It’s magic, we don’t have to explain it #2

25/10/2008

O COWABANGA! volta à ação com a segunda parte de nossa série a respeito das mais polêmicas – ou piores – histórias da história do Homem-Aranha nos quadrinhos, selecionadas arbitrariamente por nosso comitê (de uma só pessoa). Hoje é a vez de…

Capítulo Final

Nos primeiros anos após a famigerada Saga do Clone, o Espetacular Homem-Aranha até teve algumas boas histórias, mas nada de realmente… ahn… espetacular. E as vendas – sempre elas – não se encontravam num patamar dos mais “saudáveis”. Procurando dar uma sacodida nas HQs do herói, a Marvel resolveu fazer um reboot, dar início a uma nova fase, zerando dois dos títulos do herói e cancelando outros dois. Pra arrumar a casa antes do recomeço, veio a história Capítulo Final, cometida… digo… idealizada pelos roteiristas Howard Mackie e John Byrne, os dois principais responsáveis pelo iminente reboot. A saga foi publicada em novembro de 1998, nas revistas Amazing Spider-Man #441, Peter Parker: Spider-Man #97, Spectacular Spider-Man #263 e Peter Parker: Spider-Man #98.

Nas histórias anteriores, Norman Osborn havia conseguido limpar seu nome e fazer todos acreditarem que ele não era o Duende Verde. O vilão passou, então, a agir mais nos bastidores, a la Rei do Crime (ou Lex Luthor), manipulando das sombras a vida de Peter Parker a fim de torná-la o mais infernal possível. Sedento por poder, resolveu tomar parte da Reunião dos Cinco, ritual mágico que concederia a seus participantes um de cinco dons diferentes: imortalidade, sabedoria, loucura, morte e poder supremo.

É em meio a esse ritual, que começa Capítulo Final. Osborn aparentemente fica com o dom do poder e parte para colocar em movimento seu plano para acabar definitivamente com o Homem-Aranha. Enquanto isso, Alison Mongrain, antiga empregada de Osborn que havia raptado a filha de Peter e Mary Jane – ou o corpo da filha de Peter e Mary Jane – foge do vilão Magma (lobotomizado por Osborn) e procura os Parker para lhes contar um terrível segredo. Pouco antes de ser morta por Magma, Mongrain consegue falar com Mary Jane. May está viva.

Pensando tratar-se de sua filha, a pequena May, o Aranha vai à propriedade de Osborn em busca de respostas e confronta o vilão, agora, usando novamente seu traje de Duende Verde. O cabeça-de-teia consegue vencer o bandido – baita “poder definitivo”, hein, Osborn? – e encontra May. Mas… Rá!!! Pegadinha do Mallandro! Não é a May que todos esperávamos. É a Tia May! A Tia May que havia morrido durante a Saga do Clone, em Amazing Spider-Man #400, talvez uma das melhores e mais emocionantes HQs do teioso em todos os tempos, uma das mortes mais bem executadas e mais bem aceitas (pelos fãs) na história dos quadrinhos.

Aparentemente, os autores Byrne e Mackie colocaram em suas respectivas cabeças que precisavam da velha May de volta para o seu “glorioso” reboot – que acabou sendo um belo de um fracasso, diga-se de passagem. Até aí, tudo bem. Afinal, em gibis, quem é morto sempre aparece. E desfazer, invalidar, “retconear” histórias antigas é a coisa mais comum do mundo. O grande problema é a explicação absurda, vergonhosa e ridícula encontrada pelos roteiristas para a volta da Tia May. Sério! Até hoje, o comitê mal consegue acreditar que escritores profissionais tiveram essa idéia e que ela foi aprovada por uma editora (supostamente) séria como a Marvel. Bom… Chega de suspense. Apresento-lhes, então, uma das piores idéias da história da ficção moderna!

Na verdade, quem havia morrido no lugar de May Parker durante a Saga do Clone havia sido uma atriz. Isso mesmo, uma atriz moribunda contratada por Norman Osborn somente para fazer Peter Parker sofrer. Para ficar igual a Tia May, ela havia sido geneticamente alterada (e ensaiado muito). Pôde assim, despedir-se do mundo com seu último grande papel, interpretando a Tia do Homem-Aranha em seus momentos finais. Genial!

