay, motherfucker!


Hulk Esmaga!

30/06/2008

Me deixem em paz!

Betty.

Hulk esmaga!

Essas são as únicas falas do gigante esmeralda durante todo o filme O Incrível Hulk, segunda produção do Marvel Studios e segunda aparição do verdão nas telonas nos últimos cinco anos. Até aí, tudo bem, afinal o Hulk nunca foi muito conhecido por ser o cara (ou monstro verde) mais articulado do mundo. Pelo contrário. O que ele sempre soube fazer de melhor foi dar porrada, saltar, fugir e, claro, esmagar. Diferentemente da película de Ang Lee, que em muitos momentos estava mais para drama psicológico do que aventura de super-herói (se é que se pode chamar o Hulk assim), o novo filme (que basicamente ignora o anterior) procura aproveitar isso ao máximo, priorizando sempre a ação. Algumas cenas que se aprofundavam mais nas psiques dos personagens foram, inclusive, sumariamente cortadas (ou esmagadas) na edição final, sobrando pouco mais que o básico para que se possa entender a história.

O Incrível Hulk é um filme simples, sem grandes reviravoltas, por vezes até um tanto previsível, com uma trama um tanto batida. Bruce Banner procurando uma cura, fugindo dos militares, sendo obrigado a usar o Hulk para conter uma ameaça maior. Já se viu esse tipo de coisa bem mais de uma vez nos quadrinhos. Mas o que poderia ser um grande ponto fraco da produção é usado a seu favor. A película do diretor Louis Leterrier se atém ao básico, não inventa muito, não tenta explicar demais as coisas, não perde tempo com psico-baboseiras (Ang Lee, alguém?). Nela, o Hulk esmaga! E o resto é resto.

Hulk lutando dentro de uma fábrica de sucos no Brasil e usando o “cenário” como arma. Hulk usando destroços metálicos como escudo e, em seguida, como projéteis. Hulk enfrentando um militar com o soro do supersoldado correndo nas veias. Hulk batendo as palmas das mãos a fim de criar vento suficiente para apagar as chamas da explosão de um helicóptero. Hulk na brutal batalha final contra o Abominável. E que batalha! Provavelmente, uma das melhores cenas de luta do cinema nos últimos tempos e, certamente, a melhor luta dos filmes recentes baseados em HQs.

No meio tempo, cenas e diálogos que se não são sensacionais, não comprometem. Algumas até emocionam, sem ser piegas. E o elenco, ponto forte do fraco último filme do Hulk, não faz feio neste. Edward Norton é convincente no papel de Bruce Banner. Liv Tyler, linda como sempre, consegue passar bastante emoção atuando como Betty Ross. William Hurt, que tinha a difícil tarefa de fazer o maquiavélico General Thadeus Ross, interpretado brilhantemente por Sam Elliot na película de 2003, tem um desempenho tão bom quanto o de seu antecessor. Tim Roth, por sua vez, retrata com maestria a obsessão de Emil Blonsky pelo poder e pela superação de seus próprios limites no campo de batalha. Os atores brasileiros (ou nem tanto) que aparecem na parte que se passa no Rio de Janeiro, são bem mais ou menos, mas Débora Nascimento é espetacular (esteticamente falando, pelo menos).

As referências aos quadrinhos são diversas e devem agradar (muito) aos fãs. A famigerada cena em que o Capitão América deveria fazer uma breve aparição foi cortada, é claro, mas em um diálogo entre o General Ross e Emil Blonsky é mencionado um certo militar da Segunda Guerra Mundial em que o soro do supersoldado foi aplicado com sucesso. Quando um container com o soro vai ser retirado de uma sala de armazenamento, pode-se ler até o nome do Dr. Reinstein, criador do soro do supersoldado nas HQs. A SHIELD está presente no filme também e o nome de Nick Fury surge em alguns recortes de jornal que aparecem durante os créditos iniciais. Bety Ross tem um relacionamento com um psiquiatra chamado Leonard Samson, coadjuvante de destaque nos quadrinhos do Hulk. Samuel Sterns, maior inimigo do Hulk nas HQs, é outro personagem que está na película. Há uma cena, inclusive, que aparenta ser sua origem como o supervilão conhecido como Líder. Além disso, Stan Lee faz sua melhor participação em um filme da Marvel.

E o melhor de tudo: a Marvel está definitivamente criando um universo interligado nos cinemas. Segundo informações de sites estrangeiros (confesso que não prestei atenção), algumas das armas utilizadas pelas tropas que caçam o Hulk são das Indústrias Stark. E, na última cena do filme, o próprio Tony Stark, interpretado por Robert Downey Jr., aparece, falando ao General Ross que uma equipe está sendo formada. São os Vingadores!!! Mal posso esperar por 2011!!!

