Alguma coisa na água dos pântanos de Louisiana

30/01/2008

Então que assim seja, leitores(as). O desatino de me incluírem na equipe do Cowabanga já foi cometido, e agora é tarde demais. Sempre que tiver tempo e inspiração, vou eu também contribuir com minhas visões sobre cultura pop, juntando-me humildemente ao mui seleto e qualificadíssimo time de redatores do blog. Espero ser capaz de trazer coisas interessantes para aqueles que, corajosamente, seguem esse blog onde quer que ele vá. Certinho?

Então tá. Vou começar lembrando uma das coisas que marcou a minha infância de modo inesquecível, colaborando decisivamente para moldar minha visão de mundo e me transformar nisso que eu sou agora: as revistas em quadrinhos do Monstro do Pântano. Sim, nada de Pato Donald ou Turma da Mônica – tá certo, eles até colaboraram um pouquinho, mas quem de fato marcou minha imaginação foi o Deus do Atoleiro, o Homem-Grama, o elemental da terra que dos pântanos de Louisiana espalhou o terror pelo universo DC e, de quebra, revelou de vez um nome hoje lendário para qualquer um que goste de HQs: Alan Moore.

O personagem em si foi criado no início dos anos 70, para uma história curta publicada em uma revista da DC Comics chamada House of Secrets. Basicamente, os criadores Len Wein e Berni Wrightson relataram a história de um cientista (na época chamado Alex Olsen) atingido por uma explosão, e que ao fugir em chamas para o pântano acaba incorporando parte da vegetação e se tornando uma criatura híbrida e horrenda. Era para ser uma única história simples, mas o sucesso foi considerável e a dupla acabou sendo convocada para o desenvolvimento de uma revista exclusiva do personagem. Nas primeiras edições, a história do Monstro do Pântano (Swamp Thing, no original) ganhou detalhes: agora chamado Alec Holland, o cientista pesquisava uma fórmula capaz de espalhar vegetação por regiões áridas e foi vítima de uma tentativa de assassinato – sua aparência tornando-se consequência da queda do experimento sobre sua pele e músculos, queimados pela explosão.

A série teve algum sucesso durante os anos 70, mas logo foi caindo de nível, e nos anos 80 uma seqüência de sagas esdrúxulas e mudanças de argumentistas / desenhistas ameaçava jogar a revista no limbo. É aí que Alan Moore se mete na história e a modifica completamente. Na época um roteirista pouco conhecido, Moore recebeu a revista com carta branca para fazer o que quisesse – afinal, era questão de meses para a série ser extinta definitivamente devido às baixíssimas vendas. De cara, ele muda a própria concepção do monstro: de resultado de um acidente químico, a criatura se torna um elemental da terra, uma entidade que se apropriou da consciência de Alec Holland muito mais do que de seu corpo. A partir daí, o que era uma sucessão de confrontos insossos com bandidões politicamente incorretos vira uma jornada de auto-conhecimento da própria criatura – inclusive afetivamente, pois aos poucos um relacionamento intenso com Abby Cable, ex-esposa de um personagem secundário chamado Matt Cable, surge para complicar ainda mais a vida do já bem confuso monte de lama ambulante. Jornada, é claro, sempre recortada por sagas aterrorizantes dentro das profundezas da América, geralmente representadas de modo sombrio pelos geniais ilustradores Steve Bissete e John Totleben. E isso que nem falei que foi nessa fase que foi criado o personagem John Constantine, à época um mero coadjuvante do verdão…

Foi esse arco de histórias que deu fama inicial a Alan Moore (depois viria Watchmen, né, mas enfim), que transformou o Monstro do Pântano em ícone dos quadrinhos e que, publicada no Brasil pela Abril, mexeu definitivamente com a mente de um pequeno porto-alegrense. Minha mãe tinha por hábito comprar revistas em quadrinhos para mim e para meu irmão, mesmo quando éramos muito novos e ainda não sabíamos nem ler – os desenhos nos distraíam, e assim ela conseguia alguns minutos de paz. Porém, embora fosse uma mãe desejosa de dar entretenimento aos filhos, ela não era tão extremada a ponto de analisar profundamente as revistas que comprava: dava uma olhada na capa, e se não parecia muito pesado ela levava para casa sem medo de errar. Problema é que, na época, as histórias do Monstro do Pântano eram publicadas na revista Superamigos – ou seja, minha mãezinha comprava uma revistinha com o Super-Homem ou o Aquaman na capa achando que tudo bem e voilá, salta um moleque de seis anos folheando páginas de puro terror quadrinístico.

