It’s magic, we don’t have to explain it #1.1

Chega às bancas brasileiras neste mês a revista Homem-Aranha #82, trazendo a conclusão de Um Dia a Mais, uma das sagas mais execradas – tanto pelo público como pela crítica especializada (e até por membros da equipe criativa) – do teioso em seus 46 anos de HQs. Nela, o Demônio (Mefisto) exige o casamento – O CASAMENTO! – de Peter Parker em troca de salvar a vida da (eterna) Tia May, recentemente baleada, às portas da morte. No fim das contas, o pacto com o Coisa-Ruim altera a realidade ao redor do Aranha em diversos níveis, de uma maneira que não faz lá muito sentido. As palavras do editor-chefe da Marvel e idealizador da coisa toda, Joe Quesada, sobre as inúmeras mudanças? “It’s magic, we don’t have to explain it”. Ou, em bom português: “É mágica, nós não temos que explicar”. Maravilha!

Para marcar este momento especial (?) da publicação de Um Dia a Mais em terras tupiniquins, o COWABANGA! cumpre promessa feita ainda em fevereiro deste ano (“Mas One More Day e as sagas ruins do teioso são assunto para um post vindouro”) e traz uma série de cinco textos falando a respeito das mais polêmicas – ou, simplesmente, piores – histórias do Homem-Aranha de todos os tempos (selecionadas arbitrariamente por nosso comitê de uma só pessoa). Vamos, então, ao nosso primeiro capítulo (que será dividido em duas partes), com a famigerada…

Saga do Clone

O melhor resumo possível pra Saga do Clone seria mais ou menos assim: nem queira entender esse angu. Ou, talvez: it’s clones, we don’t have to explain it. Mas, ao contrário do sr. Quesada, tentaremos dar uma explicação que faça um mínimo de sentido… Vamos aos fatos.

A Saga do Clone original foi um arco publicado nos EUA em 1975, nas edições 144 à 151 de Amazing Spider-Man. Na história, o vilão Chacal revela que havia criado um clone do Aranha, com suas memórias e tudo o mais. Eventualmente, os dois lutam até que se dão conta que estão, na verdade, do mesmo lado. Numa explosão, um deles acaba morrendo e o Peter Parker sobrevivente leva o corpo de seu “irmão” para ser incinerado. Questionando-se se seria realmente o Parker “original”, o Homem-Aranha chega a conclusão de que sim, ele era o verdadeiro, pois tinha sentimentos reais por Mary Jane, que haviam se desenvolvido após a época em que ocorrera a clonagem.

Quase duas décadas depois, o herói aracnídeo vivia uma fase negra. Harry Osborn, o segundo Duende Verde, melhor amigo de Peter Parker e pior inimigo do Aranha, acabara de morrer. Não sem antes colocar em curso, junto com o Camaleão, um plano para fazer Peter acreditar que seus pais ainda estavam vivos. Na verdade, não passavam de MVAs (Modelos de Vida Artificial) projetados pelo Camaleão. A Tia May tinha novamente problemas de saúde. E o Homem-Aranha tornava-se cada vez mais sombrio. Por último e não menos importante, o interesse dos leitores pelo personagem ia diminuindo. Foi nesse contexto que a Marvel decidiu que precisava de uma grande saga para o cabeça-de-teia, nos moldes da Queda do Morcego ou da Morte do Super-Homem. Foi assim que aconteceu a volta do clone. Foi assim que surgiu a novíssima Saga do Clone.

A verdade era que o clone de Peter Parker não havia morrido na saga original. Ele acordou, escapou de ser cremado e quando voltou para “sua” casa, viu que o outro Peter estava lá. Confuso e julgando ser a cópia, partiu para um exílio de anos, adotando o nome de Ben Reilly (Ben, em homenagem ao Tio Ben, e Reilly, o sobrenome de solteira da Tia May). Mas agora May Parker estava às portas da morte e Ben decidia voltar a Nova York para se despedir de sua tia.

