Dobram os sinos pelo Metallica?

12/05/2008

Acredito que seja um pouco difícil para quem vê o Heavy Metal de fora entender a importância e a influência que o Metallica teve sobre a vida de milhões de pessoas nos últimos vinte e cinco anos. Eles foram, obviamente, uma das bandas mais emblemáticas do Heavy Metal dos anos 80, e ainda hoje são um fenômeno de vendas em todo o mundo – ou vocês acham que é bolinho vender mais de 100 milhões de cópias mundo afora? Mas, além disso, eles foram também um fenômeno comportamental, um sucesso que transcendeu as prateleiras das lojas de disco e influenciou decisivamente a postura, o visual e a personalidade de quantidades imensas de pessoas. Dá para dizer, por exemplo, que esse humilde escriba se tornou o que é hoje muito por causa do Metallica, mesmo que seus sentimentos sobre a banda tenham mudado imensamente com o passar do tempo. E com certeza o que se deu comigo se deu com muita, mas muita gente mesmo nos últimos tempos.

Vou tentar explicar. Ouvi Metallica pela primeira vez muito jovem, com uns onze anos eu acho, através de uma fita cassete gravada pelo filho de uma professora do colégio onde eu estudava. Ele era fã de Heavy Metal, e gravou para meus irmãos duas fitas Sony – fitas que, obviamente, ouvi muito por tabela. Uma delas era uma seleção com várias bandas de “rock pauleira”; a outra era, simplesmente, a íntegra do álbum “Master of Puppets”. Foi o primeiro disco completo que ouvi na vida, que eu lembre – e até hoje é um dos meus favoritos. O impacto daquelas oito músicas sobre a minha pessoa foi indescritível: creio que demorei um pouco para conseguir entender o que de fato estava acontecendo, mas lembro que desde o primeiro momento me fascinei pela energia que surgia daquelas músicas, e gostava de ouvir aquilo mesmo sem entender direito as nuances do que estava escutando. Mais do que um fã de Metallica, aquele moleque estava se transformando num fã de Heavy Metal, embora ainda não soubesse claramente disso.

Fui entrando na adolescência, e o Metallica me acompanhou pelo processo. Musicalmente, digam o que disserem, era uma equipe perfeita. James Hetfield, além de vocalista marcante, era um monstro das palhetadas, e mandava riff em cima de riff sem piedade; Kirk Hammett era responsável por alguns dos melhores solos que ouvi na vida; Lars Ulrich soava como nenhum outro baterista era capaz, preenchendo espaços inimaginados com seus contratempos surpreendentes; e Cliff Burton era a lenda, o baixista perfeito que morreu jovem em um acidente na van que conduzia a banda durante uma turnê. Jason Newsted se esforçava, tinha carisma, mas não podia ser maior do que a lenda – porque disso ninguém jamais seria capaz. Muito da minha vontade de tocar baixo veio da figura de Cliff e da aura de integridade musical que praticamente tornou-se sinônimo de seu nome.

Seus álbuns eram bíblias para o estilo, verdadeiras cartilhas que qualquer fã respeitável de Heavy Metal não podia ousar sequer cogitar ignorar. E se o som era perfeito, o que dizer da imagem daquela banda? Quatro cabeludos de jeans, tênis ou botas, camisetas pretas e jaquetas cobertas de “patches” – sem os exageros visuais típicos daquela época tão exagerada, eles eram a banda mais malvada e de atitude mais incrível que qualquer jovem de 14 ou 15 anos poderia querer. Ter uma camiseta do Metallica era como adquirir um manto sagrado; vesti-la era quase um ato ritualístico, um gesto de comunhão religiosa com algo maior do que se podia conceber. Vê-los ao vivo, então, seria praticamente atingir o Nirvana (sem trocadilhos musicais, por favor). Lembro que assistia os vídeos da banda no extinto “Fúria Metal” da MTV, apresentado pelo Gastão Moreira, e cada vez que passavam qualquer um deles era um momento em que o mundo tinha que esperar – afinal, era um clip do Metallica! Destaque para “One”, com uma história desconcertante sobre um aleijado de guerra – e graças a esse clip e essa música conheci “Johnny Got His Gun”, uma das obras mais belas e perturbadoras do século que passou, nada menos que isso. Em suma, o Metallica era mais que uma banda: era uma entidade, algo que não era deste planeta e que, por algum motivo, tínhamos sido afortunados de ter a chance de testemunhar. Em suma, eles eram foda!

