“Batman has no limits.”

No meu último post, mencionei que a análise de Batman – O Cavaleiro das Trevas deveria chegar em poucos dias. Aparentemente, me equivoquei. O correto seria: “aguardem para as próximas semanas”. De qualquer forma, antes tarde do que mais tarde. E eis que, no dia seguinte ao fim de semana em que o filme chegou aos US$ 500 milhões nas bilheterias americanas, consolidando sua posição como a película de segunda maior bilheteria doméstica da história (atrás apenas de Titanic), chega, finalmente, nossa (minha) avaliação da mais recente incursão do morcegão aos cinemas.

O Cavaleiro das Trevas é seqüência direta do já muito bom Batman Begins e supera seu antecessor em praticamente todos os aspectos. Sucesso absoluto de público, aclamadíssima pela crítica, a nova aventura cinematográfica de Batman aposta numa abordagem densa e soturna como raras vezes vista em adaptações do herói para outras mídias. Batman – O Cavaleiro das Trevas é um filme trágico, pessimista, que mal permite o vislumbre de uma luz no fim do túnel. Mostra a loucura e o caos se espalhando como uma epidemia, o triunfo (ainda que não completo) do mal e da corrupção, a transformação dos heróis em vilões. Como diz o personagem Harvey Dent, “ou você morre como herói, ou vive o bastante para se tornar o vilão”. E é exatamente disso que trata o filme. Em poucas palavras, pode-se dizer que a obra conta a história da queda do “cavaleiro branco” de Gotham, da transformação do promotor público Harvey Dent, flagelo da máfia de Gotham City, no tresloucado Duas-Caras.

O Cavaleiro das Trevas é um autêntico drama policial – que pode muito bem inaugurar uma nova era, mais sombria, para os filmes de super-heróis (pelo menos na DC/Warner). Entretanto, ao contrário do que muito tem se falado, não creio que o fato da película ter uma temática dark e adulta faz com que ela transcenda completamente o gênero super-heróis ou adaptações de quadrinhos. Pelo contrário. Acredito que um de seus grandes trunfos é justamente o de ser um thriller policial e psicológico dos melhores sem nunca perder sua essência de filme de super-herói. O Cavaleiro das Trevas junta o melhor de dois mundos – as cenas de ação mirabolantes com um cara vestido de morcego, dignas das HQs, e drama e suspense de fazerem inveja a qualquer filme policial – de forma orgânica e funcional, sem preterir nenhuma das partes.

Tecnicamente, o filme beira a perfeição. A fotografia é sensacional e a direção de Christopher Nolan, inspiradíssima. Aliás, numa época dominada pela computação gráfica, Nolan preferiu reduzir os efeitos especiais ao mínimo, gravando tudo que fosse posível com objetos e situações reais, o que conferiu maior dinamismo e verossimilhança às cenas.

O roteiro é extremamente bem amarrado. Nada, na película, é gratuito. Tudo tem motivo de estar ali e (quase) tudo faz sentido. Até mesmo as piadinhas do mordomo Alfred, que em Begins pareciam, às vezes, meio perdidas, fora de contexto, encontram seu lugar e sua função perfeitamente. A trama avança com naturalidade e cada personagem é bem desenvolvido, tendo seu “lugar ao sol”, desde Lucius Fox até o Coringa. Além disso, o filme tem diversas falas e situações memoráveis, como a já antológica cena do lápis.

As atuações também são, em geral, muito boas. Até mesmo a personagem Rachel Dawes, antes vivida pela insossa Katie Holmes, ganha uma interpretação de qualidade com Maggie Gyllenhaal. Mas, em meio a bons papéis de Christian Bale, Gary Oldman, Aaron Eckhart, etc., o destaque mesmo fica por conta do Coringa de Heath Ledger. É difícil compará-lo, por exemplo, ao Coringa de Jack Nicholson, que tinha uma personalidade completamente diferente. Ainda assim, ouso dizer que Ledger foi melhor. Confesso que, no início, a história da maquiagem me incomodou, mas dou o braço a torcer: é a versão definitiva do personagem. Menos brincalhão, mais sinistro e sádico do que nunca. Louco, masoquista, sociopata, um verdadeiro avatar do caos. Cheio de (geniais e… irritantes) trejeitos como só Ledger soube fazer. Ainda tenho esperança que a morte de Heath Ledger tenha sido apenas uma grande jogada de marketing e ele apareça na cerimônia do Oscar para receber o prêmio de melhor ator (se bem que a concorrência é forte).

Bom, depois de tantos elogios você já deve estar achando que vou dar o braço a torcer (mais uma vez) e dizer que Batman – O Cavaleiro das Trevas é o melhor filme de todos os tempos ou, pelo menos, o filme do ano até aqui. Enganou-se, fiel (?) leitor. O Cavaleiro das Trevas pode ser um drama policial de primeira, “o Cidadão Kane dos filmes de super-heróis”, poesia pura nas telonas, etc., mas não chega a ser perfeito. Para começar, a inflexão de voz gutural e distorcida usada por Bale quando uniformizado como Batman é irritante e, por vezes, quase incompreensível. O destino de Harvey Dent/Duas-Caras e o papel do Batman nesse destino, além da resolução da situação nas balsas, também me incomodou. Além disso, uma grande qualidade da película, que é equilibrar o destaque dado a diversos personagens, acaba sendo uma faca de dois gumes: por vezes, o (suposto) protagonista, o personagem-título, parece apenas mais um e não o centro em torno do qual toda a história deveria girar. Isso não é exatamente um defeito e, aliás, é algo muito comumente (bem) utilizado nos quadrinhos, mas não deixa de causar certa estranheza. Por fim, o meu grande problema com O Cavaleiro das Trevas: não é um filme que empolga. Pelo contrário. É tudo muito bonito, muito bem feito, poético até, mas fica faltando aquela sensação de euforia na saída do cinema. Não que todo filme tenha que ser empolgante e extremamente divertido do início ao fim, mas é o que eu esperaria de um filme do Batman, pelo menos numa pequena dose. Um pouco mais pipoca e menos obra de arte. Deixem o pessimismo para Watchmen.

Dito isso, Batman – O Cavaleiro das Trevas é, mesmo assim, um dos melhores filme que vi na vida. Mas poderia ter sido ainda melhor. E provavelmente eu teria achado ainda melhor, não tivesse o filme sido lançado pouco depois de Homem de Ferro. Claro, eu não poderia fugir da comparação entre os dois blockbusters de super-heróis deste verão norte-americano, certo? Então, se O Cavaleiro das Trevas é mesmo o Cidadão Kane, a poesia parnasiana, o caviar dos filmes de super-heróis, Homem de Ferro é Duro de Matar, é um gibi leve e descompromissado, é um bom xis-salada. Menos sofisticado, mas mais divertido, mais empolgante.

Pronto, que comecem a me atirar as pedras.

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One Response to “Batman has no limits.”

  1. Paula disse:

    Eu sai com uma sensação de baita filme, triste, mas baita filme. E não é toda sessão de cinema que tem essa capacidade.

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