Was it a car or a cat I saw?

21/01/2010

Como estamos em clima de retomada de atividades, e como esse clima não combina com posts gigantes que só gente com muita bondade no coração de fato lê até o fim, resolvi marcar o meu retorno ao Cowabanga com um post não apenas curtinho, mas que também aponta para o infinito e além. OK, eu explico. É que, nessa humilde postagem que você lê pacientemente nesse exato momento, vou expor nada menos que três assuntos que renderiam, cada um deles, um post individual –  o que possivelmente aconteça de verdade, num futuro próximo. Não bastasse isso, vou terminar o post juntando milagrosamente todos eles em uma coisa só. E vai fazer sentido! Duvida, infiel? Pois então sigam-me os bons, porque lá vai!

Primeira coisa que merece um post: Weird Al Yankovic. Se você leu esse nome e pensou algo do tipo “tá, mas quem é esse cara?”, saiba que os Espíritos que governam a Cultura Pop estão nesse exato momento gritando FAIL para você. Pois nosso chapa Weird Al é um dos maiores gênios pop que existem, um cara que engole as pérolas e dejetos da indústria cultural e transforma tudo em humor da mais alta qualidade. Mais do que paródias, as músicas e videoclips do cara são reinvenções, releituras engraçadíssimas de sucessos e clássicos da música internacional. Vá no YouTube e procure vídeos como “Like A Surgeon” (versão de “Like A Virgin” da Madonna), “Eat It” (hilária reinvenção de “Beat It” do Michael Jackson) e “The Alternative Polka” (medley onde entra de Nine Inch Nails a Beck e Sheryl Crow) para ter uma vaga ideia de tudo que estava perdendo. Não coloco os links aqui como uma punição a vocês, mesmo – nada de hyperlinks, deixem de preguiça e vão atrás.

A segunda coisa é Bob Dylan. Se nesse momento você pensou “OK, e esse cidadão, quem é?”, então seja bem-vindo, amigo/a recém chegado de Marte. Tentar resumir em poucas linhas um cidadão que, munido apenas de um violão, uma gaita e letras sublimes, reinventou a música popular como a conhecemos e influenciou todo mundo que se possa imaginar, é um exercício absoluto de futilidade – de modo que fica apenas a citação do nome, que a ideia sobre a obra do cara tenho certeza que vocês conseguem concatenar muito bem.

A terceira e derradeira coisa: palíndromos. Vocês sabem, aquelas frases marotas que, lidas ao contrário, resultam na mesma coisa que no sentido normal. “A diva em Argel alegra-me a vida”, “Amor, ata-me, mata Roma!”, “Socorram-me, subi no ônibus em Marrocos!”, essas coisas. Pode parecer uma bobagem sem sentido, mas existem palíndromos em livros, lápides e, vejam só, até no Canal do Panamá! Não é bem cultura pop, mas rende um post bem bacana – quem sabe no meu blog pessoal, talvez (não dava para perder a chance do merchã, me desculpem)…

Por fim, como prometido, o passe de mágica, que atende pelo singelo nome “Bob”. Trata-se (vocês adivinharam) de um clip do Weird Al Yankovic, feito em homenagem a Dylan e parodiando o vídeo de “Subterranean Homesick Blues” (uma obra de arte, a música e o vídeo original). Como as letras de Dylan costumam ser complexas, cheias de metáforas e sentidos ocultos, Weird Al teve uma engenhosa ideia na hora de escrever a letra da sua canção-paródia-homenagem. Percebendo que o primeiro nome de Dylan (Bob) é um palíndromo, Weird Al Yankovic decidiu (arrá!)… Fazer uma letra exclusivamente com palíndromos! O resultado, pleno de genialidade em todos os sentidos, vocês podem conferir abaixo. Com vocês, “Bob”:

Então tá. Por hoje é só, pessoal. Nos vemos por aí, e foi um privilégio ter estado com vocês.

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E.T., telefone, minha casa

18/01/2010

O rei do pop pode ter batido as botas mas o Cowabanga continua. Firme, forte e morimbundo. Após umas curtas férias –  quase um ano, mas não espalha – e milhares de e-mails implorando pelo nosso regresso, decidimos que se é pelo bem do povo e felicidade geral da nação, voltamos!