Assim foi até a segunda metade dos anos 90, quando tudo começou a mudar. Tem quem os critique pelo “Black Album”, o disco que marcou o estouro comercial definitivo da banda – mas para mim o choque foi um pouco posterior, mais precisamente a partir do álbum “Load”. E, de novo, foi muito além da questão meramente musical. Cabelos cortados. Sapatos. Terninhos, pelo amor de Deus, terninhos! E, ouvindo o disco, um monte de musiquinhas chochas, enjoadas, com direito até a um “momento The Cure” na horrenda “Hero of the Day” – nada específico contra o The Cure, mas o Metallica não é a banda de Robert Smith, ora essa! A banda que não se vendia por mais sucesso que fizesse agora estava lá, vestindo roupas ridículas e gravando clipes idiotas para tocar no Disk MTV. Era mais do que simplesmente uma banda tentando novos horizontes – ou “se vendendo”, como muitos prefeririam colocar: era o Metallica, a banda mais fodona do planeta, viajando na maionese e perdendo completamente o rumo. Para muitos, eu incluído, foi um pouco como o fim de uma religião.

Desde então, eu diria que o encanto se quebrou. Continuei fã de Heavy Metal tanto, ou até mais do que antes – e bandas que eu já curtia na época, como Iron Maiden e Judas Priest, acabaram tomando naturalmente o lugar do Metallica na posição máxima do meu ranking musical. Não deixei de gostar da banda – pelo contrário, tanto que fui feliz da vida no show deles aqui em Porto Alegre, em 1999, no Hipódromo do Cristal. Putz, já fazem mais de nove anos… Enfim, não passei a detestá-los: apenas deixei de segui-los. Começaram com um monte de experimentações, fazendo saladas musicais, gravando discos com orquestra e o diabo – e tudo que eu sentia era que aquilo não era certo, que aquele não era o Metallica como ele deveria ser. E eles ainda me aprontam uma abominação chamada “St. Anger”, possivelmente o disco mais constrangedor já gravado por um gigante do Heavy Metal – com direito a um Kirk Hammett decorativo (já que não fez um único solo no disco inteiro e tocar as bases de guitarra nunca foi o seu forte) e um som de caixa de bateria que entrou sem pedir licença para o anedotário do Rock, de tão horrendo e estapafúrdio que é. Eis um disco que agradeço aos céus não ter adquirido – peguei emprestado de um amigo, e o ouvi na íntegra uma única vez. As outras tentativas eu simplesmente abortava no meio do caminho, porque era simplesmente impossível continuar até o final com aquele suplício voluntário.

Enfim. Tudo isso para dizer que, hoje, minha fé no Metallica foi em parte resgatada. O motivo é o seguinte vídeo, ligado a um projeto de divulgação do novo disco da banda batizado simplesmente de “Mission: Metallica”:

Nem perca tempo assistindo a propagandinha insossa do tipo “vejam como essa banda é realmente demais e bla bla bla”: deixe carregar todo o vídeo e vá direto para os 2mins e 23segs. Vai ser possível ouvir cerca de 30 segundos do que deve sair em junho ou junho, com o novo trabalho da banda – e, meu amigo/a, deu para dar esperança, MUITA esperança. Não é como se Cliff Burton tivesse ressuscitado nem nada disso, mas é o Metallica mais fiel a seu próprio legado musical que eu ouço em muito tempo – provavelmente desde os dias do “black album” ou mesmo antes disso. Claro que são poucos segundos (exatos trinta, para ser preciso), que é fácil se deixar levar pelo entusiasmo numa hora dessas e tudo o mais, mas é a primeira vez em mais de uma década que me sinto levado a querer comprar um disco novo do Metallica – e acreditem, isso não é pouca coisa. E, embora eu saiba que os tempos mágicos da minha adolescência Metal não voltam mais, o moleque que ouvia aquela fita Sony já cheia de flutuações de som e pensava em como seria genial ser como aqueles caras de certo modo voltou a se manifestar hoje, mais de quinze anos depois. Sério, Metallica: não estraguem tudo desta vez, pelo amor de Deus!


“Yeah. I can fly.”

01/05/2008

Heróis não nascem. Eles são construídos. O slogan criado para a divulgação de Homem de Ferro não poderia ter sido mais apropriado. O filme conta a história da origem do “ferroso”. De como Tony Stark passa de playboy bilionário fanfarrão a super-herói — sem nunca, na verdade, deixar de ser um playboy bilionário fanfarrão.

As expectativas para a película eram altíssimas. Primeiro filme completamente produzido pelo Marvel Studios. Quatro indicados (incluindo uma vencedora) ao Oscar no elenco. Grandes gastos em efeitos especiais. Marketing pesado, muito hype criado (e trailers sensacionais).