Começava aí uma das maiores confusões da história dos quadrinhos. Uma hora um era o clone, outra hora era o outro. Ben tornava-se o Aranha Escarlate. Surgiam personagens obscuros como os Scriers e Judas Traveller (sobre ele, o ex-editor Glenn Greenberg certa vez disse que “ninguém – nem os escritores, nem os editores – parecia saber quem ou o que diabos era Judas Traveller. Ele parecia um ser imensamente poderoso, quase místico com incríveis habilidades, mas qual era a real dele?”). Peter estava morrendo e, por algum motivo, o Doutor Octopus o salvava. Mary Jane engravidava. Outros clones surgiam aos montes, como o Aracnocida e Kaine (talvez o personagem mais legal da saga, com exceção de Ben Reilly). Kaine matava o Doutor Octopus. O Chacal voltava da morte. Mais clones. Ben era o verdadeiro, Peter, o clone. Peter era o verdadeiro, Ben, o clone. Ambos eram clones. Tia May morria (finalmente! Se bem que foi só temporário…). Traveller e os Scriers voltavam a dar as caras. Mais clones. Peter Parker era acusado de assassinato. Festival de clones. Até que, finalmente, depois de muita confusão (e muitos clones), testes comprovavam de uma vez por todas (até parece…) que Ben Reilly era o original.

Depois de uma batalha final contra o Chacal e mais clones, Peter Parker (o suposto clone) muda-se para Portland com uma Mary Jane grávida e deixa Ben Reilly (o suposto Peter Parker de verdade) com o manto de Homem-Aranha em Nova York.

O plano inicial da Marvel com a Saga do Clone era fechar uma era sombria do Aranha e dar a oportunidade de um novo início, com uma volta ao básico. Peter solteiro, com problemas financeiros, sem tantas tragédias pesando em sua consciência. Histórias mais leves, divertidas. A introdução de Ben Reilly como Homem-Aranha parecia servir justamente a esse propósito, mas as coisas fugiram ao controle.

A história deveria durar apenas alguns meses, de outubro de 1994 até abril de 1995, quando seria lançado o número 400 de Amazing Spider-Man – que traria um recomeço à franquia do Aranha, dando início à fase de Ben como o novo cabeça-de-teia. Entretanto, a saga (que se espalhava pelos quatro títulos mensais do herói, mais edições especiais) foi se alongando além da conta, mergulhando em tramas e sub-tramas cada vez mais complexas, mistérios quase insolúveis, confusões que nem os roteiristas e editores sabiam como resolver. Para complicar a situação, a Marvel passava por uma grave crise financeira e acabou tendo uma grande reestruturação de seu pessoal. O então editor-chefe Tom DeFalco, um dos idealizadores da Saga do Clone, foi rebaixado a simples roteirista e novos editores assumiram as HQs do teioso. A crise econômica e a crise criativa acabaram contribuindo para que diversas boas idéias acabassem sendo mal executadas, péssimas idéias surgissem, muitas mudanças fossem feitas de última hora (sem muita avaliação de suas conseqüências) e os roteiristas tivessem pouca liberdade na hora de escrever uma história que era concebida por editores que nem mesmo sabiam direito o que queriam.

O resultado foi confusão atrás de confusão, inúmeras reviravoltas que não faziam lá muito sentido e a ruína de uma saga que começara de forma bastante promissora. Se, no início, a Saga do Clone conseguiu prender a atenção dos leitores com seus diversos mistérios, ao longo dela, os fãs começaram a perder a paciência e acabaram descontentes – assim como alguns roteiristas e editores. Dizem que o lendário J.M. DeMatteis – um dos maiores roteiristas do teioso de todos os tempos, autor do clássico A Última Caçada de Kraven – demitiu-se da equipe criativa do Aranha em meados de 1995 por estar cansado de não poder escrever suas próprias histórias com liberdade, com início, meio e fim, e por causa da demora para o início da era Ben Reilly.

Mas, em Janeiro de 1996, a nova fase finalmente começava…

(CONTINUA NOS PRÓXIMOS DIAS…)

Mais It’s magic, we don’t have to explain it:
– Parte 1.2: Saga do Clone (continuação)
– Parte 2: Capítulo Final
– Parte 3: Pecados Pretéritos
– Parte 4: O Outro
– Parte 5: Um Dia a Mais

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