Trazendo do pop enlatado e pronto pra consumo do Homem-Aranha aos sinuosos desvios do rock africano, numa bela salada pink fúcsia como o bom pop merece a idéia é bater ponto por aqui semanalmente e tirar as teinhas que possam ter se formado.

Enquanto isso, pra aquecer as baterias ao invés de um post interminável um clip super moderno, cool e xablablau. Afinal o Cowabanga não trata só de resgate de memória sentimental de adolescente ointentista. A gente também é hype, benhê.

Hasta la vista, babe!


Feliz Nova Orelha

31/12/2008

Ok, isso aqui tá bem devagar. Mas vocês sabem como são as desculpas de um universitário: quando está com o semestre em andamento, não tem tempo porque há muitos trabalhos e cadeiras pegando pesado. Quando está de férias, quer cultivar a política da preguiça deitado numa rede com o traseiro apontado pro céu.

Entrementes, algumas coisas valem a pena serem postadas e comentadas. Como esta notícia do Whiplash (cujo link você pode ver no fim do post) sobre uma audição musical do vocalista, flautista e tecladista da banda holandesa Focus, Thijs Van Leer.
Não sei quem me contou que, dentre muitos motivos, a banda terminou devido aos atritos entre o guitarrista Jan Akkerman e Van Leer. Chegou num dado momento que Akkerman disse que o vocalista era um belo de um idiota e não agüentava mais conviver com o mesmo. Não sei até que ponto isso é verdade, mas depois da notícia lida, há de se desconfiar.

Basicamente, Van Leer participou de uma audição musical de várias canções de várias bandas, sem saber o nome delas e nem das músicas em questão. Lá pelas tantas, ao ouvir Metal Icarus, do Angra, encantou-se com a voz de André Mattos e comentou: “É um homem cantando? Impressionante!”

Mas o motivo do post não é o comentário sobre Metal Icarus, e sim sobre a ouvidela de Van Leer sobre um trabalho do Tool, banda cujo trabalho conheço uma ou duas músicas. Ao ouvir uma música da banda, o vocalista do Focus não hesitou e soltou a seguinte pérola:
“Eles tocam tudo com precisão, mas é um pouco rigído. Não há suingue, não consigo mexer minha bunda ouvindo isso. (…) Dá para entender o porquê de eles terem excursionado com o KING CRIMSON.

Vocês já podem entender por que grifei a última frase e também de ter comentado sobre a hipótese de briga do Akkerman com Van Leer: o King Crimson é uma das minhas bandas preferidas do ramo progressivo.
Mesmo assim, devo dizer que foi uma das coisas mais engraçadas que já li de um artista progressivo sobre outro grupo progressivo também. E por isso, vale nosso registro aqui.

No mais, Happy New (Y)ear pra todos vocês. Ou, em bom português, Feliz Nova Orelha. E torçamos para que o Peter Gabriel desembarque por estes pagos, pela glória de Tutatis!

Ah, o link –> http://whiplash.net/materias/news_880/081351-angra.html


LittleBigReligiousProblems

17/10/2008

LittleBigPlanet é o próximo e aguardadíssimo (pequeno) grande lançamento da Sony para o Playstation 3. Trata-se de um jogo de plataforma 2D (a la Mario ou Sonic) com belos gráficos em 3D, fases malucas e criativas e um alto nível de customização e interação raramente visto no mundo dos games. Além da campanha principal, os jogadores podem cooperar no modo online ou no mesmo console e – o fator que mais vem chamando a atenção – inventar e compartilhar na rede suas próprias fases com uma ferramente de criação que impõe poucos limites à criatividade do usuário. Para um trailer, clique aqui.

O jogo vem gerando muito hype, aparentemente justificado, já que os principais críticos têm elogiado muito e dado ótimas avaliações à versão final de LBP. O único pequeno (grande) problema é que seu lançamento foi adiado do dia 21 para 27 de outubro, nos EUA (em outros países, o atraso pode ser ainda maior). Esse adiamento deve corresponder a um prejuízo financeiro considerável para a Sony, além de constituir uma situação embaraçosa para a companhia.

O motivo do atraso? Religião. Aparantemente, durante o período de testes beta, alguém percebeu que em uma das músicas da trilha sonora eram citados trechos do Alcorão. A Sony – que já teve problemas com a Igreja Anglicana por incluir a Catedral de Manchester no jogo Resistance: Fall of Man – decidiu, então, retirar a canção da versão final do jogo e, por isso, terá de postergar sua distribuição. Pelo jeito, os muçulmanos consideram ofensivo o uso de seu livro sagrado misturado a manifestações da cultura pop, como músicas e video games.

