It’s magic, we don’t have to explain it #3

Chegou a hora da terceira parte da série que fala das mais polêmicas histórias do Homem-Aranha nos quadrinhos. Vamos em frente com a Saga da Gwen Puta, oficialmente conhecida como …

Pecados Pretéritos

Comecemos com uma breve contextualização… Em uma HQ do início da década de 1970, mais especificamente em Amazing Spider-Man #90, o Capitão Stacy, pai da então namorada do Aranha, Gwen Stacy, morre tragicamente ao salvar um inocente de escombros que caíam por causa de uma batalha entre o cabeça-de-teia e o Dr. Octopus. Gwen culpa o teioso pela morte do pai e, apesar de não conhecer a identidade secreta de seu namorado, isso acaba desgastando o relacionamento dos dois. Ela, então, decide passar algum tempo na Europa para esfriar a cabeça e lidar com sua perda. Gwen volta de viagem e tudo parece voltar ao normal para ela e Peter Parker. No entanto, não muito tempo depois, a jovem é morta pelo arquiinimigo do Aranha, Norman Osborn, o Duende Verde.

Eis que, anos depois, nas revistas Amazing Spider-Man #509-#514 (publicadas nos EUA entre agosto de 2004 e janeiro de 2005), o roteirista J. Michael Straczynski resolve revisitar esses fatos e inserir novos – e odiosos – elementos nessa trama pra criar uma nova – e ridícula – história, num dos mais cretinos retcons de que já se teve notícia – quase no nível de Tia May atriz.

Quando passava pela difícil fase após a morte de seu pai e os problemas no namoro com Peter, Gwen Stacy acabou tendo um affair com ninguém mais, ninguém menos que… Norman Osborn (sempre ele!). E, na verdade, Gwen havia ido para a Europa justamente para dar à luz aos frutos desse caso: os gêmeos Gabriel e Sarah. Na volta, a namorada do Aranha (corno!) vê o monstro que Osborn é por causa da indiferença dele para com seu filho Harry, na época, drogado e doente. Ela decide, então, que o melhor a fazer é educar as crianças com a ajuda de Peter. Entretanto, Norman enxerga isso como uma ameaça a seus herdeiros e resolve que os gêmeos serão criados sob a sua tutela. O resto, como dizem, é história. Teriam sido os gêmeos, então, o principal motivo para o Duende Verde ter matado Gwen Stacy anos atrás. Haja imaginação e retcons bizarros, hein, seu Straza?

Mas a história não pára por aí. Mary Jane, atual esposa do Homem-Aranha (e amiga de longa data de Peter e Gwen), sabia do caso entre o Duende Verde e Gwen Stacy. E nunca havia contado para Peter porque Gwen havia pedido que mantivesse segredo. Sensacional! Além disso, Norman criou Gabriel e Sarah como se fosse uma simples alma caridosa que os tivesse adotado. Mentiu para eles que Peter Parker era seu verdadeiro pai e grande responsável pela morte de sua mãe. Para completar, devido às alterações genéticas causadas em Osborn pelo soro do Duende, seus filhos sofrem de crescimento ultra-acelerado e tem corpos de pessoas de uns vinte anos, apesar de não terem nem dez.

Os gêmeos mutantes super-crescidos voltam (não me perguntem de onde), então, para atacar Peter Parker – que eles pensam ser seu pai – por tê-los abandonado e por seu suposto papel na morte de Gwen. O Aranha decide contar a verdade para Gabriel e Sarah e tentar ajudá-los com seus problemas de envelhecimento acelerado. Sarah acredita nele, mas Gabriel não. No confronto, entre ele e o Homem-Aranha, Sarah acaba sendo baleada pela polícia. Ela precisa de uma transfusão e é o Aranha quem fornece sangue. De alguma forma, seu sangue com veneno de aranha irradiado acaba “cancelando” o efeito de envelhecimento do sangue de Osborn que corre nas veias de Sarah.

Enquanto isso, Gabriel encontra acidentalmente um dos laboratórios secretos do Duende Verde, injeta em si mesmo a fórmula do Duende e torna-se o Duende Cinza. Sua carreira de super-vilão acaba sendo extremamente curta. Em um ataque do novo Duende ao cabeça-de-teia, a própria Sarah salva o teioso, dando um tiro no planador do irmão, que explode. Gabriel cai na água e reaparece em uma praia qualquer, com amnésia. Fim de papo.

De certa forma, a história é bem escrita. Ela avança naturalmente, os diálogos são bons, há mistério e um certo clima “novelesco” característico das histórias do Aranha. Entretanto, a idéia por trás da trama é simplesmente absurda. Inaceitável, até. O fato de Gwen ter tido um caso com Norman macula as lembranças de um tempo mais inocente. Mancha a memória de uma personagem pura, doce e completamente apaixonada por Peter Parker. Há quem defenda até hoje, inclusive, que Gwen Stacy é e sempre será o maior e verdadeiro amor do Homem-Aranha.

Na ficção, tudo é permitido. No entanto, há linhas que não se deve cruzar, memórias que devem ser deixadas intactas. Pecados Pretéritos não é uma história de todo ruim, mas ela cruza a linha, ela mexe com o que não deve. A saga quebra o encanto de uma instituição sagrada do passado do Aranha que é esse amor inocente entre Peter e Gwen.

Peter e Gwen no traço de John Romita

Algum tempo depois da publicação do arco – e da resposta negativa dos fãs –, Straczynski, o roteirista, declarou que a HQ sofreu pesadas intervenções editoriais. No seu plano original, os gêmeos seriam, de fato, filhos de Peter Parker, mas os editores da Marvel recusaram a idéia. Para eles, isso deixaria o cabeça-de-teia mais velho aos olhos dos leitores – além de sugerir que Gwen e Peter teriam feito sexo antes do casamento, o que seria um grande mal exemplo…

É claro que se fosse o Aranha o pai de Gabriel e Sarah, a imagem de Gwen Stacy ainda estaria imaculada e talvez Pecados Pretéritos não tivesse um lugar aqui na nossa série das piores HQs do teioso. Mas, de forma alguma, isso faria com que fosse uma boa história. Seja como for… Valeu por tudo, Straczynski!

E o pior de tudo é que esta não foi a última vez que você leu o nome desse roteirista em It’s magic, we don’t have to explain it. Semana que vem, seguimos com O Outro.

Mais It’s magic, we don’t have to explain it:
– Parte 1.1: Saga do Clone
– Parte 1.2: Saga do Clone (continuação)
– Parte 2: Capítulo Final
– Parte 4: O Outro
– Parte 5: Um Dia a Mais

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One Response to It’s magic, we don’t have to explain it #3

  1. --' disse:

    eles voltaram da Europa

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