Ahn… Bom… Contendo um pouco a empolgação… No final das contas, O Incrível Hulk é muito parecido com o próprio personagem (ou monstro verde) principal: pode não ser dos mais inteligentes, mas é muito bom na hora da ação.


(W)hedonismo e esperneios

09/06/2008

Nerd é uma raça complicada de se lidar mesmo… Tudo o que eles (nós?) querem(os?) é divertirem-se com seus jogos, seriados, quadrinhos, filmes, etc. E, muitas vezes, o grau de apego – devoção, até – por alguma série, franquia, personagem, roteirista, diretor, etc. é tão grande que chega a ser algo surreal. E, quando esse é o caso… Sai de baixo.

Tudo torna-se motivo pra esperneios. Muda-se o visual do personagem. Os nerds esperneiam. Cria-se um novo logo para a série. Troca-se o roteirista. Esperneios. Faz-se adaptações de uma obra na transposição para outra mídia. É feita uma revelação surpreendente sobre o passado do personagem. Mais esperneios. Mata-se o personagem. A série aproxima-se do cancelamento. O horror, o horror!

A tortaTemos muitos e muitos casos (relativamente) famosos de esperneios nerds que deram certo ou não ao longo dos anos. Um mais ou menos recente foi a campanha pela ressureição do personagem Wendell Vaughn, o Quasar, da Marvel Comics, morto na saga Aniquilação. Os fãs chegaram a mandar uma torta com a imagem de Quasar e os dizeres “Bring Back Wendell” (Tragam Wendell de volta) ao editor Bill Rosemann, da Marvel. Até hoje, porém, os esperneios dos (cinco ou seis) entusiastas do falecido super-herói não surtiram efeito.

Amazing Spider-Girl #21Nerds que obtiveram grande sucesso em suas mobilizações foram os fãs da Garota-Aranha. Sua revista mensal, lançada em 1998, conta as aventuras de May Parker – filha de Mary Jane e Peter Parker (o Homem-Aranha, dã), que nasceu durante a famigerada Saga do Clone e herdou os poderes do pai –, passadas num futuro alternativo no qual as pessoas não se esqueceram que ela existe. A Marvel Comics chegou a anunciar o cancelamento da publicação – alegando baixas vendas – por mais de uma vez, mas o esperneio dos fãs fez com que ela continuasse saindo. Em novembro de 2005, o editor Nick Lowe chegou a afirmar que, pela primeira vez, a revista da Garota-Aranha estava fora de perigo de ser cancelada. Mas, em 2006, com a centésima edição, a HQ chegou ao seu fim… Apenas para ser relançada meses depois sob novo título. Com 100 edições, Spider-Girl é a publicação mais longeva com protagonista feminina da história da Marvel. A nova revista, por sua vez, intitulada Amazing Spider-Girl, já está na 21ª edição.

Box de FireflyOutros nerds esperneantes dignos de nota são os fanáticos pelo roteirista, produtor e diretor Joss Whedon – criador de Buffy, Angel e Firefly, e responsável pelos roteiros de uma das melhores fases das HQs dos X-Men dos últimos tempos. Aliás, “dignos de nota” é um belo de um eufemismo. Esses caras merecem, provavelmente, uma categoria só pra eles, especialmente os fãs de Firefly. Explico. Em 20 de setembro de 2002, estreou na FOX americana o seriado Firefly, um space western (isso mesmo, você leu certo). Após a exibição (fora de ordem, diga-se de passagem) de apenas 11 dos 14 episódios produzidos, a FOX anunciou o cancelamento da série. A partir daí, um fenômeno surgiu. Os fãs organizaram-se para tentar impedir o cancelamento. Chegaram a arrecadar dinheiro para a publicação de um anúncio na revista Variety e realizaram uma campanha em prol do envio de cartões postais ao antigo canal de TV UPN, tentando encontrar uma nova rede que abrigasse o programa. Num primeiro momento, acabou não dando certo, mas o apoio ao seriado levou ao seu lançamento em DVD no final de 2003 e, finalmente, à produção de um filme pela Universal, lançado em 2005 com o nome Serenity.

Hora de um pequeno parêntese com uma curiosidade tirada direto da Wikipedia

(Em julho de 2006, foi lançado um documentário feito por fãs, intitulado, Done the Impossible, que está disponível comercialmente. O documentário mostra a história de vários fãs e como o programa afetou suas vidas, e também apresenta entrevistas com Whedon e vários membros do elenco da série. Uma porcentagem das vendas do DVD é doada para a organização de caridade favorita de Whedon, Equality Now). Isso é o que eu chamo de fãs.