O comunicado oficial da Sony:

“Durante o processo de revisão anterior ao lançamento de LittleBigPlanet, foi trazido a nossa atenção que uma das músicas de fundo licenciadas por uma gravadora para uso no jogo contém duas expressões que podem ser encontradas no Alcorão. Nós tomamos ação imediata para retificar isso e pedimos nossas sinceras desculpas por qualquer ofensa que isso possa ter causado”.

Para quem tem curiosidade de saber mais a respeito da tal música, aqui vai um link do YouTube onde você pode ouvi-la. O nome da canção é Tapha Niang, seu autor, o malês vencedor do Emmy, Toumani Diabaté. O curioso é que Diabaté é tido como muçulmano fervoroso e, até onde se tem notícia, nunca foi criticado – muito menos atacado por terroristas islâmicos (que fique bem claro que isso foi uma piada, afinal o COWABANGA! também não quer causar nenhuma ofensa à comunidade islâmica) – por usar partes do Corão em sua obra.

Toumani Diabaté toca a kora, instrumento que lembra uma harpa, tipico da África Ocidental

Toumani Diabaté toca a kora, instrumento que lembra uma harpa, típico da África Ocidental

A seguir, os trechos da música retirados do Alcorão:

1) “كل نفس ذائقة الموت” (“kollo nafsin tha’iqatol mawt”, algo parecido com: “Toda alma deve sentir o gosto da morte”).
2) “كل من عليها فان” (“kollo man alaiha fan”, algo como: “Tudo que está na terra perecerá”).

Por algum motivo, a letra da música não me parece combinar muito com a atmosfera de “fofura” pretendida por LittleBigPlanet

De qualquer forma, considerando a quantidade de incomodação – e de possíveis ameaças terroristas – da qual a Sony está se livrando, bem como ao fato da letra da música retirada aparentemente não harmonizar tanto com o clima do jogo, no fim das contas, talvez o prejuízo não venha a ser tão grande. Decisão acertada dos caras.

P.S.: Por falar em ataques terroristas, algum idiota por aí resolveu “reencenar” os ataques de 11 de setembro utilizando-se das ferramentas de criação da versão beta de LBP. Assista… Se tiver estômago…


Quem quer democracia na China no fim das contas? (ou, os bons álbuns que ninguém ouviu)

23/09/2008

[agradecimentos ao nosso colega Fred, que me deu a idéia para esse post]

Certo, certo. Todos estão cansados de ouvir falar de “Chinese Democracy”, o muitíssimo aguardado (em mais de um sentido) novo álbum do Guns N Roses – mas desculpem aí, vão ter que ter um pouquinho de paciência. Fruto da imaginação delirante e obsessão maníaca do vocalista e mala de plantão Axl Rose, o disco já está sendo gravado e regravado continuamente há mais de 10 anos, tendo contado com uma quantidade enorme de músicos e custado uma verdadeira fortuna – segundo alguns cálculos, mais de 13 milhões de dólares. Já foram anunciadas, de modo oficial ou nem tanto, pelo menos sete datas de lançamento – todas, é claro, adiadas sem a menor cerimônia. Atualmente, diz-se que o processo de gravação e mixagem está encerrado, e que o disco pronto está na mão da gravadora – que, mesmo assim, parece um tanto quanto “sem pressa” de lançá-lo, se é que me entendem. A julgar pelas demos que vazaram na Internet (e que o humilde escriba, evidentemente, já ouviu), vai acabar sendo um disco pretensamente experimental, um bocado pretensioso e sinceramente um pouco maçante. E a hesitação da Geffen Records em permitir a democracia na China se justificaria por dois motivos: ou estou enganado, o disco é uma obra-prima e a gravadora está se preparando do melhor modo possível para ganhar uma bolada, ou o CD é bem o que eu acho que vai ser e eles estão pensando no que fazer para ao menos ‘empatar’ os gastos quando do lançamento…

