A Saga de Tony Cachaça

Por definição, herói é um homem que luta contra desigualdades avassaladoras por uma causa, um ideal ou vidas de inocentes. A causa e o ideal podem variar com as manchetes matutinas… Enquanto os inocentes, no mundo de moralidade dúbia de hoje, podem se mostrar culpados no final. O que deixa apenas uma constante definição: que um herói é, acima de tudo, um homem, sujeito a pressões e responsabilidades muito além das de seus pares. No final, esse compromisso deve cobrar seu preço até do guerreiro mais valoroso. E é aí que se inicia a prova de um verdadeiro herói.
Iron Man #128 (novembro/1979)

Com a chegada da Era de Bronze dos quadrinhos, no início da década de 1970, as HQs passaram a abordar temas mais sérios, após a infantilização da mídia ocorrida durante a Era de Prata. Em 1979, David Michelinie (roteirista), Bob Layton (roteirista/arte-finalista), John Romita Jr. (desenhista) e Carmine Infantino (desenhista) criaram a saga Demônio na Garrafa para o Homem de Ferro.

Nela, Tony Stark – alter ego do herói blindado – vê-se em meio a uma crescente teia de problemas: a vida amorosa anda conturbada, as Indústrias Stark passam por um processo de aquisição hostil, sua armadura de Homem de Ferro tem dado “defeitos” – o que culmina na morte de um diplomata, causada pelo disparo aparentemente acidental de um raio repulsor. Com tudo isso, Tony passa a abusar cada vez mais do álcool e, assim, criar novos problemas. Eventualmente, com a ajuda da então namorada e confidente, Bethany Cabe, Stark consegue parar de beber e retoma o controle de sua vida.

As palavras de Bethany o enfrentam, lembrando a ele que o sonho de sua vida tem sido ajudar os outros. Tanto por meio de suas façanhas super-heróicas quanto pelos modernos milagres da tecnologia… E sempre com a exclusão de seus próprios prejuízos e dores pessoais. A bebida… Ou o sonho? Cada um deles leva a um caminho que ele sabe que vai dominá-lo pelo resto da vida. A bebida… Ou o sonho? Tony mexe sua boca, estremece, toma a decisão. Ele escolheu o caminho.
Iron Man #128 (novembro/1979)

O personagem chegou a ter problemas com a bebida novamente, ao longo dos anos, mas a história de Michelinie, Layton, Romita Jr. e Infantino foi pioneira. Era a primeira HQ de super-heróis a discutir o problema do alcoolismo. Além disso, Demônio na Garrafa foi de grande importância para Tony Stark por ter demonstrado suas falhas, tornado-o mais humano na visão dos leitores. Como escreveu David Michelinie, “um herói é, acima de tudo, um homem”.

A saga ainda tem algumas características reminescentes da Era de Prata, como as cores berrantes e alguns conflitos e resoluções um tanto bobos, mas seu grande mérito é mergulhar pela primeira vez na psique do Homem de Ferro e mostrar que, ao contrário do que sempre parecera, ele não era perfeito. Um playboy sedutor, bilionário, inventor genial, industrial extremamente bem-sucedido, dono de uma armadura que lhe permite voar por aí não é exatamente um personagem fácil para o leitor identificar-se, mas um alcoólatra que tem diversos problemas como qualquer outro homem está muito mais próximo de nossa realidade.

Demônio na Garrafa é considerada por muitos, até hoje, a história definitiva do vingador dourado e foi, recentemente, relançada em formato americano pela Panini Comics no encadernado Os Maiores Clássicos do Homem de Ferro – Volume 1.

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3 Responses to A Saga de Tony Cachaça

  1. natusch disse:

    Lembro que, lá na primeira metade dos anos 90, li edições de uma saga na qual Tony Stark enfiava o pé na manguaça, virava um pudim de cana e fazia tanta merda que acabava vendendo a sua empresa para um tal Stane… Mas não parece ser a mesma que tu citaste no artigo acima, Kauê. Alguma luz? =P

  2. Kauê disse:

    Cara, essa saga que eu citei foi publicada originalmente em 1979, nos números 120-128 da revista americana do Homem de Ferro. Foi a primeira vez que o Stark teve problemas com o álcool.

    Uns anos depois, o Denny O’Neil (Batman, entre outros) assumiu os roteiros do gibi e decidiu que a resolução do problema do alcoolismo do personagem tinha sido muito rápida. Então, em Iron Man #163 (outubro/1982) surgiu o Obadiah Stane, empresário rival e bandidão de carteirinha, que foi destruindo aos poucos a vida do Homem de Ferro (e põe ‘aos poucos’ nisso… foram quase 4 anos e 40 edições entre a aparição do vilão e o confronto final entre ele e Stark), com perigosos jogos mentais e ataques ao Stark, seus amigos e sua empresa, fazendo com que ele mergulhasse no copo de novo.

    Na edição 170, Tony deixa de ser o Homem de Ferro pra ser bêbado full time e quem assume a armadura é o fiel escudeiro dele, Jim Rhodes. Na edição 173, Stark perde sua empresa pro Stane (parece que tudo que ele tinha que fazer pra evitar isso era assinar um documento, mas tava bêbado demais pra isso). E vira, além de bêbado, sem-teto. Eventualmente, ele acaba se recuperando, especialmente depois de uma experiência de quase morte (Iron Man #182). Uma mulher, também sem-teto, morre por causa do frio, Stark acaba hospitalizado e o bebê da mulher também. Tony promete a si mesmo que vai cuidar do bebê e vai voltar a sobriedade.

    No número 191, Stark volta a usar uma armadura de Homem de Ferro. E, por algum tempo, ficamos com dois Homens de Ferro em atividade. Algum tempo depois, o Stane fica sabendo da recuperação do rival e resolve destrui-lo de vez. Depois de mais algumas vilanices do vilão (tipo mandar seqüestrar e/ou matar alguns amigos do Tony), o Stark vai pra cima do cara com tudo, sóbrio, com armadura nova e tudo. No último confronto final entre os dois, em Iron Man #200, o Homem de Ferro vence (inclusive salvando das garras do bandidão o bebê da sem-teto falecida) um Obadiah Stane enlouquecido, em sua armadura de Monge de Ferro (tipo no filme). No fim das contas, o Stane se suicida porque não quer ser humilhado da mesma maneira que ele humilhou o Stark. E o Tony nunca mais teve problemas com bebida. Quer dizer… Já ficou tentado a beber, mas não cedeu. Durante a Guerra Civil dos super-heróis quase aconteceu, mas ficou só no quase.

    Como ele mesmo diz em uma “conversa” com o cadáver do Capitão América após a Guerra… “A boa notícia é que… Durante tudo isto… Nunca tomei um gole! E se eu não bebi durante isto, provavelmente nunca beberei…”.

    P.S.: Eu devia transformar isso num post. (E provavelmente o farei).

  3. natusch disse:

    É… Eu acho que merece =P

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