It’s magic, we don’t have to explain it #1.2

Concluímos aqui a nossa “breve” análise de uma das mais polêmicas histórias do Homem-Aranha. Pra quem não leu a primeira parte do texto, aqui vai o link. Sigamos, então, com a nossa estimada…

Saga do Clone

Janeiro de 1996. Chegava, enfim, a nova fase do Aranha (com pelo menos 9 meses de atraso em relação ao plano original), quando era publicada a revista Sensational Spider-Man #0, trazendo a primeira aventura de Ben Reilly com o (novo e estiloso) uniforme de Homem-Aranha. Havia um único problema… Quando a revista foi lançada, os dias de Ben como o escalador de paredes titular já estavam contados. Meses antes, quando apenas as primeiras histórias da nova fase haviam sido escritas e planejadas, o editor responsável pela linha do Homem-Aranha, Bob Budiansky, já havia tomado a decisão: Peter Parker tinha que voltar a ser o único e verdadeiro cabeça-de-teia. O próprio roteirista de Sensational Spider-Man na época, Dan Jurgens, é quem havia conversado com Budiansky e ajudado a convencer o editor de que substituir Peter por Ben era inaceitável e que os fãs provavelmente não apoiariam a mudança. Ora, que leitor, afinal, gostaria de saber que o personagem que acompanhou fielmente pelos últimos vinte anos não passava de uma cópia e todas as suas histórias deixariam de ter grande significado…? Na verdade, Jurgens estava absolutamente certo. Mas o resultado da nova resolução de Budiansky gerou caos na equipe responsável pelas histórias do herói. Os arcos planejados a longo prazo iriam para o lixo e todos estavam convocados a criar uma trama que trouxesse Peter Parker de volta de maneira plausível – e sem uma filha. As propostas em torno da tal trama envolveram idéias que iam desde o envolvimento de Mefisto (como, ironicamente, acabou acontecendo anos depois, em Um Dia a Mais) e viagens no tempo – solução que quase acabou adotada – até a revelação de que não só Ben seria um clone, que acabaria degenerando, mas Mary Jane também, sendo que a original estaria aprisionada há tempos e nunca teria casado com Peter.

As sementes para o retorno de Peter Parker começaram a ser plantadas tão logo quanto possível. Ele voltou a aparecer regularmente na revistas-aranha. Mais aventuras envolvendo clones se seguiram. Depois de algum tempo, ficou decidido que haveria uma figura misteriosa, um gênio maligno mexendo os pauzinhos dos bastidores, manipulando a tudo e a todos, uma espécie de deus ex machina, responsável por toda a confusão dos clones. O personagem chegou até a aparecer em alguns quadros, sempre envolto pelas sombras, aparentemente utilizando aparelhos de suporte de vida. Só não estava decidido, ainda, quem ele seria. Talvez, um ressuscitado Harry Osborn. Mas Bob Harras, novo editor-chefe da Marvel não gostava da idéia. De qualquer forma, a decisão precisava ser tomada rapidamente, pois a Saga do Clone já tinha data para acabar: abril de 1996. Entretanto, Harras ordenou que a conclusão fosse adiada em 6 meses para não entrar em conflito com uma mega-saga dos X-Men que seria publicada na mesma época, o Massacre.

Nos meses seguintes, mais caos editorial. Jurgens decide deixar a equipe criativa do Aranha. Budiansky é demitido. Por outro lado, os escritores têm alguma liberdade para brincar com Ben Reilly e fazer algumas histórias que fogem um pouco do tumulto costumeiro da Saga do Clone. Em meio a isso, o chefão da Marvel, Bob Harras, decide quem seria o grande vilão por trás de tudo. Sua decisão causou bastante polêmica entre os próprios roteiristas e editores, mas, no fim, foi a idéia de Harras que prevaleceu.