Seja como for, “Chinese Democracy” pode ser o mais famoso álbum-não-lançado de todos os tempos, mas com toda a certeza não é o único. Muitas vezes o público se viu privado, pelos motivos mais diferenciados possíveis, de ouvir material gravado por suas bandas ou músicos favoritos – o que muitas vezes foi uma pena, mas em muitas outras pode ter sido uma sorte danada. Enquanto a pizza de calabresa não chega aqui em casa, vamos dar uma relembrada em algum casos históricos de discos que ficaram famosos justamente por não terem saído, assumindo muitas vezes um status lendário que pode ser justo ou nada ter a ver com a realidade. Preparados? Então, lá vai:

Get Back (ou “Let It Be – Naked”) – Beatles, 1969 – Como todos nós sabemos, os últimos anos da carreira dos Fab Four estavam uma tremenda bagunça – briguinhas, intrigas, drogas a granel, a Yoko Ono enchendo o saco, enfim. Uma desgraça. Em 1969, a idéia dos músicos era gravar um disco mais cru, mais direto e sem muitos truques de estúdio – algo que se distanciasse um pouco do “Sgt Peppers” ou do “Magical Mystery Tour” e os reaproximasse da sonoridade mais simples dos primeiros dias. Apesar do quebra-pau generalizado, o disco acabou sendo gravado e recebeu o nome de “Get Back”. Porém, o clima estava tão pesado que simplesmente desistiram de prensar o disco naquele momento – diz a lenda que algumas “test pressings” (tiragens limitadíssimas, feitas para dar o OK na masterização final) chegaram a ser feitas, mas é a típica raridade que muitos dizem ter visto mas ninguém realmente tem, sabem como é. Quando os chiliques amainaram um pouco, os rapazes de Liverpool preferiram fazer um disco todo novo ao invés de concluir o serviço deixado pela metade. Resultado: gravaram e lançaram “Abbey Road” e, tempos depois, o produtor-que-virou-grife Phil Spector foi contratado para resgatar as velhas gravações de “Get Back”, enchendo-as de truques de estúdio (ou seja, indo contra toda a idéia inicial) e as transformando em “Let It Be”. Durante décadas os beatlemaníacos falavam sobre o tal “disco perdido”, mas levou nada menos que 33 anos para que as gravações originais de “Get Back” fossem resgatadas e lançadas oficialmente com o nome “Let It Be – Naked”. Para muitos, uma versão melhor que a de Spector – outros, como esse que vos escreve, acham que Beatles soa bem de qualquer jeito e preferem não tentar decidir…

The Vanilla Tapes – The Clash, 1979 – Após o lançamento do (na minha opinião) menosprezado “Give ‘em Enough Rope”, a clássica banda punk demitiu seu antigo empresário Bernhard Rhodes e enfurnou-se em um estúdio minúsculo chamado Vanilla, que pouco mais era do que um “puxadinho” de uma garagem, para compor as músicas para seu novo álbum.  Depois de algumas semanas de trabalho, gravaram nada menos do que 37 músicas – e resolveram mandá-las para o produtor Guy Stevens, que queriam convencer a produzir o trabalho final. Entregaram a fita para o roadie Johnny Green, que deveria pegar um trem e entregar em mãos a demo para o potencial novo produtor. O problema é que Johnny dormiu no trem durante a viagem e acabou passando a estação na qual deveria descer. Quando acordou e viu onde estava, desceu do trem com tanta pressa que esqueceu dentro do vagão a fita com as demos do Clash, só percebendo depois da partida do trem a burrada que tinha feito. O disco acabou sendo regravado e lançado como o clássico álbum duplo “London Calling”, mas durante um quarto de século as gravações do Vanilla Studio foram dadas como perdidas. Seria esse o fim da história, mas o guitarrista Mick Jones resolveu fazer uma faxina no porão em 2004 e, como que por encanto, encontrou uma cópia de parte das gravações, cópia que ele mesmo havia esquecido que tinha feito. Hoje, das 37 faixas gravadas no Vanilla, 21 delas foram incluídas como um CD bônus em “London Calling – The Legacy Edition”, trazendo a historinha para um final feliz.