E quem revela tudo isso ao teioso é o próprio Osborn, após dar uma surra no Aranha e fazer uma demonstração de suas novíssimas bombas de DNA, capazes de degenerar e matar inúmeras pessoas em pouquíssimo tempo. E tem mais um detalhe: a Tia May tem, alojado em seu cérebro, um pequeno objeto que está lhe matando aos poucos. Se o objeto for retirado, acionará bombas de DNA do Duende Verde espalhadas por diversos locais. Mas May já está a caminho da mesa cirúrgica de Reed Richards, o Sr. Fantástico, para ter removido o corpo estranho de seu crânio. E agora, Homem-Aranha?

Agora, vem a batalha final! Duende Verde e Homem-Aranha lutam em frente ao Clarim Diário e quem vence a contenda é… o Duende! Ele desmascara o aracnídeo e o mata em frente a vários de seus amigos e conhecidos. É o fim do herói…

Ou não. A vitória de Osborn não passava de uma alucinação sua. Aparentemente, durante o Ritual dos Cinco, o dom concedido a ele não fora o poder absoluto, mas a loucura. O Aranha era quem havia realmente saído triunfante na “batalha final” entre os dois. Tudo certo, então? Não. O prédio do Clarim, danificado durante a luta, está prestes a cair e cabe ao nosso herói utilizar toda a sua força para mantê-lo de pé até que as autoridades entrem em ação. Além disso, o teioso ainda tem que correr para avisar o Dr. Richards que o objeto na cabeça da Tia May é um gatilho para as bombas de DNA de Osborn. No fim das contas, Richards consegue desativar o objeto e tirá-lo do cérebro de May de forma segura. Peter, por sua vez, resolve deixar de ser o Homem-Aranha (pela 43ª vez) e dedicar-se mais à família. Fim da história.

Analisemos, então, o saldo final. Norman Osborn por trás de tudo, como de costume. Rituais místicos obscuros. “Ressurreição” de uma personagem cuja morte tinha funcionado muitíssimo bem. A explicação mais tosca possível pra “ressurreição”. Dois velhos clichês idiotas: a) vilão contando todo o seu masterplan para o herói; b) parte do que o leitor viu não passava de sonho/alucinação. Bombas de DNA capazes de transformar pessoas em geléia orgânica inanimada. Peter desiste (temporariamente) de ser o Aranha, como de costume. Incoerências cronológicas diversas.

É… Acho que não foi uma história muito boa. Ainda assim, o maior problema do comitê (de uma só pessoa) com ela é justamente a solução ridícula utilizada para trazer a Tia May de volta. Se não fosse por esse “pequeno detalhe”, muito provavelmente, Capítulo Final nem mesmo entraria nesta nossa série sobre as piores HQs do cabeça-de-teia. Pois é… Uma atriz geneticamente modificada… UMA ATRIZ!

Bom… Semana que vem, continuamos com Pecados Pretéritos.

Mais It’s magic, we don’t have to explain it:
– Parte 1.1: Saga do Clone
– Parte 1.2: Saga do Clone (continuação)
– Parte 3: Pecados Pretéritos
– Parte 4: O Outro
– Parte 5: Um Dia a Mais

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LittleBigReligiousProblems

17/10/2008

LittleBigPlanet é o próximo e aguardadíssimo (pequeno) grande lançamento da Sony para o Playstation 3. Trata-se de um jogo de plataforma 2D (a la Mario ou Sonic) com belos gráficos em 3D, fases malucas e criativas e um alto nível de customização e interação raramente visto no mundo dos games. Além da campanha principal, os jogadores podem cooperar no modo online ou no mesmo console e – o fator que mais vem chamando a atenção – inventar e compartilhar na rede suas próprias fases com uma ferramente de criação que impõe poucos limites à criatividade do usuário. Para um trailer, clique aqui.

O jogo vem gerando muito hype, aparentemente justificado, já que os principais críticos têm elogiado muito e dado ótimas avaliações à versão final de LBP. O único pequeno (grande) problema é que seu lançamento foi adiado do dia 21 para 27 de outubro, nos EUA (em outros países, o atraso pode ser ainda maior). Esse adiamento deve corresponder a um prejuízo financeiro considerável para a Sony, além de constituir uma situação embaraçosa para a companhia.

