Os senhores Smith

Andy Rourke, Johnny Marr, Steve Morrissey e Mike JoyceQuando iniciei minhas audições e análises musicais minudentes – e posteriormente, minha paixão pela música – acreditava piamente que uma boa composição deveria ser longa, bem trabalhada, cheia de arranjos complexos. E nisso se inclui um rock progressivo da vida, um erudito, até mesmo um jazz dos anos 30 até hoje. Para alcançar esses objetivos, o músico precisava ser muito competente, estudar improvisos e teoria durante boa parte dos dias e descobrir os caminhos do instrumento que toca. Árdua tarefa.

Obviamente que essa bitolação não poderia durar muito tempo, de modo que, creio eu, a maioria dos indivíduos que realmente apreciam as sensações sonoras combinadas sabem que uma boa composição é aquela que desperte algo em quem a ouça, seja melancolia, felicidade, raiva, tranqüilidade. A boa música, assim como um bom texto, não tem um limite: ela dura o tempo que precisa e ainda mexe com a pessoa que absorve suas vibrações. E para se conseguir isso, é preciso viver música, viver emocionalmente, e entender o instrumento musical, como se ele fosse seu amigo.

Acredito que foi desse jeito que os Smiths alcançaram o devido, estrondoso e passageiro sucesso nos anos 80, abandonando sintetizadores, teclados com efeitos e trazendo de volta o bom e puro timbre da guitarra, do baixo e da bateria, ressuscitando o clássico estilo de banda de rock dos anos 60. Em vez de seguirem a tendência da época ou tentarem algo diferente, mas ainda se encaixando ao estilo oitentista, Steve Morrissey (vocal) e Johnny Marr (guitarra), os cérebros do grupo, fizeram completamente o oposto: Marr era adepto do rock anos 50 e 60, enquanto Morrissey adorava a música pop e a rebeldia punk dos anos 70. Essa união de idéias completamente simétricas entre os dois integrantes, mas muito mais simétrica à tendência dos anos 80, é que concebeu a fórmula musical do grupo.

Uma boa parte dos grupos de rock famosos e considerados inovadores surgiu na Inglaterra. Claro, temos exceções de sobra, como Hendrix, Doors, Beach Boys e outros que agora me fogem o nome da cabeça. Mas é difícil ver um grupo musical que se destaque tanto e não tenha se formado em algum ponto diferente da terra da Dama de Ferro (Viram? Iron Maiden). Enquanto os Beatles vieram de Liverpool, o Black Sabbath do subúrbio de Birmingham e o Rolling Stones de Londres, os Smiths vieram de Manchester, lugar que pode ser considerado o berço do rock alternativo, já que de lá também veio o Joy Division.

Outra característica marcante e semelhante aos grandes grupos é uma teoria formada pelo lendário Keith Richards, que agora ficou mais famoso por ter inalado papai para dentro de sua urna torácica do que por ser guitarrista dos Stones (tá, estou exagerando, mas não posso perder essa piada). Uma certa vez, ele mencionou que o sucesso de uma banda estava nela ter um vocalista ousado e bonito e um bom guitarrista. Os Smiths possuíam justamente isso: Morrissey é um artista no palco. Joga flores, dança e faz poses sexys. Exagerava tanto que alguns desconfiavam de sua opção sexual, mas aí acho que os críticos é que realmente exageravam. Além disso, ele escrevia letras polêmicas: no primeiro álbum, há músicas que levam a crer que o tema principal é a pedofilia e o abandono de crianças pelos pais. A crítica foi tão interessante que Morrissey decidiu arriscar nesse ramo: no álbum seguinte, Meat Is Murder, claramente há uma analogia ao vegetarianismo, no qual o vocalista é um adepto ferrenho. E finalmente, em Queen Is Dead, terceiro álbum do grupo, a crítica é diretamente para a primeira-ministra inglesa Margaret Tatcher.