Electric Nebraska – Bruce Springsteen, 1982 – Para muita gente, “Nebraska” é o melhor disco de Bruce Sringsteen, e a sua atmosfera folk sombria e melancólica colocou-o entre os álbuns mais ‘cult’ da história. O que muitos não sabem é que o disco que todo mundo ouve é constituído, na verdade, de vrs demo do que seria o disco “definitivo”. Springsteen gravou essas demos no quarto de sua casa, usando um porta-estúdio de 4 canais – e, depois de aprovado pela gravadora, o disco recebeu uma produção propriamente dita, sendo gravado em um estúdio profissional com arranjos elaborados e etc. No entanto, ao ouvirem o disco que haviam terminado de gravar, Bruce e os demais envolvidos com a produção concluíram que havia uma qualidade sombria nas músicas que havia se perdido com o trabalho de estúdio. A decisão final foi lançarem as demos mesmo, do jeito que estavam gravadas – o máximo que fizeram foi um tratamento de áudio para retirar o ruído de fundo e corrigir o baixo volume da gravação. Fico imaginando o que a gravadora pensou de ter gasto dezenas de milhares de dólares em uma produção e acabar arquivando tudo e lançando as demos… Seja como for, desde que “Nebraska” saiu os fãs se questionam sobre como seria a vrs de estúdio do disco – batizada como “Electric Nebraska” para fins de diferenciação. Infelizmente, tudo indica que essas gravações não devem aparecer tão cedo, se é que vão aparecer um dia – o próprio manager de Bruce, John Landau, já disse mais de uma vez que “foi lançado o disco certo” e que acha “altamente improvável” uma edição do material arquivado…

Dream Factory / Camille / Crystal Ball – Prince, 1986 – Esse é um caso muito raro de “álbum perdido” que não é só um álbum, mas sim pelo menos três – e possivelmente sejam cinco ou ainda mais! Tentarei explicar. No início de 1986, Prince e sua banda de apoio The Revolution (liderada por duas mulheres, Wendy Melvoin e Lisa Coleman) viviam um momento de grande colaboração criativa, que alcançou o auge durante a produção de “Dream Factory”. Inicialmente um projeto para um LP de 9 faixas, acabou se tornando um disco duplo, e a febre criativa do trio Prince / Wendy / Lisa era tanta que a listagem de músicas do projeto ia mudando quase que semanalmente. No entanto, as moças estavam incomodadas com o modo como o cara-que-depois-resolveu-assumir-um-símbolo-esdrúxulo-como-nome estava conduzindo as coisas com o The Revolution, incluindo até mesmo não-músicos na banda – o que, convenhamos, não faz o menor sentido. Depois de muita briga, o The Revolution foi dissolvido e “Dream Factory” foi para a gaveta. Não satisfeito, Prince resolveu fazer seu novo trabalho por conta própria: começou a experimentar milhões de idéias, foi misturando-as com coisas das gravações anteriores e teria acabado com nada menos que um álbum triplo, chamado “Crystal Ball” e prontinho para lançar. Por um tempo, diz-se que a idéia era de um disco chamado “Camille”, na qual Prince não apareceria e ao invés dele seria adotada uma personagem com o nome do disco, mas a idéia foi engavetada e absorvida por “Crystal Ball”. Mas a Warner, gravadora do moço, não quis bancar um disco triplo, e Prince foi convencido a reduzir o esquema para um álbum duplo, que depois das necessárias “readequações” foi lançado com o nome “Sign O The Times”. Músicas soltas, oriundas das incontáveis sessões dos dois projetos, foram sendo lançadas no decorrer do tempo, mas nunca foi (e provavelmente nunca será) possível ouvir os dois discos planejados originalmente. De qualquer modo, para Prince a situação não é exatamente inédita: o homem tem pelo menos outros quatro álbuns menos cotados que pararam na gaveta, bem como alguns DVDs e quase 50 videoclips que nunca foram exibidos em lugar algum (!!!)…