O motivo do atraso? Religião. Aparantemente, durante o período de testes beta, alguém percebeu que em uma das músicas da trilha sonora eram citados trechos do Alcorão. A Sony – que já teve problemas com a Igreja Anglicana por incluir a Catedral de Manchester no jogo Resistance: Fall of Man – decidiu, então, retirar a canção da versão final do jogo e, por isso, terá de postergar sua distribuição. Pelo jeito, os muçulmanos consideram ofensivo o uso de seu livro sagrado misturado a manifestações da cultura pop, como músicas e video games.

O comunicado oficial da Sony:

“Durante o processo de revisão anterior ao lançamento de LittleBigPlanet, foi trazido a nossa atenção que uma das músicas de fundo licenciadas por uma gravadora para uso no jogo contém duas expressões que podem ser encontradas no Alcorão. Nós tomamos ação imediata para retificar isso e pedimos nossas sinceras desculpas por qualquer ofensa que isso possa ter causado”.

Para quem tem curiosidade de saber mais a respeito da tal música, aqui vai um link do YouTube onde você pode ouvi-la. O nome da canção é Tapha Niang, seu autor, o malês vencedor do Emmy, Toumani Diabaté. O curioso é que Diabaté é tido como muçulmano fervoroso e, até onde se tem notícia, nunca foi criticado – muito menos atacado por terroristas islâmicos (que fique bem claro que isso foi uma piada, afinal o COWABANGA! também não quer causar nenhuma ofensa à comunidade islâmica) – por usar partes do Corão em sua obra.

Toumani Diabaté toca a kora, instrumento que lembra uma harpa, tipico da África Ocidental

Toumani Diabaté toca a kora, instrumento que lembra uma harpa, típico da África Ocidental

A seguir, os trechos da música retirados do Alcorão:

1) “كل نفس ذائقة الموت” (“kollo nafsin tha’iqatol mawt”, algo parecido com: “Toda alma deve sentir o gosto da morte”).
2) “كل من عليها فان” (“kollo man alaiha fan”, algo como: “Tudo que está na terra perecerá”).

Por algum motivo, a letra da música não me parece combinar muito com a atmosfera de “fofura” pretendida por LittleBigPlanet

De qualquer forma, considerando a quantidade de incomodação – e de possíveis ameaças terroristas – da qual a Sony está se livrando, bem como ao fato da letra da música retirada aparentemente não harmonizar tanto com o clima do jogo, no fim das contas, talvez o prejuízo não venha a ser tão grande. Decisão acertada dos caras.

P.S.: Por falar em ataques terroristas, algum idiota por aí resolveu “reencenar” os ataques de 11 de setembro utilizando-se das ferramentas de criação da versão beta de LBP. Assista… Se tiver estômago…


It’s magic, we don’t have to explain it #1.2

16/10/2008

Concluímos aqui a nossa “breve” análise de uma das mais polêmicas histórias do Homem-Aranha. Pra quem não leu a primeira parte do texto, aqui vai o link. Sigamos, então, com a nossa estimada…

Saga do Clone

Janeiro de 1996. Chegava, enfim, a nova fase do Aranha (com pelo menos 9 meses de atraso em relação ao plano original), quando era publicada a revista Sensational Spider-Man #0, trazendo a primeira aventura de Ben Reilly com o (novo e estiloso) uniforme de Homem-Aranha. Havia um único problema… Quando a revista foi lançada, os dias de Ben como o escalador de paredes titular já estavam contados. Meses antes, quando apenas as primeiras histórias da nova fase haviam sido escritas e planejadas, o editor responsável pela linha do Homem-Aranha, Bob Budiansky, já havia tomado a decisão: Peter Parker tinha que voltar a ser o único e verdadeiro cabeça-de-teia. O próprio roteirista de Sensational Spider-Man na época, Dan Jurgens, é quem havia conversado com Budiansky e ajudado a convencer o editor de que substituir Peter por Ben era inaceitável e que os fãs provavelmente não apoiariam a mudança. Ora, que leitor, afinal, gostaria de saber que o personagem que acompanhou fielmente pelos últimos vinte anos não passava de uma cópia e todas as suas histórias deixariam de ter grande significado…? Na verdade, Jurgens estava absolutamente certo. Mas o resultado da nova resolução de Budiansky gerou caos na equipe responsável pelas histórias do herói. Os arcos planejados a longo prazo iriam para o lixo e todos estavam convocados a criar uma trama que trouxesse Peter Parker de volta de maneira plausível – e sem uma filha. As propostas em torno da tal trama envolveram idéias que iam desde o envolvimento de Mefisto (como, ironicamente, acabou acontecendo anos depois, em Um Dia a Mais) e viagens no tempo – solução que quase acabou adotada – até a revelação de que não só Ben seria um clone, que acabaria degenerando, mas Mary Jane também, sendo que a original estaria aprisionada há tempos e nunca teria casado com Peter.

