Um Ano Depois: A Morte do Sonho

08/03/2008

ou O que todos já sabiam que aconteceria porque já havia de fato acontecido lá fora

ou Ode a Ed Brubaker

Capitão América baleado

Façamos um minuto de silêncio em respeito ao falecimento de Steve Rogers, o Capitão América. Descanse em paz, soldado.

Lembro que em uma das primeiras aulas de Técnicas de Telejornalismo na faculdade, o professor pediu que escrevêssemos e gravássemos uma passagem baseada em uma notícia do dia. Me achando muito original, fiz um texto sobre a morte do Capitão América nos quadrinhos. Se não me engano, dois outros colegas escreveram sobre o mesmo assunto. Isso já faz um ano.

Na época, o triste fim do Sentinela da Liberdade foi noticiado em diversos grandes veículos dos EUA e do mundo. Teve destaque no New York Times e ganhou até matéria no Jornal da Globo. Ou seja, todos já sabíamos da morte deste verdadeiro ícone das HQs. Eu, inclusive, lera a revista original na qual ocorre o assassinato do Capitão dias depois de seu lançamento lá fora. Mesmo assim, isso tudo não tornou menos chocante ou comovente a leitura, apenas algumas horas atrás, da publicação nacional que traz A Morte do Sonho. (Os quadrinhos Marvel e DC publicados no Brasil têm uma defasagem de cerca de um ano em relação às revistas originais norte-americanas).

Após render-se para dar fim à Guerra Civil super-heróica, Steve Rogers é morto a tiros às portas do tribunal federal de Nova York, a caminho de seu julgamento, graças a um plano nefasto de seu nefasto arquiinimigo, o Caveira Vermelha. Um fim deveras melancólico para um herói de tantas lutas, tantas glórias e que representava tanto. Ainda assim, por mais estranho que possa soar, um fim que parece absolutamente adequado. (Principalmente se levarmos em consideração toda a simbologia e a intrincada relação entre o personagem e sua própria nação, entre a morte do Capitão América e a morte do sonho americano, que nunca pareceu tão próxima… Se o autor de fato tinha a intenção de estimular essa reflexão, é outra história, mas é difícil não se fazer a ligação).

Enfim, A Morte do Sonho – Parte Um é uma HQ emocionante, magistralmente conduzida pelo roteirista Ed Brubaker e muito bem ilustrada por Steve Epting. Numa mídia em que a morte de personagens tornou-se algo banal, Brubaker consegue escrever uma que se destaca, que realmente mexe com o leitor, mesmo aquele que já sabia dela antes de ler a história.

Não é à toa que Ed Brubaker recebeu o Eisner (o “Oscar dos quadrinhos”) de melhor escritor em 2007 por seu trabalho em — entre outras HQs — Captain America. Ao longo de 24 edições no roteiro da série, ele foi construindo uma trama cheia de ação e suspense, extremamente bem encadeada, que culminou com o assassinato do personagem-título no 25º número. O mais incrível é que, um ano depois, a revista do Capitão continua firme e forte lá fora, mantendo o alto nível de qualidade, mesmo tendo passado tanto tempo sem um Capitão América para justificar o nome na capa.

Na edição de número 34, lançada em janeiro deste ano nos EUA, finalmente estreou o novo Capitão. De qualquer forma, 8 edições consecutivas sem o personagem principal da série é um número absurdamente grande, que só vem atestar o carisma dos coadjuvantes do universo do Capitão América e, especialmente, o grande talento do escritor Ed Brubaker.

O Capitão América está morto. Vida longa ao Capitão América!

Postado por Kauê