Lembro que as primeiras imagens do Monstro eu vi quando nem sabia ler ainda, e que só anos depois tive coragem para tentar decifrar as histórias daquelas revistas. Lembro da saga do Macaco-Rei, em especial da assustadora aparição do demônio Etrigan (esse aí da foto ao lado), que era ainda mais satânico por só falar em versos – e poderá existir coisa mais mórbida do que um diabo amarelo que rima até quando vai dizer boa-noite? Fecho os olhos agora, e lembro de uma sequência em que Matt Cable, vitimado em um acidente de carro e ainda preso entre as ferragens, é assediado por um demônio. Em forma de mosca, o ser das trevas tenta o moribundo, e o pacto é selado pelo único modo que o acidentado é capaz: esmagando a mosca entre os dentes… Eram duas páginas assustadoras, tenham certeza – e, mesmo que hoje eu seja adulto e já tenha lido essa história umas quinze vezes no mínimo, ela ainda me impressiona, ainda mais quando lembro do impacto que ela me causou e dos pesadelos que tive por causa dela. Se hoje eu sou um fã de histórias de terror, é principalmente por causa da publicação no Brasil dessas histórias do Elemental de Louisiana – de modo que sou grato a Moore, Bissete e Totleben, bem como à Editora Abril e, por que não dizer, também a minha doce e ingênua mamãe, que com a melhor das intenções me permitiu ter contato com essas histórias maravilhosamente doentias e delirantes. Ainda hoje cato edições brasileiras do Monstro nos sebos da vida, em parceria com meu irmão – e não falta muito para que completemos de vez essa coleção singular. Depois de Moore, a coisa degringolou de novo, fizeram o bicho ter filho com Abby e até encontrar Jesus (literalmente!), e parece que a revista foi retomada recentemente, depois de anos desativada. Mas a “fase Moore” continua sendo clássica, e as reedições da saga são disputada a tapa por colecionadores que sabem o que é bom na vida. Nada mais justo.

Por hoje é só, pessoal. Divirtam-se, e até a próxima.

Postado por Igor


2008: Os Lançamentos do Ano – Parte 1

28/01/2008

Como quem é morto sempre aparece, o COWABANGA! está de volta com força total (por pelo menos um ou dois posts) após um longo hiato. Então, vamos de uma vez ao que interessa: a (primeira metade da) lista dos dez lançamentos mais esperados deste ano que está se iniciando, arbitrariamente selecionados por nosso comitê (de uma só pessoa). Vale de tudo que cabe no “imenso balaio da cultura pop contemporânea”: quadrinhos, cinema, video games, seriados, etc. Aliás, não há nenhum seriado na lista porque o comitê não sabe o que esperar do futuro próximo de Hollywood, com a greve dos roteiristas norte-americanos, e também porque não podemos estar ansiosos pela quarta temporada de Lost sem nem ter assistido à terceira. E não tem música porque o comitê pouco entende de música, nem sabe quem vai lançar novos álbuns esse ano. Linkin Park e Oasis não lançarão e isso é o bastante. Sem mais delongas, here goes nothing.

10. Star Wars: The Force Unleashed [VIDEO GAMES]
The Force Unleashed
Enquanto não chegam as novas séries de TV do universo Star Wars (em CGI e em live-action) os fãs da saga ambientada “há muito tempo, numa galáxia muito, muito distante….” (sim, é com quatro pontos mesmo, podem conferir) podem contentar-se com o jogo Star Wars: The Force Unleashed. Quer dizer, contentar-se é, com certeza, um grande eufemismo. O game promete agradar tanto os aficcionados pela criação máxima de George Lucas como os apreciadores de bons games de ação e aventura. Nele, o jogador encarna o aprendiz secreto de Darth Vader, capaz de manipular a Força de maneiras nunca antes vistas. Os gráficos são sensacionais, a história dá ainda mais profundidade ao imenso Universo Expandido de Guerra nas Estrelas e controlar um Jedi ou (no caso) Sith num video game sempre rende diversão sem igual. Star Wars: The Force Unleashed chega às lojas norte-americanas no segundo trimestre do ano, para Playstation 3, Xbox 360, WII (imaginem usar um Wiimote pra controlar um sabre de luz!!!), Playstation 2, PSP e DS. Que a força esteja com você.

9. Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal [CINEMA]
Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal
“Ele encontrou a Arca…
Ele sobreviveu ao templo…
Ele salvou o Graal.
Em 22 de maio… ele está de volta.”
Vinte e sete anos depois, o Dr. Henry Jones Jr. está de volta. Por enquanto, pouco se sabe a respeito do filme, mas uma história de George Lucas, com direção de Steven Spielberg, estrelada por Harrison Ford — interpretando mais uma vez o maior aventureiro do cinema — não tem como dar errado. Ainda mais, levando-se em consideração o bom elenco, que conta com nomes como Cate Blanchett, John Hurt e Shia LaBeouf. Só não está melhor rankeado porque as lembranças do comitê (de uma só pessoa) em relação às outras aventuras de Indiana Jones já não são muito vívidas e porque o inigualável Sean Connery recusou o convite de sair da aposentadoria e viver novamente Henry Jones pai. Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull) estréia lá fora e também no Brasil no dia 22 de maio.