As sementes para o retorno de Peter Parker começaram a ser plantadas tão logo quanto possível. Ele voltou a aparecer regularmente na revistas-aranha. Mais aventuras envolvendo clones se seguiram. Depois de algum tempo, ficou decidido que haveria uma figura misteriosa, um gênio maligno mexendo os pauzinhos dos bastidores, manipulando a tudo e a todos, uma espécie de deus ex machina, responsável por toda a confusão dos clones. O personagem chegou até a aparecer em alguns quadros, sempre envolto pelas sombras, aparentemente utilizando aparelhos de suporte de vida. Só não estava decidido, ainda, quem ele seria. Talvez, um ressuscitado Harry Osborn. Mas Bob Harras, novo editor-chefe da Marvel não gostava da idéia. De qualquer forma, a decisão precisava ser tomada rapidamente, pois a Saga do Clone já tinha data para acabar: abril de 1996. Entretanto, Harras ordenou que a conclusão fosse adiada em 6 meses para não entrar em conflito com uma mega-saga dos X-Men que seria publicada na mesma época, o Massacre.

Nos meses seguintes, mais caos editorial. Jurgens decide deixar a equipe criativa do Aranha. Budiansky é demitido. Por outro lado, os escritores têm alguma liberdade para brincar com Ben Reilly e fazer algumas histórias que fogem um pouco do tumulto costumeiro da Saga do Clone. Em meio a isso, o chefão da Marvel, Bob Harras, decide quem seria o grande vilão por trás de tudo. Sua decisão causou bastante polêmica entre os próprios roteiristas e editores, mas, no fim, foi a idéia de Harras que prevaleceu.

Em dezembro de 1996, chegava às comic shops norte-americanas o arco Revelações que… ahn… revelava a quem pertencia a mente maligna que arquitetara toda a Saga do Clone. O culpado por tudo era… Norman Osborn, o Duende Verde original! E a figura sombria que sobrevivia apenas graças a aparelhos e que havia aparecido nos últimos meses nas histórias do Aranha era, na verdade, o Ogro – Mendel Stromm, antigo sócio de Norman Osborn supostamente morto, que agora obedecia suas ordens. Mas… Espera aí… Tem alguma coisa de errado nisso… Osborn não estava morto? Sim! Norman Osborn havia morrido em Amazing Spider-Man #122, de julho de 1973 – empalado por seu próprio planador –, uma edição depois de assassinar a então namorada do teioso, Gwen Stacy, em uma das mais emblemáticas histórias do herói. Então, como poderia ser ele o responsável por toda a confusão dos clones? A solução encontrada pelos escritores e editores da Marvel foi a seguinte… Norman sobrevivera ao seu “confronto final” com o Aranha graças à fórmula do Duende Verda que corria em suas veias e deixava-o mais forte e resistente que um humano comum. O funeral e tudo mais haviam sido uma farsa. Osborn passara, na verdade, anos na Europa, forjando um império criminoso – que incluia, por exemplo, a Irmandade dos Scriers –, sem nunca deixar de observar e influenciar a vida de Peter Parker. Com a morte de seu filho Harry, o segundo Duende Verde, após um duelo com o Aranha, Osborn havia decidido colocar em ação seu grande plano de vingança contra o cabeça-de-teia.

