Concluímos aqui (finalmente) a nossa série a respeito das mais polêmicas histórias da história do Homem-Aranha. Para o gran finale, como não poderia deixar de ser, falaremos da saga que inspirou esta série de posts. Com vocês…
Um Dia a Mais

Peter Parker aliou-se à facção pró-registro e revelou sua identidade secreta ao mundo no início da Guerra Civil dos super-heróis. Entretanto, ele acabou mudando de lado e tornando-se um fugitivo da lei, junto com Mary Jane, sua esposa, e May, sua tia. Conhecendo sua identidade, o Rei do Crime manda um atirador para matar o Homem-Aranha quando ele estivesse desprevenido. E o tiro destinado a Peter acaba atingindo a Tia May, que fica às portas da morte. Eventualmente, o cabeça-de-teia dá uma surra no Rei e consegue internar May Parker em um hospital, com um nome falso – por causa do status de fugitivo de seu sobrinho.
É nesse contexto que começa Um Dia a Mais. A Tia May está em um leito de hospital, mas encontra-se além de qualquer ajuda médica. Ela está morrendo e, aparentemente, não há o que se fazer a respeito. Peter culpa-se, pois o tiro que acertou a Tia era para ele, além de que nada daquilo estaria acontecendo se ele nunca tivesse cometido o erro de revelar ao mundo que era o Aranha. Assim, o herói parte em busca de alguém que possa salvar May Parker. Mas a busca revela-se infrutífera. Mesmo o mago supremo, o Dr. Estranho, é incapaz de ajudá-lo. Tudo parece perdido…
Até que surge Mefisto, um dos lordes infernais do Universo Marvel, análogos ao Satã bíblico. Ele diz que pode salvar May, mas há um preço a se pagar… E, não, ele não quer a alma de Peter. Segundo o demônio, quem vende a alma para ajudar alguém, vai para o inferno e “sofre honradamente, amparado pela crença eterna de que suas ações salvaram outras pessoas”. Não, isso não teria graça. O que Mefisto quer é… O amor de Peter e Mary Jane, o casamento deles. O CASAMENTO!
O casal tem apenas Um Dia a Mais para desfrutar de suas vidas como estão. À meia-noite do dia seguinte, eles têm que decidir o que perderão: a tia ou o casamento. Chegada a hora, o Aranha ainda está em dúvida e é Mary Jane quem aceita o pacto com o Coisa-Ruim, desde que a identidade secreta de Peter seja restaurada, sua vida seja devolvida ao normal e ele tenha a chance de ser feliz. Pressionado, o cabeça-de-teia concorda com os termos. Num passe de mágica, o casamento dos dois é apagado da existência – como se nunca tivesse ocorrido –, eles estão brigados e não são mais um casal, Peter está de volta à casa da (agora saudável) Tia May, o falecido Harry Osborn está de volta de alguma maneira – embora a Marvel insista que sua “ressurreição” nada tem a ver com Mefisto –, ninguém sabe da identidade do Homem-Aranha e Peter e Mary Jane não se lembram do pacto com o Cramulhão.
A história é muito bem construída, muito bem conduzida por J. Michael Straczynski. Os diálogos são afiados, como de costume. Há uma atmosfera de drama quase palpável. Várias das situações são interessantes, como o confronto inicial com o Homem de Ferro – a quem Peter culpa, parcialmente, pelo ocorrido, visto que foi ele a incentivar o Aranha a revelar sua identidade –, as participações do mordomo Jarvis – que tinha, no mínimo, uma quedinha pela Tia May – e do Dr. Estranho – com uma referência muito bem bolada a uma HQ do início da fase JMS em Amazing Spider-Man –, os Peter Parkers alternativos (e frustrados), etc. Os desenhos de Joe Quesada – que, por acaso, também é o editor-chefe da Marvel – continuam bons como de costume e o comitê (de uma só pessoa) diria que sua narrativa, inclusive, evoluiu.