Em dezembro de 1996, chegava às comic shops norte-americanas o arco Revelações que… ahn… revelava a quem pertencia a mente maligna que arquitetara toda a Saga do Clone. O culpado por tudo era… Norman Osborn, o Duende Verde original! E a figura sombria que sobrevivia apenas graças a aparelhos e que havia aparecido nos últimos meses nas histórias do Aranha era, na verdade, o Ogro – Mendel Stromm, antigo sócio de Norman Osborn supostamente morto, que agora obedecia suas ordens. Mas… Espera aí… Tem alguma coisa de errado nisso… Osborn não estava morto? Sim! Norman Osborn havia morrido em Amazing Spider-Man #122, de julho de 1973 – empalado por seu próprio planador –, uma edição depois de assassinar a então namorada do teioso, Gwen Stacy, em uma das mais emblemáticas histórias do herói. Então, como poderia ser ele o responsável por toda a confusão dos clones? A solução encontrada pelos escritores e editores da Marvel foi a seguinte… Norman sobrevivera ao seu “confronto final” com o Aranha graças à fórmula do Duende Verda que corria em suas veias e deixava-o mais forte e resistente que um humano comum. O funeral e tudo mais haviam sido uma farsa. Osborn passara, na verdade, anos na Europa, forjando um império criminoso – que incluia, por exemplo, a Irmandade dos Scriers –, sem nunca deixar de observar e influenciar a vida de Peter Parker. Com a morte de seu filho Harry, o segundo Duende Verde, após um duelo com o Aranha, Osborn havia decidido colocar em ação seu grande plano de vingança contra o cabeça-de-teia.

No clímax de Revelações, Peter Parker e Ben Reilly lutam contra Norman Osborn, que voltava a ser o Duende. Enquanto isso, Mary Jane é drogada por Alison Mongrain (empregada de Osborn) e entra em trabalho de parto prematuramente. A criança – que se chamaria May Parker – supostamente já nasce morta, mas aparentemente Mongrain a seqüestra (ou, pelo menos, seu corpo). Na batalha entre os Aranhas e o Duende, Peter e Ben conseguem derrotar Norman, mas a custo da vida de Ben, que salva Peter ao jogar-se na frente do planador do Duende que atingiria seu suposto clone. Mas eis que vem a “surpresa”: o corpo de Ben Reilly acaba se degenerando quase que instantaneamente, como acontecia com todos os clones criados pelo Chacal. Isso só poderia significar que Peter Parker sempre fora, de fato, o verdadeiro… ahn… Peter Parker. Os testes genéticos que haviam determinado que Ben era o original haviam sido sabotados por ordem de Osborn. E assim acabava a Saga do Clone. Quanto à sub-trama da filha de Peter e MJ, ela nunca foi propriamente resolvida. Como a Marvel não queria que o Homem-Aranha fosse pai, sua história foi simplesmente esquecida e o pessoal da editora gostaria que todos os leitores esquecessem também…

Haja confusão! Como já foi dito anteriormente, nem queira entender esse angu. A saga que deveria durar seis ou sete meses, alongou-se por mais de dois anos, gerou pontas soltas que até hoje não foram bem resolvidas, foi responsável por um decréscimo na popularidade do herói e, para muitos, maculou a história do Homem-Aranha nos quadrinhos para sempre. Vários leitores dizem que, para eles, o verdadeiro Aranha morreu assim que começou a Saga do Clone e até hoje não voltaram a ler suas aventuras – ou só voltaram recentemente, com Brand New Day. Há quem adore, mas a grande maioria dos fãs do escalador de paredes tem ódio mortal por essa fase e – assim como a Marvel – prefere ignorar o fato de que um dia ela existiu.

O comitê (de uma só pessoa) é obrigado a confessar que, quando a Saga do Clone foi publicada no Brasil, em 1997 e 1998, a juventude, a pouca experiência no mundo das HQs e o senso crítico ainda em formação fizeram com que acabasse gostando muito da história, de todas as suas reviravoltas e novidades. A nostalgia do comitê faz com que considere a saga uma das melhores do cabeça-de-teia. Entretanto, o comitê acredita que, se sua leitura fosse feita hoje em dia, provavelmente acharia tudo de uma absurdez incrível e de uma qualidade, na melhor das hipóteses, extremamente irregular. Por isso mesmo, a Saga do Clone vai ficar na memória do comitê do jeito que foi lida pela primeira vez, como se fosse a melhor coisa do mundo…

Semana que vem tem mais It’s magic, we don’t have to explain it, com uma visão geral do arco O Capítulo Final (e o comitê promete tentar ser mais breve).

Salve Ben Reilly!

P.S.: Por incrível que pareça, este post duplo só deu uma pequena pincelada no assunto Saga do Clone, deixando muita, mas muita coisa de fora. Se você tiver curiosidade e quiser saber mais sobre a saga, tanto em termos de histórias, quanto em relação a toda a bagunça editorial, recomendo vivamente a leitura do Life of Reilly, blog (em inglês) que abriga uma série de 35 artigos que falam de tudo a respeito da Saga do Clone, incluindo entrevistas com os autores e informações dos bastidores. A versão em português, A Vida de Reilly, tem os primeiros 22 artigos traduzidos.