No clímax de Revelações, Peter Parker e Ben Reilly lutam contra Norman Osborn, que voltava a ser o Duende. Enquanto isso, Mary Jane é drogada por Alison Mongrain (empregada de Osborn) e entra em trabalho de parto prematuramente. A criança – que se chamaria May Parker – supostamente já nasce morta, mas aparentemente Mongrain a seqüestra (ou, pelo menos, seu corpo). Na batalha entre os Aranhas e o Duende, Peter e Ben conseguem derrotar Norman, mas a custo da vida de Ben, que salva Peter ao jogar-se na frente do planador do Duende que atingiria seu suposto clone. Mas eis que vem a “surpresa”: o corpo de Ben Reilly acaba se degenerando quase que instantaneamente, como acontecia com todos os clones criados pelo Chacal. Isso só poderia significar que Peter Parker sempre fora, de fato, o verdadeiro… ahn… Peter Parker. Os testes genéticos que haviam determinado que Ben era o original haviam sido sabotados por ordem de Osborn. E assim acabava a Saga do Clone. Quanto à sub-trama da filha de Peter e MJ, ela nunca foi propriamente resolvida. Como a Marvel não queria que o Homem-Aranha fosse pai, sua história foi simplesmente esquecida e o pessoal da editora gostaria que todos os leitores esquecessem também…

Haja confusão! Como já foi dito anteriormente, nem queira entender esse angu. A saga que deveria durar seis ou sete meses, alongou-se por mais de dois anos, gerou pontas soltas que até hoje não foram bem resolvidas, foi responsável por um decréscimo na popularidade do herói e, para muitos, maculou a história do Homem-Aranha nos quadrinhos para sempre. Vários leitores dizem que, para eles, o verdadeiro Aranha morreu assim que começou a Saga do Clone e até hoje não voltaram a ler suas aventuras – ou só voltaram recentemente, com Brand New Day. Há quem adore, mas a grande maioria dos fãs do escalador de paredes tem ódio mortal por essa fase e – assim como a Marvel – prefere ignorar o fato de que um dia ela existiu.

O comitê (de uma só pessoa) é obrigado a confessar que, quando a Saga do Clone foi publicada no Brasil, em 1997 e 1998, a juventude, a pouca experiência no mundo das HQs e o senso crítico ainda em formação fizeram com que acabasse gostando muito da história, de todas as suas reviravoltas e novidades. A nostalgia do comitê faz com que considere a saga uma das melhores do cabeça-de-teia. Entretanto, o comitê acredita que, se sua leitura fosse feita hoje em dia, provavelmente acharia tudo de uma absurdez incrível e de uma qualidade, na melhor das hipóteses, extremamente irregular. Por isso mesmo, a Saga do Clone vai ficar na memória do comitê do jeito que foi lida pela primeira vez, como se fosse a melhor coisa do mundo…

Semana que vem tem mais It’s magic, we don’t have to explain it, com uma visão geral do arco O Capítulo Final (e o comitê promete tentar ser mais breve).

Salve Ben Reilly!

P.S.: Por incrível que pareça, este post duplo só deu uma pequena pincelada no assunto Saga do Clone, deixando muita, mas muita coisa de fora. Se você tiver curiosidade e quiser saber mais sobre a saga, tanto em termos de histórias, quanto em relação a toda a bagunça editorial, recomendo vivamente a leitura do Life of Reilly, blog (em inglês) que abriga uma série de 35 artigos que falam de tudo a respeito da Saga do Clone, incluindo entrevistas com os autores e informações dos bastidores. A versão em português, A Vida de Reilly, tem os primeiros 22 artigos traduzidos.

Mais It’s magic, we don’t have to explain it:
– Parte 1.1: Saga do Clone
– Parte 2: Capítulo Final
– Parte 3: Pecados Pretéritos
– Parte 4: O Outro
– Parte 5: Um Dia a Mais


It’s magic, we don’t have to explain it #1.1

11/10/2008

Chega às bancas brasileiras neste mês a revista Homem-Aranha #82, trazendo a conclusão de Um Dia a Mais, uma das sagas mais execradas – tanto pelo público como pela crítica especializada (e até por membros da equipe criativa) – do teioso em seus 46 anos de HQs. Nela, o Demônio (Mefisto) exige o casamento – O CASAMENTO! – de Peter Parker em troca de salvar a vida da (eterna) Tia May, recentemente baleada, às portas da morte. No fim das contas, o pacto com o Coisa-Ruim altera a realidade ao redor do Aranha em diversos níveis, de uma maneira que não faz lá muito sentido. As palavras do editor-chefe da Marvel e idealizador da coisa toda, Joe Quesada, sobre as inúmeras mudanças? “It’s magic, we don’t have to explain it”. Ou, em bom português: “É mágica, nós não temos que explicar”. Maravilha!