E fico feliz em constatar que Homem de Ferro obteve sucesso em atingir as expectativas. Uma aula de como se adaptar um super-herói dos quadrinhos para as telonas. O maior papel da (renovada) carreira de Robert Downey Jr.. Uma aventura que deve agradar não só aos fãs de HQs e do “latinha”, mas às mais diversas audiências. Um filme que empolga do início ao fim. Enfim, uma ótima estréia para a Marvel na indústria cinematográfica.

O roteiro é fora de série. Proporciona situações, diálogos e frases de efeito memoráveis, além de caracterizar os personagens (especialmente o protagonista) excepcionalmente bem. Mesmo sendo um pouco previsível em alguns pontos, a trama é inteligente, bem construída, verossímil (exceto talvez quando o vilão vai usar sua armadura pela primeira vez e se sai quase tão bem quanto Stark, que passa metade do filme testando e treinando com a armadura de Homem de Ferro).

A ação e o desenvolvimento dos personagens e do enredo são cuidadosamente dosados. É claro que ver o herói de armadura voando pelos céus e “cuidando” dos vilões é de empolgar qualquer um, mas o trunfo do filme é justamente mostrar o homem por trás da armadura e a construção (tanto no sentido literal como no figurado) do Homem de Ferro.

A direção é bastante boa. Se Jon Favreau não chega a ser genial, também não atrapalha (longe disso). Sem inventar muito, o diretor faz um trabalho “arroz com feijão” extremamente competente. Acostumado a trabalhar com comédias, impõe sua veia cômica à película, o que à primeira vista pode parecer um tanto estranho, mas que funciona muito bem, de forma integrada, e acaba rendendo várias boas gargalhadas.

A transposição a partir dos quadrinhos é muito bem feita. Homem de Ferro é o que um filme de super-herói tem que ser: leve, divertido, bem-humorado, com ação empolgante e bem dosada, sem melodramas desnecessários, fiel às origens (no caso, às HQs), cheio de referências (Dez Anéis, S.H.I.E.L.D., um possível Máquina de Combate, a cena depois dos créditos, etc.) pra deixar qualquer nerd satisfeito e com adaptações (Afeganistão ao invés de Coréia/Vietnã/Golfo, Obadiah Stane como sócio das Indústrias Stark) que não ferem de maneira alguma a mitologia do personagem.

O visual do filme (principalmente das armaduras) e os efeitos especiais são de primeira e quase nos fazem acreditar que é possível se usar um traje de metal para voar e disparar raios por aí. As cenas de ação são impressionantes e, algumas delas, bastante criativas (a maior exceção ficando para o clichê de, na batalha final, os dois antagonistas terminarem enfrentando-se sem os capacetes de suas respectivas armaduras). A trilha sonora é sensacional, recheada de rock’n’roll, abrindo com AC/DC e fechando com Black Sabbath.

Por último e não menos importante, o elenco faz um trabalho irretocável. Shaun Toub confere ao professor Yinsen mais personalidade do que sua contra-parte nos quadrinhos jamais teve. Jeff Bridges interpreta o inescrupuloso Obadiah Stane de maneira extremamente convincente. Terrence Howard, como Jim Rhodes, não tem tanto destaque na película, mas as suas participações são interessantes e ele deve aparecer bem mais na(s) seqüência(s) da franquia. A ganhadora do Oscar, Gwyneth Paltrow, faz o papel de Pepper Potts, a fiel assistente de Tony Stark, e tem algumas das melhores falas. Ao longo do filme, há, inclusive, uma tensão romântica entre Pepper e Tony, que é (muito bem) explorada em alguns momentos, mas nada nunca chega a se concretizar (toma essa, Hollywood!). Enfim, Paltrow faz um belo trabalho e só não rouba a cena porque temos um Robert Downey Jr. inspiradíssimo.

Como já disse há alguns posts atrás, Downey é Tony Stark. O (outrora) problemático ator nasceu para fazer esse papel, é perfeito para ele, mesmo porque tem tanto em comum com o personagem. Como Tony, Downey já teve tudo e quase perdeu. Como Tony, já precisou lutar contra o alcoolismo (algo que acabou ficando de fora deste filme) e contra seus demônios pessoais. Na tela, Robert Downey Jr. parece tão à vontade que às vezes tem-se a impressão de que ele nem mesmo está atuando. Suas falas são muito boas, suas emoções parecem genuínas, sua interação com os outros atores (e mesmo com os personagens robóticos) é espetacular, seu humor é afiado e ele realmente convence no papel de playboy fanfarrão. Robert Downey Jr. é o Tony Stark definitivo e Homem de Ferro, o filme, pertence a ele do início ao fim.