Querida, cheguei!

familia-dinossauro2.jpgA princípio, este pode parecer um ótimo título para o primeiro post de um blog recém-nascido. Mas não é só isso. Pretendo ir mais longe, rumo “ao infinito e além”, em direção a uma das “gavetinhas” escondidas nas profundezas do seu subconsciente.

Será que deu certo?

Quem nasceu antes da Copa do Mundo de 94 com certeza sabe do que eu estou falando. Não, não tem nada a ver com futebol, mas também é um elemento muito presente no inconsciente coletivo de uma (duas? três?) geração toda de brasileiros. Estou falando de um dos mais bem-sucedidos produtos da indústria cultural infantil nos últimos tempos (só não ganha do Chaves).

Logo de cara, falar da Família Dinossauro parece louvar pateticamente um passado querido, uma recordação infantil que, na verdade, só faz sentido para crianças. Mas não é bem assim. A série da Disney foi exibida entre 91 e 94 aqui no Brasil. Mesmo contando a história de seres que viviam no ano 61.000.003 a.C., ela traz parábolas morais e cotidianas que se aplicam mais aos adultos do que às próprias crianças, assim como em vários dos contos infantis.

Posso citar o episódio do “Dia do Arremesso”, por exemplo – quando o filho convence o pai que jogar sua sogra no poço de piche não é uma decisão muito amável, apesar de ser a tradição (e ela acaba indo morar com a família). Ou o episodio do “Mestre” – quando o ‘governante’ do mundo dos dinossauros morre e existe uma eleição para o sucessor. O pai se candidata, mas desiste, pois percebe que dirigir um país é algo sério e de muita responsabilidade (e que ele é burro demais para isso).

Entre muitos outros exemplos possíveis, todos acabam com um final feliz, que vem após a tomada das decisões ‘socialmente’ corretas (à exceção do episódio da “Planta da Alegria” – quando quase todos terminam chapadões e viciados na tal plantinha que lhes dá uma alegria momentânea, mas acaba com tudo que construíram. No final, o filho aparece falando com o público e diz explicitamente que “drogas são más”).

Além disso, a Família “Silva Sauro”, assim como os Simpsons, não poderia ser mais arquetípica – e nisso auto-crítica. Segundo Jung, um dos mais famosos sucessores de Freud, os arquétipos são figuras base, modelos inatos nos quais as personalidades se baseiam (psicanalistas que me corrijam!). São como símbolos, atitudes que de tanto se repetirem, acabam se tornando uma espécie de regra inconsciente.Ao mesmo tempo em que se exarceba um arquétipo, se critica este modelo. Ou não?!

Analisando superficialmente, é fácil perceber que o Dino desempenha o papel de macho insensível e burro, submisso ao patrão malvado e impaciente – o Sr. Ritchfield. Fran é a esposa dona de casa, sensata e compreensiva, moderna e inteligente – apesar de ‘mal-aproveitada’ por ter seguido as tradições da sociedade. Bob e Charlene são os filhos adolescentes. Ele é sensível e inteligente, apesar de volúvel. Ela, fresca e fútil. Baby é o caçula irreverente e desaforado, que não respeita o pai. Temos também, eventualmente, Zilda, a sogra ranzinza e desbocada e Roy, o amigo ingênuo e amado, que geralmente acaba explorado.

Até mesmo a televisão é ‘vítima’ dessa parábola – e aí talvez esteja a maior auto-crítica do seriado, ou onde ele se auto-elogia mais. Os programas infantis que passam na televisão pré-histórica que Baby assiste sempre estimulam as crianças à violência e a não gostarem de seus pais. Realidade? Exagero? Não importa, caricaturas.

Enfim, se você leu este texto com nostalgia e pôde perceber que sente saudade das manhãs em que passou em frente à tv vendo as trapalhadas daquele bando de dinossauros bobos, verdes e rabudos, não fique acanhado! Como quase todo mundo, você teve uma infância saudável que reflete até hoje na estrutura da sua personalidade – por que, aliás, segundo Freud, a personalidade se forma quando somos pequenos. Fora isso, o programa com certeza foi um exercício para o seu superego, e um treinamento inconsciente para a boa convivência social.