Para marcar este momento especial (?) da publicação de Um Dia a Mais em terras tupiniquins, o COWABANGA! cumpre promessa feita ainda em fevereiro deste ano (“Mas One More Day e as sagas ruins do teioso são assunto para um post vindouro”) e traz uma série de cinco textos falando a respeito das mais polêmicas – ou, simplesmente, piores – histórias do Homem-Aranha de todos os tempos (selecionadas arbitrariamente por nosso comitê de uma só pessoa). Vamos, então, ao nosso primeiro capítulo (que será dividido em duas partes), com a famigerada…

Saga do Clone

O melhor resumo possível pra Saga do Clone seria mais ou menos assim: nem queira entender esse angu. Ou, talvez: it’s clones, we don’t have to explain it. Mas, ao contrário do sr. Quesada, tentaremos dar uma explicação que faça um mínimo de sentido… Vamos aos fatos.

A Saga do Clone original foi um arco publicado nos EUA em 1975, nas edições 144 à 151 de Amazing Spider-Man. Na história, o vilão Chacal revela que havia criado um clone do Aranha, com suas memórias e tudo o mais. Eventualmente, os dois lutam até que se dão conta que estão, na verdade, do mesmo lado. Numa explosão, um deles acaba morrendo e o Peter Parker sobrevivente leva o corpo de seu “irmão” para ser incinerado. Questionando-se se seria realmente o Parker “original”, o Homem-Aranha chega a conclusão de que sim, ele era o verdadeiro, pois tinha sentimentos reais por Mary Jane, que haviam se desenvolvido após a época em que ocorrera a clonagem.

Quase duas décadas depois, o herói aracnídeo vivia uma fase negra. Harry Osborn, o segundo Duende Verde, melhor amigo de Peter Parker e pior inimigo do Aranha, acabara de morrer. Não sem antes colocar em curso, junto com o Camaleão, um plano para fazer Peter acreditar que seus pais ainda estavam vivos. Na verdade, não passavam de MVAs (Modelos de Vida Artificial) projetados pelo Camaleão. A Tia May tinha novamente problemas de saúde. E o Homem-Aranha tornava-se cada vez mais sombrio. Por último e não menos importante, o interesse dos leitores pelo personagem ia diminuindo. Foi nesse contexto que a Marvel decidiu que precisava de uma grande saga para o cabeça-de-teia, nos moldes da Queda do Morcego ou da Morte do Super-Homem. Foi assim que aconteceu a volta do clone. Foi assim que surgiu a novíssima Saga do Clone.

A verdade era que o clone de Peter Parker não havia morrido na saga original. Ele acordou, escapou de ser cremado e quando voltou para “sua” casa, viu que o outro Peter estava lá. Confuso e julgando ser a cópia, partiu para um exílio de anos, adotando o nome de Ben Reilly (Ben, em homenagem ao Tio Ben, e Reilly, o sobrenome de solteira da Tia May). Mas agora May Parker estava às portas da morte e Ben decidia voltar a Nova York para se despedir de sua tia.

Começava aí uma das maiores confusões da história dos quadrinhos. Uma hora um era o clone, outra hora era o outro. Ben tornava-se o Aranha Escarlate. Surgiam personagens obscuros como os Scriers e Judas Traveller (sobre ele, o ex-editor Glenn Greenberg certa vez disse que “ninguém – nem os escritores, nem os editores – parecia saber quem ou o que diabos era Judas Traveller. Ele parecia um ser imensamente poderoso, quase místico com incríveis habilidades, mas qual era a real dele?”). Peter estava morrendo e, por algum motivo, o Doutor Octopus o salvava. Mary Jane engravidava. Outros clones surgiam aos montes, como o Aracnocida e Kaine (talvez o personagem mais legal da saga, com exceção de Ben Reilly). Kaine matava o Doutor Octopus. O Chacal voltava da morte. Mais clones. Ben era o verdadeiro, Peter, o clone. Peter era o verdadeiro, Ben, o clone. Ambos eram clones. Tia May morria (finalmente! Se bem que foi só temporário…). Traveller e os Scriers voltavam a dar as caras. Mais clones. Peter Parker era acusado de assassinato. Festival de clones. Até que, finalmente, depois de muita confusão (e muitos clones), testes comprovavam de uma vez por todas (até parece…) que Ben Reilly era o original.