Durante a divulgação de Serenity, Joss Whedon falou ao público: “Este filme não deveria existir. Programas de TV fracassados não são transformados em grandes filmes – a não ser que o criador, o elenco e os fãs acreditem além da razão… Este é, de uma maneira sem precedentes, o seu filme”. O esperneio vence outra vez!

O elenco de DollhouseAgora, os fãs de Whedon atacam novamente. Eles já estão esperneando e mobilizando-se em uma campanha para salvar Dollhouse do cancelamento. A nova série do criador de Buffy é estrelada por Eliza Dushku (a Faith de Buffy) e conta a história de super agentes que são “programados” para realizarem missões secretas e têm suas memórias apagadas após o cumprimento de cada uma delas. O detalhe é que Dollhouse estréia na FOX americana somente em janeiro de 2009. Talvez, desta vez, os esperneios sejam um tantinho exagerados (sem falar em precoces)…


Dobram os sinos pelo Metallica?

12/05/2008

Acredito que seja um pouco difícil para quem vê o Heavy Metal de fora entender a importância e a influência que o Metallica teve sobre a vida de milhões de pessoas nos últimos vinte e cinco anos. Eles foram, obviamente, uma das bandas mais emblemáticas do Heavy Metal dos anos 80, e ainda hoje são um fenômeno de vendas em todo o mundo - ou vocês acham que é bolinho vender mais de 100 milhões de cópias mundo afora? Mas, além disso, eles foram também um fenômeno comportamental, um sucesso que transcendeu as prateleiras das lojas de disco e influenciou decisivamente a postura, o visual e a personalidade de quantidades imensas de pessoas. Dá para dizer, por exemplo, que esse humilde escriba se tornou o que é hoje muito por causa do Metallica, mesmo que seus sentimentos sobre a banda tenham mudado imensamente com o passar do tempo. E com certeza o que se deu comigo se deu com muita, mas muita gente mesmo nos últimos tempos.

Vou tentar explicar. Ouvi Metallica pela primeira vez muito jovem, com uns onze anos eu acho, através de uma fita cassete gravada pelo filho de uma professora do colégio onde eu estudava. Ele era fã de Heavy Metal, e gravou para meus irmãos duas fitas Sony - fitas que, obviamente, ouvi muito por tabela. Uma delas era uma seleção com várias bandas de “rock pauleira”; a outra era, simplesmente, a íntegra do álbum “Master of Puppets”. Foi o primeiro disco completo que ouvi na vida, que eu lembre - e até hoje é um dos meus favoritos. O impacto daquelas oito músicas sobre a minha pessoa foi indescritível: creio que demorei um pouco para conseguir entender o que de fato estava acontecendo, mas lembro que desde o primeiro momento me fascinei pela energia que surgia daquelas músicas, e gostava de ouvir aquilo mesmo sem entender direito as nuances do que estava escutando. Mais do que um fã de Metallica, aquele moleque estava se transformando num fã de Heavy Metal, embora ainda não soubesse claramente disso.

Fui entrando na adolescência, e o Metallica me acompanhou pelo processo. Musicalmente, digam o que disserem, era uma equipe perfeita. James Hetfield, além de vocalista marcante, era um monstro das palhetadas, e mandava riff em cima de riff sem piedade; Kirk Hammett era responsável por alguns dos melhores solos que ouvi na vida; Lars Ulrich soava como nenhum outro baterista era capaz, preenchendo espaços inimaginados com seus contratempos surpreendentes; e Cliff Burton era a lenda, o baixista perfeito que morreu jovem em um acidente na van que conduzia a banda durante uma turnê. Jason Newsted se esforçava, tinha carisma, mas não podia ser maior do que a lenda - porque disso ninguém jamais seria capaz. Muito da minha vontade de tocar baixo veio da figura de Cliff e da aura de integridade musical que praticamente tornou-se sinônimo de seu nome.

Seus álbuns eram bíblias para o estilo, verdadeiras cartilhas que qualquer fã respeitável de Heavy Metal não podia ousar sequer cogitar ignorar. E se o som era perfeito, o que dizer da imagem daquela banda? Quatro cabeludos de jeans, tênis ou botas, camisetas pretas e jaquetas cobertas de “patches” - sem os exageros visuais típicos daquela época tão exagerada, eles eram a banda mais malvada e de atitude mais incrível que qualquer jovem de 14 ou 15 anos poderia querer. Ter uma camiseta do Metallica era como adquirir um manto sagrado; vesti-la era quase um ato ritualístico, um gesto de comunhão religiosa com algo maior do que se podia conceber. Vê-los ao vivo, então, seria praticamente atingir o Nirvana (sem trocadilhos musicais, por favor). Lembro que assistia os vídeos da banda no extinto “Fúria Metal” da MTV, apresentado pelo Gastão Moreira, e cada vez que passavam qualquer um deles era um momento em que o mundo tinha que esperar – afinal, era um clip do Metallica! Destaque para “One”, com uma história desconcertante sobre um aleijado de guerra – e graças a esse clip e essa música conheci “Johnny Got His Gun”, uma das obras mais belas e perturbadoras do século que passou, nada menos que isso. Em suma, o Metallica era mais que uma banda: era uma entidade, algo que não era deste planeta e que, por algum motivo, tínhamos sido afortunados de ter a chance de testemunhar. Em suma, eles eram foda!