8. Final Crisis [QUADRINHOS]
Final Crisis
Crise nas Múltiplas Terras, Crise nas Infinitas Terras, Crise de Identidade, Crise Infinita. Em 2008, mais uma crise na DC, mas, como o nome sugere, deve ser a última. Pelo menos por um bom tempo. No ano do septuagésimo aniversário do Superman, a DC Comics resolveu finamente dar liberdade ao excelente (e meio maluco) roteirista escocês Grant Morrison para que possa contar sua história definitiva do Universo DC (UDC), que já estaria há anos sendo planejada pelo escritor. Com o slogan, “heróis morrem, lendas vivem para sempre”, a Crise Final promete homenagear os maiores super-heróis da DC — em especial o Superman —, costurar diversos elementos da cronologia do UDC, além de alterar profundamente o status quo do Universo do Homem de Aço e companhia. Grant Morrison define a saga como “O Senhor dos Anéis do UDC”. Final Crisis será uma mini-série em 7 edições, ilustrada por J.G. Jones — um dos mais conceituados artistas da atualidade — e chegará as bancas norte-americanas no próximo mês de maio. Em terras tupiniquins, deve aparecer no ano que vem.

7. Batman – O Cavaleiro das Trevas [CINEMA]
Batman – O Cavaleiro das Trevas
Em primeiro lugar, façamos um minuto de silêncio em respeito ao falecimento de Heath Ledger, vulgo Coringa.

Sério. Muito triste a morte deste ator cuja carreira encontrava-se em franca ascensão, que acabara de fazer talvez o grande papel de sua vida. Pelo que se pôde ver até agora pelas imagens, trailers e campanhas, era o Coringa, era Heath Ledger quem roubava a cena no filme do Homem-Morcego. Mas chega de lamentações. O melhor que podemos fazer para honrar a memória do falecido artista é apreciar a película e seu último trabalho no cinema. Sobre o tal filme… Sinceramente, o comitê não é muito fã da caracterização do arquiinimigo do Batman como um maníaco que pinta a cara. Tira muito do aspecto trágico do Coringa, como mostrado em sua origem magnificamente roteirizada por Alan Moore e belissimamente ilustrada por Brian Bolland em A Piada Mortal. Ainda assim, as prévias que tivemos até agora nos deixaram bastante ansiosos para ver o novo confronto entre o Cavaleiro das Trevas e o Palhaço do Crime nas telonas. O comitê espera muito mais do que de Michael Keaton X Jack Nicholson. No mais, é Batman. Mesmo quando é tosco (Joel Schumacher, alguém…?) é no minimo divertido. E se tomarmos como base Batman Begins (que dentre todas as adaptações do Morcegão para outras mídias, só perde para o excelente seriado animado clássico), o novo bat-filme de Cristopher Nolan promete muito. Batman – O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight) entra em cartaz nos EUA e no Brasil em 18 de julho.

6. Grand Theft Auto IV [VIDEO GAMES]
Grand Theft Auto IV
A série GTA é uma das mais bem-sucedidas e mais divertidas de toda a história dos video games e, em 2008, chega aos consoles da nova geração. Ao contrário do que alguns podem pensar, GTA IV não é o quarto jogo da franquia, que conta, na verdade, com outros dez títulos, sendo oito games completos, mais dois pacotes de expansão. O número romano IV indica que se trata de uma espécie de “nova era” para a série, com extensas reformulações nos sistemas do jogo. O novo engine garante gráficos impressionantes e grandes melhorias na física e na inteligência artificial do game. Depois de San Andreas, a franquia volta à cidade de Liberty City, onde se passava GTA III. Desta vez, entretanto, o cenário de jogo é muito maior e baseado com alguma fidelidade na cidade de Nova York. Além disso tudo, o fã de GTA já sabe o que esperar: tiros pra todo lado, alucinantes perseguições de carro (ou helicóptero, lancha, moto, etc.), missões desafiadoras, novos veículos, novas “profissões”, novas armas, novos minigames, novos modos de interação com os personagens, liberdade para se fazer praticamente o que se quiser em Liberty City, referências e mais referências a filmes, outros jogos, etc. e uma trama envolvente como raramente se vê em video games. GTA IV será lançado para XBox 360 e Playstation 3 em 29 de abril.

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Por enquanto é só, pessoal. Ao longo da semana, postaremos a segunda metade da lista. Vocês não perdem por esperar, fiéis leitores (se é que alguém vai ler isso aqui).

P.S.: Bem vindo ao nosso staff, caro Natusch/Surfista Prateado (ou ruivo?).

Postado por Kauê