Depois de uma batalha final contra o Chacal e mais clones, Peter Parker (o suposto clone) muda-se para Portland com uma Mary Jane grávida e deixa Ben Reilly (o suposto Peter Parker de verdade) com o manto de Homem-Aranha em Nova York.

O plano inicial da Marvel com a Saga do Clone era fechar uma era sombria do Aranha e dar a oportunidade de um novo início, com uma volta ao básico. Peter solteiro, com problemas financeiros, sem tantas tragédias pesando em sua consciência. Histórias mais leves, divertidas. A introdução de Ben Reilly como Homem-Aranha parecia servir justamente a esse propósito, mas as coisas fugiram ao controle.

A história deveria durar apenas alguns meses, de outubro de 1994 até abril de 1995, quando seria lançado o número 400 de Amazing Spider-Man – que traria um recomeço à franquia do Aranha, dando início à fase de Ben como o novo cabeça-de-teia. Entretanto, a saga (que se espalhava pelos quatro títulos mensais do herói, mais edições especiais) foi se alongando além da conta, mergulhando em tramas e sub-tramas cada vez mais complexas, mistérios quase insolúveis, confusões que nem os roteiristas e editores sabiam como resolver. Para complicar a situação, a Marvel passava por uma grave crise financeira e acabou tendo uma grande reestruturação de seu pessoal. O então editor-chefe Tom DeFalco, um dos idealizadores da Saga do Clone, foi rebaixado a simples roteirista e novos editores assumiram as HQs do teioso. A crise econômica e a crise criativa acabaram contribuindo para que diversas boas idéias acabassem sendo mal executadas, péssimas idéias surgissem, muitas mudanças fossem feitas de última hora (sem muita avaliação de suas conseqüências) e os roteiristas tivessem pouca liberdade na hora de escrever uma história que era concebida por editores que nem mesmo sabiam direito o que queriam.

O resultado foi confusão atrás de confusão, inúmeras reviravoltas que não faziam lá muito sentido e a ruína de uma saga que começara de forma bastante promissora. Se, no início, a Saga do Clone conseguiu prender a atenção dos leitores com seus diversos mistérios, ao longo dela, os fãs começaram a perder a paciência e acabaram descontentes – assim como alguns roteiristas e editores. Dizem que o lendário J.M. DeMatteis – um dos maiores roteiristas do teioso de todos os tempos, autor do clássico A Última Caçada de Kraven – demitiu-se da equipe criativa do Aranha em meados de 1995 por estar cansado de não poder escrever suas próprias histórias com liberdade, com início, meio e fim, e por causa da demora para o início da era Ben Reilly.

Mas, em Janeiro de 1996, a nova fase finalmente começava…

(CONTINUA NOS PRÓXIMOS DIAS…)

Mais It’s magic, we don’t have to explain it:
– Parte 1.2: Saga do Clone (continuação)
– Parte 2: Capítulo Final
– Parte 3: Pecados Pretéritos
– Parte 4: O Outro
– Parte 5: Um Dia a Mais


Por trás da enfermaria animada

07/10/2008

E se o Tom realmente matasse o Jerry? E se o Coiote acabasse de vez com o papa léguas? E se o Frajola conseguisse fazer o Piu-Piu não dar mais nenhum piu? Hmn, vai dizer que você nunca se perguntou isso. Não? Nem eu… mas isso não vem ao caso. Incentivado pelo filho de 15 anos, o artista plástico britânico James Cauty decidiu mostrar o que realmente aconteceria se a violência nos desenhos fosse levada as últimas conseqüências.

A mostra Splatter, que abriu sexta-feira em Londres, conta com vários desenhos e esculturas em que uma “morte cruel” é uma forma delicada de descrever o fim dos personagens. “É incrivelmente sanguinário. As conseqüências reais da violência nos desenhos animados são reveladas. Eles massacram uns aos outros”, afirma o artista.