Assim foi até a segunda metade dos anos 90, quando tudo começou a mudar. Tem quem os critique pelo “Black Album”, o disco que marcou o estouro comercial definitivo da banda - mas para mim o choque foi um pouco posterior, mais precisamente a partir do álbum “Load”. E, de novo, foi muito além da questão meramente musical. Cabelos cortados. Sapatos. Terninhos, pelo amor de Deus, terninhos! E, ouvindo o disco, um monte de musiquinhas chochas, enjoadas, com direito até a um “momento The Cure” na horrenda “Hero of the Day” – nada específico contra o The Cure, mas o Metallica não é a banda de Robert Smith, ora essa! A banda que não se vendia por mais sucesso que fizesse agora estava lá, vestindo roupas ridículas e gravando clipes idiotas para tocar no Disk MTV. Era mais do que simplesmente uma banda tentando novos horizontes – ou “se vendendo”, como muitos prefeririam colocar: era o Metallica, a banda mais fodona do planeta, viajando na maionese e perdendo completamente o rumo. Para muitos, eu incluído, foi um pouco como o fim de uma religião.

Desde então, eu diria que o encanto se quebrou. Continuei fã de Heavy Metal tanto, ou até mais do que antes – e bandas que eu já curtia na época, como Iron Maiden e Judas Priest, acabaram tomando naturalmente o lugar do Metallica na posição máxima do meu ranking musical. Não deixei de gostar da banda – pelo contrário, tanto que fui feliz da vida no show deles aqui em Porto Alegre, em 1999, no Hipódromo do Cristal. Putz, já fazem mais de nove anos… Enfim, não passei a detestá-los: apenas deixei de segui-los. Começaram com um monte de experimentações, fazendo saladas musicais, gravando discos com orquestra e o diabo – e tudo que eu sentia era que aquilo não era certo, que aquele não era o Metallica como ele deveria ser. E eles ainda me aprontam uma abominação chamada “St. Anger”, possivelmente o disco mais constrangedor já gravado por um gigante do Heavy Metal – com direito a um Kirk Hammett decorativo (já que não fez um único solo no disco inteiro e tocar as bases de guitarra nunca foi o seu forte) e um som de caixa de bateria que entrou sem pedir licença para o anedotário do Rock, de tão horrendo e estapafúrdio que é. Eis um disco que agradeço aos céus não ter adquirido – peguei emprestado de um amigo, e o ouvi na íntegra uma única vez. As outras tentativas eu simplesmente abortava no meio do caminho, porque era simplesmente impossível continuar até o final com aquele suplício voluntário.

Enfim. Tudo isso para dizer que, hoje, minha fé no Metallica foi em parte resgatada. O motivo é o seguinte vídeo, ligado a um projeto de divulgação do novo disco da banda batizado simplesmente de “Mission: Metallica”:

Nem perca tempo assistindo a propagandinha insossa do tipo “vejam como essa banda é realmente demais e bla bla bla”: deixe carregar todo o vídeo e vá direto para os 2mins e 23segs. Vai ser possível ouvir cerca de 30 segundos do que deve sair em junho ou junho, com o novo trabalho da banda – e, meu amigo/a, deu para dar esperança, MUITA esperança. Não é como se Cliff Burton tivesse ressuscitado nem nada disso, mas é o Metallica mais fiel a seu próprio legado musical que eu ouço em muito tempo – provavelmente desde os dias do “black album” ou mesmo antes disso. Claro que são poucos segundos (exatos trinta, para ser preciso), que é fácil se deixar levar pelo entusiasmo numa hora dessas e tudo o mais, mas é a primeira vez em mais de uma década que me sinto levado a querer comprar um disco novo do Metallica – e acreditem, isso não é pouca coisa. E, embora eu saiba que os tempos mágicos da minha adolescência Metal não voltam mais, o moleque que ouvia aquela fita Sony já cheia de flutuações de som e pensava em como seria genial ser como aqueles caras de certo modo voltou a se manifestar hoje, mais de quinze anos depois. Sério, Metallica: não estraguem tudo desta vez, pelo amor de Deus!