Meta-linguagem (denovo) (eoutravez)

bourne.jpg“Isso não é uma história no jornal, é real.”
Jason Bourne, em O Ultimato Bourne

Quer dizer que as histórias dos jornais não são reais? A perspectiva do jornalista não passa de uma simples “história”? É essa a maneira como Hollywood enxerga o jornalismo?

Pelo contrário. Se fosse assim, não seria um jornalista um dos coadjuvantes de maior destaque no início de O Ultimato Bourne, um dos melhores filmes de ação do ano senão o melhor, mas isso é assunto para outro post. Se fosse assim, não teríamos filmes como O Informante, Capote ou Boa Noite e Boa Sorte. Se fosse assim, não ficaríamos sabendo dos detalhes do final da história de Jason Bourne através de um boletim jornalístico televisivo que trazia as repercussões dos atos do protagonista.

A figura do jornalista e os produtos da grande mídia aparecem com cada vez mais freqüência no cinema. E, também, na TV e nos quadrinhos. Figuras de jornais impressos, trechos de telejornais, notícias do rádio. Tudo isso se tornou recurso narrativo recorrente nos produtos da cultura pop. Recurso que dá informações ao público, muitas vezes centrais à trama. Além de que ajuda a contextualizar, a situar no universo da história aquele que está assistindo ou lendo. O espectador/leitor acaba recebendo as mesmas informações que o público ficcional recebe no universo ficcional.

watchmen.jpgIsso foi muito bem trabalhado, por exemplo, nos quadrinhos de Watchmen, obra-prima de Alan Moore. As manchetes dos jornais são tão parte da trama quanto as maquinações de Ozymandias ou a brutalidade de Rorschach. Elas mostram um pouco mais do clima de paranóia e de medo da ameaça nuclear, tão importante no contexto da HQ. Além disso, no fim de cada capítulo da obra, há trechos de alguns documentos fictícios, como livros, fichas policiais e, é claro, jornais e revistas. A presença desses documentos ajuda o leitor a entender a cronologia dos acontecimentos, bem como as mudanças na representação e na opinião pública no que diz respeito aos super-heróis do universo de Watchmen.

Já em O Cavaleiro das Trevas, outro grande clássico das HQs, o autor Frank Miller usa e abusa dos quadros que mostram a programação da TV em Gotham City. A ação desenfreada divide espaço com notícias, entrevistas de personalidades, opiniões de especialistas, debates a respeito da influência do Batman na sociedade, etc. Dessa forma, Miller cria um universo denso, profundo, complexo. Podemos ver tudo o que os cidadãos de Gotham supostamente estão vendo e nos sentimos parte da história.

Nos quadrinhos do Homem-Aranha, um jornal desempenha papel de destaque: O Clarim Diário. John Jonah Jameson, dono do jornal, considera o aracnídeo uma ameaça e costuma escrever editoriais criticando o herói. Sua influência é tamanha que o Aranha sempre foi uma espécie de pária, temido por muitos, nunca inspirando a mesma admiração que super-heróis como o Quarteto Fantástico ou o Capitão América.

Na literatura pop, também há exemplos do jornalismo no dia-a-dia dos personagens. Na série Harry Potter, temos o Profeta Diário, jornal lido pela grande maioria dos bruxos. Goza de grande prestígio e influencia muito a opinião pública da comunidade bruxa.

E não nos esqueçamos de uma das melhores paródias de jornalistas existentes: Kent Brockman, de Os Simpsons. Sensacionalista, pouco objetivo, parcial e não muito ético. Aparece com freqüência no desenho e tem uma participação no longa-metragem.

transmet.jpgMas o jornalismo e a mídia não são apenas acessórios das histórias. Muitas vezes, é o jornalista quem tem papel central na indústria do entretenimento. É o caso, por exemplo, dos já citados filmes O Informante, Capote e Boa Noite e Boa Sorte. É o caso das histórias do Superman que valorizam a sua profissão e o mostram atuando como jornalista investigativo. É o caso de DMZ, série de quadrinhos adultos da DC Comics que conta a história do jornalista Matthew Roth, preso no meio de uma zona de guerra em plena Manhattan. É o caso de Transmetropolitan, do genial Warren Ellis, HQ protagonizada por Spider Jerusalem, repórter adepto do gonzo journalism, criado em homenagem ao pioneiro do gonzo, Hunter S. Thompson. É o caso das séries Frontline, da Marvel Comics, sempre mostrando a visão de dois jornalistas, Ben Urich e Sally Floyd, em relação aos grandes eventos do Universo Marvel.

O jornalismo pode ser acessório ou tema principal nas produções da cultura pop, mas ele quase sempre acaba encontrando o seu espaço. E, concordo com a Débora quando ela diz que “a mídia é retratada com tanta freqüência por que está presente na vida das pessoas de forma muito forte”. A arte imita a vida. E a mídia faz com que sua presença seja sentida em ambas.

Postado por Kauê

Anúncios

One Response to Meta-linguagem (denovo) (eoutravez)

  1. Bruna Angélica disse:

    Pois não é que os jornalistas são essenciais numa boa história de aventura?
    Muito bom esse post!

    Fica a vontade de desvendar o gran finale do Sr. Bourne…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: