Qual sua cor favorita?

28/08/2008

Todo e qualquer fã de rock que tenha passado por várias vertentes do gênero, ao ouvir falar do lendário bar nova-iorquino Country, Bluegrass and Blues (ou, trocando em gajos, CBGBs) diretamente vai relacionar o lugar com o surgimento de bandas punk dos anos 70, tais como Television, Blondie, Misfitis, Patti Smith e, no exemplo mais clássico, os Ramones.
Os mesmos fãs podem não se lembrar de exemplos de menor referência, como a banda Psycho 69, cujo vocalista foi um conhecido artista brasileiro filho de uma “burguesinha” – como ele mesmo se referiu à sua genitora – paulistana. E também pode faltar fosfosol ao fato de que Sex Pistols e Ratos de Porão tocaram no CBGB’s alguma vez nos ultimos 35 anos.

Tudo bem, tudo isso é perdoável, e ninguém vai para o inferno (ou para o céu, dependendo do fã de rock) por causa disso. MAS – e sempre haverá um MAS, como bem salientava Paulo Seben – poderá haver sim um desconto de pontos conceituais para o além-vida se o indivíduo rockeiro em questão (até porque roqueiro, todos sabemos, só se for o assistente do Roque) esquecer que foi no CBGB’s que aconteceram as primeiras apresentações de um quarteto negro que certamente foi injustiçado na história do rock dos anos 80 e 90.

E é necessário ressaltar essas duas características do Living Colour: um grupo musical de rock formado por quatro negros; e um grupo que poderia muito bem ter ganho maior divulgação no mainstream musical, pois talento não falta para eles. E essa era uma questão que incomodava até mesmo o guitarrista e líder do conjunto, Vernon Reid. Nascido em Londres e radicado em Nova Iorque, Reid tocou com alguns músicos de jazz até decidir que seguiria seu caminho na música sem ser coadjuvante de outrem. Conhece, então, o baterista Will Calhoun e o baixista Muzz Skillings, ambos formados na Academia e simpatizantes do jazz. Ao mesmo tempo, Reid forma, junto com o jornalista Greg Tate, a Black Rock Coalition, organização que buscava financiar e divulgar o trabalho de rockeiros negros nos EUA. Afinal, desde Jimi Hendrix que o rock não lançava um negro como uma das referências principais do gênero.

Mas e o blues? Tristemente entrou em decadência nos anos 70, principalmente depois que artistas influentes do gênero, como Janis Joplin, Jim Morrison e outros padeceram. Tudo bem, o Led Zeppelin seguiu adiante, mas a idéia de Jimmy Page e cia. era fazer um trabalho mais hard, e não algo mais arraigado aos trabalhos mais antigos dos negros do rio Yazoo. Afinal, há uma grande diferença – e progresso – para uma música como You Shook Me e In My Time of Dying, ambas covers feitas pela banda. O blues, mesmo, só volta à ativa de forma total quand Steve Ray Vaughan estoura – e vejam, um branco ressuscitando o blues nos anos 80! Mais que justificada a criação da organização.

O power trio formado era a principal referência e aposta da Black Rock Coalition. O grupo ainda não tinha um vocal, mas isso se resolveria com o tempo: em uma festa de aniversário de um amigo, Vernon Reid acaba conhecendo um jovem que surpreendeu a todos os presentes ao cantar “Happy Birthday”. Seu nome? Corey Glover. O guitarrista não pensou duas vezes: chamou o rapaz para a banda e, assim, formava-se o quarteto.

Sabe aquelas bandas que assumem uma identidade própria com o som que engendram e cujo ouvinte reconhece na hora o grupo que está tocando a música? Pois o Living Colour é uma dessas bandas. É complicado de definir um estilo para eles, que juntos realizam uma melange de hard rock com funk e jazz, passando pelo soul, pelo metal e pelo rap. Ficou assustado? Pois então junte tudo isso a roupas e instrumentos coloridos, cabelos rastafaris e muita técnica dos membros – especialmente de Vernon Reid e sua palhetada – e se tem a fórmula final do conjunto. Aliás, mesmo que Reid seja um dedicado às causas do negro na música, Living Colour nada tem a ver com a cor da pele do artista. O nome da banda vem de uma vinheta de entrada de um programa da NBC, que mencionava: The following program is brought to you in living colour (O programa seguinte é trazido até você em cores vivas).

Mas o que faz realmente o grupo explodir para o sucesso e arranjar uma gravadora é o acaso – que atende por outro nome, bastante conhecido. Em uma das noites em que se apresentavam no CBGB’s, uma celebridade se encontrava na platéia, surpreendeu-se com o grupo e bancou o lançamento do primeira demo do quarteto, que conseqüentemente gerou a contratação do grupo pela Epic Records. O nome da criatura? Mick Jagger!

E pela Epic saiu o aclamado Vivid (1988). E quem ouviu o disco pôde constatar a qualidade musical do conjunto. Músicas como Open Letter (To a Landlord), Middle Man e Glamour Boys eram destaques do álbum, que em seu todo é ótimo. Mas o carro-chefe era uma música que falava sobre ego e personalidade: Cult of Personality tem uma letra forte e tocante, falando sobre a forte personalidade dos indivíduos, e como isso pode formar líderes de países, como Gandhi e Stálin. Nos shows, era sempre a mais pedida. Até fazer seus próprios shows, o Living Colour tocava como banda de abertura para os Rolling Stones e o Guns n’ Roses.
Todo o sucesso feito por Vivid fez com que o quarteto recebesse um Grammy em 1989, justamente por Cult of Personality.

Logo depois, saiu Time’s Up (1990), um disco que teve repercussão semelhante ao álbum anterior e que ajudou a banda a levar outro Grammy, mas que certamente foi menos impactante do que Vivid. Nele, destacam-se músicas como Love Rears It’s Ugly Head, Time’s Up, Type e Elvis is Dead. Em 1992, o grupo desembarcou no Brasil para tocar no extinto festival Hollywood Rock (que na edição seguinte foi televisionado ao vivo pela Globo).
Até que o grupo sofre sua primeira baixa: Muzz Skillings, não satisfeito com o trabalho da banda, retira-se (formando mais tarde um conjunto de rock chamado The Blue Mockingbirds). Para seu lugar, é chamado um amigo, Doug Wimbish, uma fera no baixo – que já havia trabalhado com Madonna, Mick Jagger e Jeff Beck, ou seja, não era pouca coisa.

Com Wimbish, a banda lança Stain (1993), álbum menos aclamado pela crítica em relação aos trabalhos anteriores. Entrementes, músicas como Leave It Alone e Ignorance is Bliss merecem um bom crédito.
Apesar do disco não ter recebido a mesma repercussão dos outros, a banda continuava em ascensão, arrebatando fãs de todo o mundo.

Até que, em 1994, Vernon Reid diz que está deixando o grupo, para espanto de todos. Não se sabe ao certo o que motivou o guitarrista a abandonar o Living Colour. Sabe-se, sim, que ninguém quis continuar o projeto sem o líder original. E a banda se desfez.
Durante sete anos, três coletâneas do conjunto foram lançadas: Pride (1995), Super Hits (1998) e Play It Loud! (1999). Os membros se dividiram, mas nunca deixaram de se contatarem: Reid seguiu carreira solo, bem como Corey Glover. Já Wimbish e Calhoun tocaram juntos em alguns projetos. O baterista veio algumas vezes para o Brasil, onde chegou a gravar – vejam só – um documentário sobre o maracatu.

Finalmente em 2000, Glover e Reid conversam sobre um possível retorno do grupo. E ele, de fato, acontece no mesmo ano. Onde? No lendário CBGBs. Com os membros completamente diferentes no visual (com exceção de Doug Wimbish, que manteve suas madeixas de fazer inveja ao Predador), o Living Colour estava de volta!
A partir daí, o quarteto entrou em estúdio e planejou uma turnê. Lançam o álbum CollideØscope (2003), cujo resultado ficou abaixo das expectativas, tanto para o grupo quanto para os fãs, embora boas músicas estejam presentes, como A ? of When, Flying e a versão que fizeram para o clássico Back in Black, do AC/DC.

O grupo continua com suas atividades até hoje, mesmo que pouco lembrado e reconhecido por muitos fãs de rock recém-saídos da maternidade, e já vieram duas vezes para o Brasil. Em uma dessas visitas, passaram por Porto Alegre, onde a cidade recepcionou-os de forma vergonhosa. Eu estava lá…
Mas isso é assunto para outro post. Aguardem neste mesmo canal a história sobre esse show.

Site da banda -> http://www.myspace.com/livingcolourmusic

Abraços a todos.

P.S.: Minhas escusas pela demora em escrever algo aqui. Prometemos uma tentativa de manutenção de regularidade (ao menos da minha parte), para não perdermos a credibilidade com vocês, leitores.

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A maldição do Cavaleiro das Trevas

05/08/2008

Abaixo, a capa do jornal carioca Meia Hora de Notícias, do grupo O Dia. Atentem para a chamada do “fantasma do Coringa”.

Esse jornal é foda mesmo.

E… Quem será a próxima vítima? Michael Caine? Gary Oldman? Aaron Eckhart? Maggie Gyllenhaal?

No mais, força Morgan Freeman! Apesar de fazer sempre (quase) o mesmo papel, tu és um baita ator.

P.S.: Aparentemente, Freeman vai ficar bem, já que teve “apenas” fraturas no braço e no ombro em seu acidente automobilístico e já foi operado.

P.P.S.: O COWABANGA! tarda mas não falha. Como qualquer blog sobre cultura pop que se preze, não deixaremos de publicar uma (breve) análise do segundo melhor filme do ano (que caminha para ser o filme com a segunda maior bilheteria da história), Batman – O Cavaleiro das Trevas. Aguardem para os próximos dias.