Além disso, eu tenho uma boa notícia: todas as noites, logo depois do Jornal da Band (aquele com o Boechat), você pode se deliciar com episódios nada inéditos da Família Dinossauro.

Relembrar o passado é bom. Rever a Família Dinossauro é quase uma auto-análise sem divã. Vai em frente! Só não esqueça de desligar a tv depois que o episódio terminar, por que começa o Show da Fé, e você corre o risco de entrar em depressão. Mas esse é um outro caso da cultura pop…

Postado por Débora

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8 Responses to Querida, cheguei!

  1. Paula disse:

    Não é a mamãe, não é a mamãe (na falta de neurônios para elaborar algo mais inteligente)! E viva a família dinossauro.

  2. Marina disse:

    Sabe, só fui descobrir que ‘A Família Dinossauro’ estava passando na TV quando fui para a Argentina mês passado. É que lá pega a Band, e toda a vida a Band do que a novela ‘O Clone’ dublada em espanhol +_+

    Bem, me re-apaixonei pelo Baby que sempre foi o meu preferido: – Oi, eu sou o Baby, tem que me amar!

    Hahahahahahaha…quando eu era criança, nunca tinha percebido a ironia imensa desse programa. Ainda bem que estou tendo a oportunidade de reaproveitá-la agora… xD

  3. Cris disse:

    Eu ia escrever sobre a Família Dinossauro hoje. Bom, depois do texto de vocês (muito bom, aliás), ou eu penso em outra forma de tratar o tema ou eu não escrevo. Até lá, veremos.
    Ei, já descobriu se é “minha casa” ou só “casa”? Não esquece de citar o ET, por favor ;P

  4. Cris disse:

    Ah, agora o blog tá ficando cada vez mais bonito. Gostei mais dele branco, mas não tava entendendo o q o desenho lá de cima tinha a ver. Agora com as tartarugas ninja e tal ficou muito mais bala.

  5. Naty disse:

    O mais engraçado é ver o Boechat dizendo “O Jornal da Band fica por aqui, você fica agora com a Família Dinossauro” ;P

    Assim como a Marina, eu nunca tinha percebido a ironia da Família Dinossauro. Acabava só me divertindo, sem pensar muito sobre toda essa quantidade de arquétipos e lições de moral…mas agora, quando a série voltou ao ar, passei a perceber tudo isso. É incrivel como a gente consegue enxergar as coisas boas quando decide pensar! Coisas da Indústria Cultural… 😉

  6. drops de menta disse:

    Relembrar é viver!!!

    =P

    muito bons tempos que passava na frente da TV assistindo e me matando de rir com o baby falando: “Di novoooo!!”…hahaha

    como vc disse, só perde para o chaves! =P

    Creio que as famílias Simpsons e Silva Sauro foram (e são) a representação exata da sociedade atual, ou arquétipos da sociedade moderna, como vc disse…

    enfim…parabéns pelo blog!!

  7. Isma Cardoso disse:

    Eu acho Família Dinossauro quase tão genial quanto Os Simpsons. Eu pensava que nem tinha marcado tanto época assim, que tinha ficado esquecido num canto das mentes e num álbum de figurinhas perdido no fundo de uma gaveta qualquer.
    Mas que bom que a Band ressucitou a série e que ainda tem muita gente que gosta.

  8. Bruna Angélica disse:

    Os Simpsons também têm umas tiradas sensacionais!
    Falando nisso, recomendo filme!
    Mas é aquilo que já foi falando antes: quando somos crianças, não nos damos conta disso, queremos mesmo é dar risada.
    O mais legal é depois de tanto tempo, rever os episódios e notar que as piadas continuam atuais.
    E que fazem ainda mais sentido!

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