Se as letras e a performance de Morrissey eram marcantes, a genialidade de Marr era igualmente. Seus arranjos e sua personalidade em tocar e compor eram fora do senso comum, mexendo até mesmo com o mais petrificado dos corações humanos (Até mesmo com Muhammad Omar e George Bush, se estes gostassem de rock). A sonoridade era tão penetrante que você parava e pensava “Deus, de onde está vindo isso?”. Aí você pode perguntar: mas e Mike Joyce e Andy Rourke? Bom, Joyce tentava uma ou outra coisa diferente, mas nada expressivo, apesar de ser um bom baterista. E Rourke era o que chamamos de “carregador de piano”: fazia o básico, mantendo o fundo musical, para que Marr e Morrissey pudessem criar o que bem entendessem.

A última característica que põe os Smiths lado a lado com as grandes bandas do rock está no fato de como eles terminaram. É sabido que dois gênios musicais, quando reunidos, fazem mágica. Mas sabe-se também que, um dia, eles entram em atrito e afetam todo o alicerce do grupo. Com Waters e Gilmour foi assim: um era perfeito nas letras, o outro brilhante nos arranjos, e o Pink Floyd fazia milagres. Bastou um dia terem uma desavença forte para nunca mais se verem nos olhos. Beatles, então, nem é preciso falar. Pois o mesmo aconteceu com Marr e Morrissey. Suas personalidades entraram em conflito bem no final dos anos 80, e eles decidiram não continuar mais juntos. Cada um seguiu o seu lado. The band was dead.

Tudo bem, até aí são comparações interessantes, é verdade. Mas o que os Smiths tinham de diferente, afinal? Por que sua música é tão profunda assim? Por que mudou o rumo do rock alternativo, abrindo caminho para as bandas britpop?

Não perca o próximo capítulo, neste mesmo canal.

Postado por Frederick

Anúncios

7 Responses to Os senhores Smith

  1. Natusch disse:

    Gostei do blog. E o header é muito legal.
    Mas só respeitarei vocês, mesmo, depois de um post sobre os clássicos da Sessão da Tarde =P

  2. Débora disse:

    Calma Igor, está por vir!
    =)

  3. danisibonis disse:

    pô fred, quis enganar a quem dizendo que os críticos exageraram em duvidar da sexualidade do morrissey? huhuhuh… acho q a banda terminou por causa de brigas de bofes.

  4. paulabianchi disse:

    Pra aumentar o bafafa. O Morrissey não tinha admitido publicamente q era gay? Agora não sei se eles fugiram tanto assim da estética musical dos anos 80…

  5. Fred disse:

    Paula:
    1) Morrissey falava, na época dos Smiths, que era celibatário. Simplesmente não se interessava por ninguém. Deve ser por isso que as letras da banda são tão realistas e tristes: o cara deve ter tomado muito na cara.

    2) De um certo ponto, concordo contigo. Minha referência a eles fugirem do padrão anos 80 foi o fato de não usarem sintetizadores e abordarem em abundância frases de guitarra e baixo, sem a presença daqueles tecladinhos chatos e prolongados ao fundo (ok, uma ou outra coisa era legal assim, mas quando algo vira moda e todo mundo faz igual, enche o saco).
    Na parte que concordo contigo está no fato do timbre de guitarra do Marr ser bem oitentista, no padrão do rock alternativo.

    Beijo.

  6. Marina disse:

    The Smiths é muito booom, e quem se importa quem o Morrissey escolhia ou não como companheiro/a de cama??? =/

  7. Minoru disse:

    O Fred como sempre escrevendo mt mais do q eu consigo ler de uma vez so! aehuiae mas sempre falando de coisas legais… ia fazer uns apontamentos mas.. acho q fico por aqui so:
    essa frase podia ficar assim “mexendo até mesmo com o mais petrificado dos corações humanos (Até mesmo com Muhammad Omar e George Bush, se estes tivessem um coração – ou fossem humanos, vá saber)”
    e
    “Deve ser por isso que as letras da banda são tão realistas e tristes: o cara deve ter tomado muito no…” enfim…
    aeuaehi
    É so pra implicar mesmo fred, fora isso tenho q concordar, esse Patrick é fogo mesmo! (ou não era fogo, sei la…)
    Parabens!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: