Dobram os sinos pelo Metallica?

Acredito que seja um pouco difícil para quem vê o Heavy Metal de fora entender a importância e a influência que o Metallica teve sobre a vida de milhões de pessoas nos últimos vinte e cinco anos. Eles foram, obviamente, uma das bandas mais emblemáticas do Heavy Metal dos anos 80, e ainda hoje são um fenômeno de vendas em todo o mundo – ou vocês acham que é bolinho vender mais de 100 milhões de cópias mundo afora? Mas, além disso, eles foram também um fenômeno comportamental, um sucesso que transcendeu as prateleiras das lojas de disco e influenciou decisivamente a postura, o visual e a personalidade de quantidades imensas de pessoas. Dá para dizer, por exemplo, que esse humilde escriba se tornou o que é hoje muito por causa do Metallica, mesmo que seus sentimentos sobre a banda tenham mudado imensamente com o passar do tempo. E com certeza o que se deu comigo se deu com muita, mas muita gente mesmo nos últimos tempos.

Vou tentar explicar. Ouvi Metallica pela primeira vez muito jovem, com uns onze anos eu acho, através de uma fita cassete gravada pelo filho de uma professora do colégio onde eu estudava. Ele era fã de Heavy Metal, e gravou para meus irmãos duas fitas Sony – fitas que, obviamente, ouvi muito por tabela. Uma delas era uma seleção com várias bandas de “rock pauleira”; a outra era, simplesmente, a íntegra do álbum “Master of Puppets”. Foi o primeiro disco completo que ouvi na vida, que eu lembre – e até hoje é um dos meus favoritos. O impacto daquelas oito músicas sobre a minha pessoa foi indescritível: creio que demorei um pouco para conseguir entender o que de fato estava acontecendo, mas lembro que desde o primeiro momento me fascinei pela energia que surgia daquelas músicas, e gostava de ouvir aquilo mesmo sem entender direito as nuances do que estava escutando. Mais do que um fã de Metallica, aquele moleque estava se transformando num fã de Heavy Metal, embora ainda não soubesse claramente disso.

Fui entrando na adolescência, e o Metallica me acompanhou pelo processo. Musicalmente, digam o que disserem, era uma equipe perfeita. James Hetfield, além de vocalista marcante, era um monstro das palhetadas, e mandava riff em cima de riff sem piedade; Kirk Hammett era responsável por alguns dos melhores solos que ouvi na vida; Lars Ulrich soava como nenhum outro baterista era capaz, preenchendo espaços inimaginados com seus contratempos surpreendentes; e Cliff Burton era a lenda, o baixista perfeito que morreu jovem em um acidente na van que conduzia a banda durante uma turnê. Jason Newsted se esforçava, tinha carisma, mas não podia ser maior do que a lenda – porque disso ninguém jamais seria capaz. Muito da minha vontade de tocar baixo veio da figura de Cliff e da aura de integridade musical que praticamente tornou-se sinônimo de seu nome.

Seus álbuns eram bíblias para o estilo, verdadeiras cartilhas que qualquer fã respeitável de Heavy Metal não podia ousar sequer cogitar ignorar. E se o som era perfeito, o que dizer da imagem daquela banda? Quatro cabeludos de jeans, tênis ou botas, camisetas pretas e jaquetas cobertas de “patches” – sem os exageros visuais típicos daquela época tão exagerada, eles eram a banda mais malvada e de atitude mais incrível que qualquer jovem de 14 ou 15 anos poderia querer. Ter uma camiseta do Metallica era como adquirir um manto sagrado; vesti-la era quase um ato ritualístico, um gesto de comunhão religiosa com algo maior do que se podia conceber. Vê-los ao vivo, então, seria praticamente atingir o Nirvana (sem trocadilhos musicais, por favor). Lembro que assistia os vídeos da banda no extinto “Fúria Metal” da MTV, apresentado pelo Gastão Moreira, e cada vez que passavam qualquer um deles era um momento em que o mundo tinha que esperar – afinal, era um clip do Metallica! Destaque para “One”, com uma história desconcertante sobre um aleijado de guerra – e graças a esse clip e essa música conheci “Johnny Got His Gun”, uma das obras mais belas e perturbadoras do século que passou, nada menos que isso. Em suma, o Metallica era mais que uma banda: era uma entidade, algo que não era deste planeta e que, por algum motivo, tínhamos sido afortunados de ter a chance de testemunhar. Em suma, eles eram foda!

Assim foi até a segunda metade dos anos 90, quando tudo começou a mudar. Tem quem os critique pelo “Black Album”, o disco que marcou o estouro comercial definitivo da banda – mas para mim o choque foi um pouco posterior, mais precisamente a partir do álbum “Load”. E, de novo, foi muito além da questão meramente musical. Cabelos cortados. Sapatos. Terninhos, pelo amor de Deus, terninhos! E, ouvindo o disco, um monte de musiquinhas chochas, enjoadas, com direito até a um “momento The Cure” na horrenda “Hero of the Day” – nada específico contra o The Cure, mas o Metallica não é a banda de Robert Smith, ora essa! A banda que não se vendia por mais sucesso que fizesse agora estava lá, vestindo roupas ridículas e gravando clipes idiotas para tocar no Disk MTV. Era mais do que simplesmente uma banda tentando novos horizontes – ou “se vendendo”, como muitos prefeririam colocar: era o Metallica, a banda mais fodona do planeta, viajando na maionese e perdendo completamente o rumo. Para muitos, eu incluído, foi um pouco como o fim de uma religião.

Desde então, eu diria que o encanto se quebrou. Continuei fã de Heavy Metal tanto, ou até mais do que antes – e bandas que eu já curtia na época, como Iron Maiden e Judas Priest, acabaram tomando naturalmente o lugar do Metallica na posição máxima do meu ranking musical. Não deixei de gostar da banda – pelo contrário, tanto que fui feliz da vida no show deles aqui em Porto Alegre, em 1999, no Hipódromo do Cristal. Putz, já fazem mais de nove anos… Enfim, não passei a detestá-los: apenas deixei de segui-los. Começaram com um monte de experimentações, fazendo saladas musicais, gravando discos com orquestra e o diabo – e tudo que eu sentia era que aquilo não era certo, que aquele não era o Metallica como ele deveria ser. E eles ainda me aprontam uma abominação chamada “St. Anger”, possivelmente o disco mais constrangedor já gravado por um gigante do Heavy Metal – com direito a um Kirk Hammett decorativo (já que não fez um único solo no disco inteiro e tocar as bases de guitarra nunca foi o seu forte) e um som de caixa de bateria que entrou sem pedir licença para o anedotário do Rock, de tão horrendo e estapafúrdio que é. Eis um disco que agradeço aos céus não ter adquirido – peguei emprestado de um amigo, e o ouvi na íntegra uma única vez. As outras tentativas eu simplesmente abortava no meio do caminho, porque era simplesmente impossível continuar até o final com aquele suplício voluntário.

Enfim. Tudo isso para dizer que, hoje, minha fé no Metallica foi em parte resgatada. O motivo é o seguinte vídeo, ligado a um projeto de divulgação do novo disco da banda batizado simplesmente de “Mission: Metallica”:

Nem perca tempo assistindo a propagandinha insossa do tipo “vejam como essa banda é realmente demais e bla bla bla”: deixe carregar todo o vídeo e vá direto para os 2mins e 23segs. Vai ser possível ouvir cerca de 30 segundos do que deve sair em junho ou junho, com o novo trabalho da banda – e, meu amigo/a, deu para dar esperança, MUITA esperança. Não é como se Cliff Burton tivesse ressuscitado nem nada disso, mas é o Metallica mais fiel a seu próprio legado musical que eu ouço em muito tempo – provavelmente desde os dias do “black album” ou mesmo antes disso. Claro que são poucos segundos (exatos trinta, para ser preciso), que é fácil se deixar levar pelo entusiasmo numa hora dessas e tudo o mais, mas é a primeira vez em mais de uma década que me sinto levado a querer comprar um disco novo do Metallica – e acreditem, isso não é pouca coisa. E, embora eu saiba que os tempos mágicos da minha adolescência Metal não voltam mais, o moleque que ouvia aquela fita Sony já cheia de flutuações de som e pensava em como seria genial ser como aqueles caras de certo modo voltou a se manifestar hoje, mais de quinze anos depois. Sério, Metallica: não estraguem tudo desta vez, pelo amor de Deus!

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5 Responses to Dobram os sinos pelo Metallica?

  1. Se tudo certo dessa vez, presidente Natusch, seria a grande notícia do ano. O show do Iron Maiden não entra no quesito “grandes notícias do ano”, obviamente. Aliás, não entra em quesito nenhum!

  2. natusch disse:

    Seria, talvez, no quesito “grandes notícias do milênio”? =P

  3. Kauê disse:

    he’s back (ainda que não-exclusivo)! \o/
    belo texto
    nunca fui muito fã (ou grande conhecedor) do metallica (ou de metal), mas sempre simpatizei com algumas músicas dos caras
    a única da qual eu realmente gosto bastante é “whiskey in the jar”
    agora, até que curti essa prévia do novo trabalho deles

  4. Geovani disse:

    Vc falo tudo oq tinha q fala deles
    o Cliff é mesmo e senpre sera uma lenda
    abraços

  5. Uhuull! disse:

    @Kauê, whiskey in the jar nao é uma musica do metallica, é apenas um cover q eles fizeram xD, entao acho que você nao gosta de nenhuma musica do metallica propriamente dito.

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