As cores opacas de Porto Alegre – Parte 1

Como prometido, aqui vai a minha história sobre o show do Living Colour em Porto Alegre.

Abril de 2004. Nada de muito interessante acontecia. Este escriba aguardava a matrícula pra faculdade no segundo semestre do ano – o que, ao mesmo tempo, significava férias prolongadas por oito meses. Quase trinta dias antes, havia perdido, naquele momento, o show da minha vida: Jethro Tull em Porto Alegre. Impossível para um cidadão que ainda não havia ingressado no mercado de trabalho arranjar 100 pila pra um mísero ingresso de platéia alta no Teatro do Sesi (ainda mais quando os pais achavam que gastar essa grana em um show era um absurdo). Quando havia surgido uma chance mágica caída do céu de conseguir 200 reais através de uma campanha publicitária do Universitário, pasmem: os ingressos esgotaram. Em cinco dias. De 10 a 15 de março. O show seria dia 22. Deus, como aquilo doeu! Mas, como dito em outro post, a vida seguia.

Passaram-se alguns dias e surgiu a notícia de que o Living Colour estava vindo para o Brasil. “Esse não vou perder nem que chovam canivetes!”, pensei. Ingresso a 25 reais, bem baratinho. Bons tempos que os ingressos em Porto Alegre eram baratos. Para se ter uma idéia, em 2002 o Nightwish tocou no Opinião por 25 reais cada entrada. Em 2004, esse preço subiu 220% – ou, trocando por gajos, para 80 reais! A Rita Lee dava pra assistir no Teatro do Sesi por 40 reais a platéia baixa (ingresso mais caro). Hoje você paga 70 reais e olhe lá. A crise, irônica e meta-ironicamente, atingiu os artistas…

O show seria realizado no Gigantinho, dia 24 de abril, às 21h. Até aí tudo bem: apesar da acústica do Gigantinho servir mais para desgastar o ouvido do que melhorar o som, ao mesmo tempo que o lugar NÃO SERVE para comportar um espetáculo grande – e o Iron Maiden esse ano provou isso de forma cabal – a tendência era de bom público. Afinal, o Living Colour surgira na década de 80, era apreciado por muitos da imprensa musical mundial e tinha muitos fãs no Brasil. O próprio baterista Will Calhoun disse que os admiradores que mais clamaram pela volta da banda foram os brasileiros.

Nem o fato das bandas de abertura nada terem a ver com o Living Colour abalou minha convicção, apesar de ter deixado algumas farpas no cérebro. “Como assim?”, mentalizo vocês perguntando. Ora, caro leitor. Você que leu o post sobre o quarteto, informou-se um pouco mais, ouviu a música deles e definitivamente concretizou a existência deles em sua cabeça, responda: se você fosse produtor desse show, colocaria o Diretoria e o TNT para abrirem o espetáculo? Pois é, nem eu. E se você quer saber do porquê desses dois grupos terem tocado na abertura do Living Colour, tem uma explicação bem plausível e possível, senão verdadeira: o show estava sendo apoiado e patrocinado pela Atlântida. Isso lembra uma certa gravadora, que por pura coincidência, tinha contrato com o Diretoria e o TNT. Lembre-se, caro leitor: a crise chegou nos artistasE nas produtoras também. Bem como nos patrocinadores!

Os ingressos foram vendidos nas lojas Colombo dos dois maiores shoppings da capital na época. Divulgação na TV? Praticamente inexistiu. Jornais? Uma ou outra coisinha. Rádio? Aí não sei responder, não ouvia e não ouço a Atlântida. Alguns amigos comentaram que a divulgação na rádio começou dia 20 de abril, ou seja, quatro dias antes do show. Qualquer impressão de desmerecimento não é mera coincidência.

Em meio a esse cenário cinza da publicidade, o anúncio mais vigente eram os outdoors em Porto Alegre informando sobre o show. e estava escrito bem assim:
Lojas Colombro e Rádio Atlântida apresentam: LIVING COLOUR – A MAIOR BANDA DE RAP ROCK FUSION CHEGA A PORTO ALEGRE!

Rap Rock Fusion… Que diabos é Rap Rock Fusion? Alguém sabe me explicar?
Pois agora imagine, caro leitor: sabemos que Porto Alegre é uma capital que geralmente não tolera diferenças. Ou você é colorado ou é gremista. Ou você é de esquerda ou de direita. Ou é maragato ou é chimango. Ou é roqueiro ou é reggaeiro. Meio-termo? Não, não existe esse vernáculo no vocabulário de alguém que se criou em Porto Alegre.
Pois bem, um cidadão porto-alegrense que veja esse cartaz na rua certamente não vai entender lhufas do que é Rap Rock Fusion. Mas certamente o primeiro sentimento vai ser de repúdio. De ojeriza. Elementar, meu caro Corey. Como dois estilos completamente distintos podem se fundir? Sem falar que Rap + Rock normalmente dá a entender que o Living Colour poderia ser comparado com bandas como Limp Bizkit e Linkin Park.
Resultado final: os publicitários que cuidaram dessa divulgação certamente não sabiam o que divulgar da banda. E fizeram qualquer coisinha.

Mas parando um pouco de ser ranheta e voltando para as desconfianças na véspera do show: comprei meu ingresso. Vinte e cinco reais bem gastos. Olho para o número do mesmo (nota do redator: procurei o ingresso aqui em casa dentro de uma pasta, mas não o encontrei. Por isso, vai ficar a informação inexata aqui). Algo entre 140 e 150, pelo que eu lembre. Fico preocupado: só isso de ingressos vendidos? Entro na internet e falo com alguns amigos. Um deles comprou o ingresso em outro lugar. Número 96. Somando, não chegaria a 300 pessoas. Das duas uma: ou estavam pra comprar os ingressos em cima da hora, ou o show seria um fiasco de público. Ou talvez aquela numeração nada tivesse a ver com a quantidade de ingressos vendidos. Conversando com alguns conhecidos que só tinham ouvido ou nunca tinham ouvido falar da banda, apostava mais na segunda opção.

Mesmo assim, ficava um tanto satisfeito com o quarteto chegando a Porto Alegre. O setlist me animava mais ainda: só clássicos da banda. Type, Cult of Personality, Glamour Boys, além de algumas improvisações e covers, como Back in Black, Seven Nation Army e Crosstown Traffic. Os quatro ainda tinham ido no programa do , que acabei não assistindo (por sono e pra não estragar a surpresa do show).

Até que chegou o grande dia 24 de abril de 2004. E chegavam as quatro horas da tarde. Banho, uma roupa leve e o ônibus até o Parque da Marinha. Depois, meia hora de caminhada até o Gigantinho.

O resto dessa história?
Em menos de uma semana, a parte 2 (isso, claro, se ela tiver audiência).

Abraço a todos.

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2 Responses to As cores opacas de Porto Alegre – Parte 1

  1. Eduardo disse:

    Tá.. e a continuação cade??

  2. Paula disse:

    Não faz pergunta difícil.

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