Mais It’s magic, we don’t have to explain it:
– Parte 1.1: Saga do Clone
– Parte 2: Capítulo Final
– Parte 3: Pecados Pretéritos
– Parte 4: O Outro
– Parte 5: Um Dia a Mais

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3 Responses to It’s magic, we don’t have to explain it #1.2

  1. Fred disse:

    Cara, assim que tiver um tempo pra ler direitinho, vou comentar com mais detalhes.

    Mas a Saga dos Clones, assim como o Guerras Secretas, acredito eu, foram as duas sagas que mais deram o que falar da história do Homem-Aranha. E só o que ouvi foi isso da primeira: críticas e mais críticas, confusão e mais confusão, e nada definido. Do nada, Ben Reilly vira Peter Parker, a Tia May morre, o Aranha Escarlate vira Homem-Aranha…

    Não cheguei a ler revistas dessa saga, mas li um gibi depois dela – acho que quando Ben Reilly se encontra pela primeira vez com Venom, numa história que até a namorada do Venom chegou a usar o simbionte – e lembro de ter lido um resumo sobre Reilly e Parker que cheguei a pensar “Deus, o que fizeram com o Homem-Aranha?”.

    Comento mais tarde mais coisas.
    Abraço.

  2. Salve…
    Para quem não acompanhou a saga fica dificil aceitar uma critica plausível… Mas é verdade, foi uma confusão grande a saga do clone, mas isso não tirou a beleza dela. Assim como vc, para mim foi uma das melhores sagas do Amigão da Vizinhança… Eu era um dos q não aceitavam o fato de Ben ser o verdadeiro homem aranha, mas mesmo assim, tinha um carinho grande pelo personagem, assim como pelo kaine, (que fico feliz de ver seu regresso atualmente). A ideia de ter dois homens aranha me encantava… aranha escarlate e homem aranha… uma dupla invensível… foi fantastico enquanto durou… 🙂
    Gostei muito das tramas e subtramas, da complexidade do carater de Peter Parker… A unica coisa q realmente arruinou a saga, (na minha opinião) foi o final. Fizeram em duas edições, resumidamente o que era para ser revelado em pelo menos 5 para ser bem trabalhado. Foi muita informação jogada de uma só vez, arruinando todo o suspense, misterio e romance para quem acompanhou por 2 anos a saga completa. Me decepcionou o final, pela maneira como foi apresentado e não pela maneira como sucederam os fatos, tudo poderia passar exatamente como aconteceu, mas que fosse seguindo a mesma linha de toda a saga… Infelizmente a parte comercial ganhou a batalha em relação a qualidade e tiveram que terminar a saga repentinamente para começar a nova faze do aranha, afinal… vender a revisva sempre foi mais importante que a qualidade do roteiro… Hoje, para mim o homem aranha perdeu em muito a qualidade que sempre teve, se tornou um heroi voltado para o publico infantil e ja não tem a mesma seriedade que caracterizava o personagem… Ao ver Peter Parker “desrespeitar” o capitão américa, (herói q ele venera, mas q eu pessoalmente odeio) me fez ver q o homem aranha q um dia me fez ser fã de carteirinha já não existia e se hj deixei de acompanhar as revistas foi principalmente por essa razão. Prefiro ficar com batmam que dificilmente me decepciona… um personagem q indepente da saga, sempre mantem a mesma característica, a mesma personalidade, enfim, é sempre o mesmo herói…
    Abraço pesssoal, fica com Deus!!!

  3. guto disse:

    Eu comecei a ler bem na época que essa saga estava sendo publicada (ediçao 178), ate então só conhecia pelo desenho (muito bom) da fox kids.
    Acho que por conta disso, gostei bastante da historia, até pq a edição em questão tinha o Venom como inimigo (e uma namorada venom muito tosca), e logo na ed. 180, o Carnificina (meus viloes preferidos).
    A verdade é que nos anos após a Saga do Clone, a Marvel não acertou mais a mão com o teioso (lembro de um vilão chamado alfabeto…wtf?!) então ainda tive a saga do clone como uma boa referência por muito tempo.
    Mas hoje, conhecendo histórias clássicas, e mesmo a fase mais recente (antes do Superior, que ainda não engoli), que tem momentos bons intercalados com algumas tosquices (ilha das aranhas foi patético), também mudo um pouco meu conceito sobre a saga.
    Mas uma coisa a Marvel aprendeu, nunca mexer nas origens do aranha (a fase do Superior ja tem data pra acabar, dura cerca de 1 ano de publicações.)….o que fica é uma sensação do leitor ter q ignorar fatos que ele presenciou e vibrou, pois simplesmente, tais fatos podem nunca ter acontecido.

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