Cotovelos duplamente de luto

Hoje de manhã pensei no Astronauta. Sim, o Astronauta da Turma da Mônica, que desbrava o Universo em busca de diversas raças alienígenas e planetas desconhecidos, dentro de sua nave que mais parece uma bola de futebol da Copa de 66. Representante da imaginária BRASA (Brasileiros Astronautas), ele viaja sem descansar. Tem como companhia apenas um computador, com quem às vezes joga xadrez. E em uma ou outra oportunidade, um extraterrestre que aceita acompanhá-lo em suas aventuras, abandonando-o posteriormente.

Mas nem os desenhos possuem lá seu mundo perfeito, como acreditamos que eles tenham quando somos crianças. Para seguir sua carreira, o Astronauta teve que abandonar sua família. Seus amigos. E principalmente, sua maior paixão: uma garota chamada Ritinha. Cabelos negros, olhos verdes, corpo esbelto. Mulher para homem nenhum botar defeito (embora eu preferisse bem mais a Jessica Rabbit; céus, aonde estou chegando discutindo beleza de mulher de desenho animado??? Ah, tudo bem, já vi garotas se desmanchando por causa do Johnny Bravo ¬¬). Em resumo: Astronauta quis fazer o que todas dizem para seu amado fazer: siga seu destino e seu trabalho, cresça na vida.

E ao crescer (ou diminuir, já que ele fica praticamente um anão ao entrar naquele uniforme) e desbravar estes pagos cósmicos, o nosso herói do espaço sideral (ou vão me dizer que vocês nunca ouviram esse disco?) retorna pela primeira vez para a Terra… E encontra sua amada nos braços de outro. Com um filho. E nosso herói chora de tristeza, adquirindo outra companhia indesejável em suas viagens: uma dor-de-cotovelo. Aquilo que acompanha os apaixonados infelizes, que não podem realizar seus sonhos mais profundos, não podem possuir sua amada, aquilo tão precioso para seu coração. E este, senhoras e senhores, é um dos tantos exemplos de apaixonados que sofrem com sua articulação braçal injuriada pelo deus Cronos (sim, as chamadas “feridas do tempo”, seu animal!)

E foi no Astronauta que pensei hoje quando soube da morte de outro apaixonado. Certamente o indivíduo dedicado ao éter cósmico (só pra parodiar o nosso eterno professor Carvalho), ao ter lido através de seu computador, em um portal qualquer de notícias, a morte do seu ídolo Waldick Soriano, de câncer na próstata, certamente sentiu sua dor-de-cotovelo ganhar vida e debulhar lágrimas, numa variação da chamada “tirar água do joelho”. Ele, que não era nenhum Bidu, não. Nenhum Bugu. Nenhum Duque. Nenhum Floquinho. Nenhum Manfredo. Nenhum Monicão. Nenhum Vagabundo (pra quebrar essa hegemonia da MS Produções no post) pra viver tão humilhado.

O cotovelo mais injuriado, na música brega, deste brasil vinil, estava nas últimas desde maio do presente ano. Nascido em 1933 na cidade de Caetité, na Bahia, ele estourou nos anos 50, 60 e 70. Dizem por aí que ele foi um dos músicos mais beneficiados pela Ditadura, já que era um dos artistas menos censurados nas rádios. Mas isso não obscurece seu talento. Um autêntico artista Country do Brasil.
Nunca vi a cena que falam que ele e Silvio Santos se abraçaram, perderam o equilíbrio e caíram no chão juntos, ainda abraçados. Caídos, simularam uma cena engraçadíssima, como se estivessem se “cantando” um ao outro. Se alguém tiver o vídeo dessa cena, por favor, nos avise.

Mas não foi só o Astronauta que chorou hoje a morte de um ícone dos indivíduos com dor-de-cotovelo. Nos EUA, o personagem Charlie Brown (que também não é nenhum Snoopy, não) sentiu sua articulação braçal debulhar secreções, quase como uma carpideira. Aos 91 anos de idade, morreu ontem o desenhista Bill Melendez, que desenhava as animações da turma do Charlie Brown para a televisão e também fazia a voz do Snoopy (voz entre aspas, é claro; Snoopy só fazia barulhos, nunca pronunciou uma palavra). Durante quase quarenta anos, trabalhou junto com Charles Schultz, o criador da turma do Charlie Brown. Não pesquisei, mas provavelmente os episódios do Beagle da Páscoa e da menina ruiva que o Charlie Brown é apaixonado e dá um beijo nele em um baile do colégio (meus dois episódios preferidos) tenham sido desenhados por ele.

Hoje é um dia triste, para os que sofrem de dor-de-cotovelo (como o Astronauta e o Charlie Brown) e também para os fãs, tanto de Waldick quanto do Snoopy, de todas as idades. A eles, deixamos apenas nosso muito obrigado e que partam em paz. Ao Astronauta e ao Charlie Brown, nosso consolo. Até porque a vida, a morte e a dor maldita da articulação braçal, não necessariamente nessa mesma ordem, seguem.

Foto do Waldick Soriano é da Folha Imagem (fotógrafa Ana Ottoni)
Mais notícias:
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Desenhista do Snoopy morre aos 91 anos nos EUA

(Silêncio sem despedida)

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3 Responses to Cotovelos duplamente de luto

  1. poetriz disse:

    Belo texto. Fiquei realmente comovida, principalmente pelos comparativos, porque sinceramente não era fã do grande cantor da Dor-de-Cotovelo.
    Mas há de admitir-se que temos que ser solidários nas dores, principalmente, porque dor-de-cotovelo todos estamos destinados a ter algumas na vida…

    Bjs!

  2. Débora disse:

    Outro que morreu foi Fernando Torres (pai da Fernanda Torres, esposo da Fernanda Montenegro… ó céus, como é que não se confundiam nessa família?!). Semana obscura.

  3. Natusch disse:

    Posso dizer “Brilhante” sem parecer puxa-saco demais?…

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