Mas não se preocupem. Ninguém aqui pretende dar espaço para a imaginação. O COWABANGA!, ciente da alta do dólar, queda das bolsas, e dificuldade econômicas em geral não irá mandar vocês, caros leitores, a terra da rainha apenas para a satisfazer a curiosidade desenhistica e disponibiliza aqui algumas imagens da tal Splatter. Haja tinta vermelha!

“Se em sua casa alguém rolar escada abaixo, adivinhe o culpado…”

Momento raro. Um produto Acme realmente funcionando.

Percebam a cara de psicopata da criança.

Revelador ou não, uma coisa é certa. O garoto é fã de Comichão e Coçadinha (desenho não presente na exposição por já ser sangüinário o suficiente sozinho).

Quem quiser ver mais imagens censuradas, segue o link.


A Saga de Tony Cachaça

03/10/2008

Por definição, herói é um homem que luta contra desigualdades avassaladoras por uma causa, um ideal ou vidas de inocentes. A causa e o ideal podem variar com as manchetes matutinas… Enquanto os inocentes, no mundo de moralidade dúbia de hoje, podem se mostrar culpados no final. O que deixa apenas uma constante definição: que um herói é, acima de tudo, um homem, sujeito a pressões e responsabilidades muito além das de seus pares. No final, esse compromisso deve cobrar seu preço até do guerreiro mais valoroso. E é aí que se inicia a prova de um verdadeiro herói.
Iron Man #128 (novembro/1979)

Com a chegada da Era de Bronze dos quadrinhos, no início da década de 1970, as HQs passaram a abordar temas mais sérios, após a infantilização da mídia ocorrida durante a Era de Prata. Em 1979, David Michelinie (roteirista), Bob Layton (roteirista/arte-finalista), John Romita Jr. (desenhista) e Carmine Infantino (desenhista) criaram a saga Demônio na Garrafa para o Homem de Ferro.

Nela, Tony Stark – alter ego do herói blindado – vê-se em meio a uma crescente teia de problemas: a vida amorosa anda conturbada, as Indústrias Stark passam por um processo de aquisição hostil, sua armadura de Homem de Ferro tem dado “defeitos” – o que culmina na morte de um diplomata, causada pelo disparo aparentemente acidental de um raio repulsor. Com tudo isso, Tony passa a abusar cada vez mais do álcool e, assim, criar novos problemas. Eventualmente, com a ajuda da então namorada e confidente, Bethany Cabe, Stark consegue parar de beber e retoma o controle de sua vida.

As palavras de Bethany o enfrentam, lembrando a ele que o sonho de sua vida tem sido ajudar os outros. Tanto por meio de suas façanhas super-heróicas quanto pelos modernos milagres da tecnologia… E sempre com a exclusão de seus próprios prejuízos e dores pessoais. A bebida… Ou o sonho? Cada um deles leva a um caminho que ele sabe que vai dominá-lo pelo resto da vida. A bebida… Ou o sonho? Tony mexe sua boca, estremece, toma a decisão. Ele escolheu o caminho.
Iron Man #128 (novembro/1979)

O personagem chegou a ter problemas com a bebida novamente, ao longo dos anos, mas a história de Michelinie, Layton, Romita Jr. e Infantino foi pioneira. Era a primeira HQ de super-heróis a discutir o problema do alcoolismo. Além disso, Demônio na Garrafa foi de grande importância para Tony Stark por ter demonstrado suas falhas, tornado-o mais humano na visão dos leitores. Como escreveu David Michelinie, “um herói é, acima de tudo, um homem”.

A saga ainda tem algumas características reminescentes da Era de Prata, como as cores berrantes e alguns conflitos e resoluções um tanto bobos, mas seu grande mérito é mergulhar pela primeira vez na psique do Homem de Ferro e mostrar que, ao contrário do que sempre parecera, ele não era perfeito. Um playboy sedutor, bilionário, inventor genial, industrial extremamente bem-sucedido, dono de uma armadura que lhe permite voar por aí não é exatamente um personagem fácil para o leitor identificar-se, mas um alcoólatra que tem diversos problemas como qualquer outro homem está muito mais próximo de nossa realidade.

Demônio na Garrafa é considerada por muitos, até hoje, a história definitiva do vingador dourado e foi, recentemente, relançada em formato americano pela Panini Comics no encadernado Os Maiores Clássicos do Homem de Ferro – Volume 1.