Entretanto, Um Dia a Mais será sempre lembrada por seu principal propósito, o de acabar com o casamento do Homem-Aranha, e pela solução absurda encontrada para alcançá-lo, um pacto com o Demônio. Aliás, esta é uma boa maneira de resumir a saga: uma solução idiota para um não-problema. Assim como com Pecados Pretéritos, a história não é ruim em si, pelo contrário, mas sua idéia central é ridícula e, para muitos fãs, um desrespeito.
Quesada, desde que assumiu como editor-chefe da Marvel, sempre proclamou aos quatro ventos que queria ver o fim do casamento de Peter e Mary Jane. Ele e alguns de seus editores e roteiristas achavam que o matrimônio limitava algumas boas possibilidades de histórias do herói. Finalmente, Quesada tomou uma atitude. Divórcio, é claro, nunca foi uma opção, afinal, para o chefão criativo da Marvel, isso tornaria o personagem mais velho aos olhos dos leitores (acho que já vi isso antes… Pequena May, alguém…?), além de ser um péssimo exemplo. Um pacto com o Demônio, sim, é que é um ótimo exemplo… (Bom, é verdade que Mefisto não é o próprio Satã bíblico, mas é quase como se fosse, certo?).
Enfim, a reação dos fãs e da crítica em relação à saga foi quase que totalmente negativa. Muita gente chegou a propôr um boicote à nova fase do Aranha por causa de Um Dia a Mais. E o pior é que toda a situação gerou uma confusão danada na cronologia do teioso – a ponto de a Marvel divulgar um esquema tentando esclarecer algumas coisas. As histórias de Peter casado ainda valem? Diz a Marvel que sim, a única diferença é que Pete e MJ não estavam casados, apenas tendo um relacionamento – e, por motivos ainda desconhecidos, terminaram recentemente. Então, o que foi que Mefisto tomou? Apenas as alianças e a certidão? Aliás, como Mefisto foi capaz de promover uma alteração dessas na realidade? Opa! A resposta pra essa pergunta já se sabe. Como o próprio Quesada disse (e repetimos no título de nossa série): “It’s magic, we don’t have to explain it”. Ou, para os leigos na língua da Rainha: “É mágica, nós não temos que explicar”.
Essa “explicação” do editor-chefe levou, inclusive, a um atrito com Straczynski, o roteirista. Ele declarou que se trata de “uma solução malfeita. Viola todas as regras de ficção e fantasia que eu e todo escritor de sci-fi e fantasia sabemos que não pode ser violada. É elementar”. A rusga entre Quesada e Straza foi ainda maior porque o roteirista acabou entregando um script para a conclusão de Um Dia a Mais diferente do que havia sido combinado. Nele, a mudança que Mefisto faria na vida do Aranha teria sido bem anterior ao casamento, mexendo em HQs dos anos 70. Gwen Stacy nunca teria morrido e Harry Osborn e MJ teriam continuado namorando.
O roteiro foi recusado e reescrito – afinal a seqüência da história já estava sendo produzida e dependia de um final específico –, o que fez com que Straczynski chegasse a pedir para ter seu nome retirado dos créditos. No fim das contas, parece que foi dos males o menor. Se JMS tivesse feito o que queria, mais de 30 anos de cronologia do Aranha seriam, de fato, invalidados, o que certamente provocaria a fúria dos fãs.
De qualquer forma, para Quesada, Um Dia a Mais foi um mal necessário. Para os fãs, não tão necessário assim. Pelo menos, a nova fase, intitulada Um Novo Dia, aparentemente, é boa e começa a ser publicada no Brasil neste mês.
Abaixo, ótimas tirinhas do SpiderFan.org relacionadas a Um Dia a Mais (clique para ampliar):
E este é, então, o fim da nossa série. Até a próxima, pessoal (se é que alguém lê isso aqui)!
Mais It’s magic, we don’t have to explain it:
– Parte 1.1: Saga do Clone
– Parte 1.2: Saga do Clone (continuação)
– Parte 2: Capítulo Final
– Parte 3: Pecados Pretéritos
– Parte 4: O Outro





Escrito por Kauê 

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