Smile – Beach Boys / Brian Wilson, 1966 – Por fim, o VERDADEIRO “álbum perdido” mais importante da história do rock, uma lenda que durou quase quarenta anos e que coloca essa frescura de “Chinese Democracy” no bolso. O Beach Boys tinha acabado de lançar o histórico “Pet Sounds”, e imediatamente começou a compor um novo trabalho, no qual o gênio criativo de Brian Wilson se unia ao de um amigo compositor chamado Van Dyke Parks para a confecção de um ábum que pretendia ser “uma sinfonia juvenil para Deus”. Mas uma série de situações foi tornando cada vez mais penoso o processo de composição e de gravação – os demais músicos da banda, além de não irem muito com a cara de Parks, achavam tudo complexo demais e impossível de ser reproduzido ao vivo. A gravadora também tinha dúvidas se o material seria “vendável”, e junte-se a isso a situação, digamos, especial que Wilson vivia na época – o músico, que desde sempre teve alguns distúrbios mentais, estava mergulhando bonito no LSD, em uma combinação que não tinha muito como dar certo… Entre outras coisas, conta-se que o homem achava que o famoso produtor Phil Spector (o mesmo do “Let It Be” citado acima) queria matá-lo, e que chegou a mandar construir uma caixa de areia em pleno estúdio, para poder brincar um pouco durante as gravações! Em resumo, a coisa degringolou totalmente – e, embora tenha se chegado a fabricar 400.000 cópias de uma capa para o disco (das quais hoje supostamente existem no máximo doze), Parks pediu o chapéu, Wilson continuou viajando no ácido e o projeto acabou sendo abandonado. Em seu lugar veio “Smiley Smile”, um disco confuso e detonado pela crítica. Chegou a se falar em um lançamento de “Smile” em 1972, mas os músicos do Beach Boys logo perceberam que só Wilson conseguiria tirar algum sentido das horas e horas de músicas incompletas, gravações soltas e pequenas vinhetas que restavam das sessões oficiais do disco. Foram 37 anos de espera, o que elevou o disco a um status de lenda quase inacreditável. Faixas foram incluídas em discos subsequentes, outras vazaram em lançamentos não-oficiais, mas apenas em 2004 um recuperado Brian Wilson reuniu-se com Van Dyke Parks, regravou o material, fechou as lacunas e finalmente liberou para o mundo um “Smile” muito próximo do que havia sido planejado em 1966/67. Muitos dizem que o rock teria sido muito diferente se o disco tivesse saído quando originalmente planejado – há até quem diga que “Smile” é melhor que o “Sgt. Peppers” do Beatles, para vocês terem uma noção. Seja como for, hoje em dia temos chance de ter ao menos uma idéia do que ele poderia ter sido – não custa nada dar uma ouvida, portanto.

Ficamos por aqui, senão o post ficará ainda mais gigantesco e bem, enfim. Se gostarem, avisem a gente, que a redação promete uma parte 2 com outros discos que ficaram famosos justamente por não terem sido ouvidos por ninguém – e acreditem, ainda tem muuuuuito disco do qual se poderia falar aqui. Nos vemos por aí, de qualquer modo; até breve.


Sisyphus in black

15/09/2008

Não gosto de dar notas funerárias em lugar nenhum. Acreditem, não me senti bem quando escrevi o post da morte do Waldick e do desenhista do Snoopy. E me sinto pior ainda em publicar este post agora pra vocês. Mas o jornalismo é assim, infelizmente.

É com grande pesar que hoje o rei Sisyphus trajou preto, visitou Rick Wright e o levou desta para melhor. O tecladista do Pink Floyd morreu hoje, aos 65 anos, de câncer no pâncreas. Quem deu a primeira notícia foi o The Guardian.

Tomei um choque quando soube do fato. Mesmo que fosse praticamente impossível, ainda tinha uma ponta de esperança por uma nova volta do Floyd, e até uma possível visita dos mesmos no Brasil, para vê-los ao vivo. Poucas bandas mexeram tanto comigo quanto eles, seja com seus ecos ou com suas viagens para o lado negro da lua, sempre do lado de fora do muro.

A mim (e com certeza a todos deste blog) deixamos nossos mais sinceros agradecimentos a Rick, que assim como Syd Barret e os membros ainda vivos, nos ensinou a sonhar acordado.
Assim que conseguir absorver o impacto da morte de um ídolo, posto mais detalhes.
Link da notícia no The Guardian.

Vá em paz, mestre.

Cloudless everyday you fall upon my waking eyes
inciting and inviting me to rise
And through the window in the wall
Come streaming in on sunlight wings
A million bright ambassadors of morning

And no-one sings me lullabies
And no-one makes me close my eyes
And so I throw the windows wide
And call to you across the sky

(Echoes, 1971)


A volta dos “Sound Chasers”

13/09/2008

É com um certo ar de esperança que escrevo este segundo post do dia.
Através do seu site oficial, o Yes confirmou que iniciará turnê de comemoração do 40º aniversário do grupo.

A turnê In The Present estava marcada para começar um pouco antes. Porém, o dadivoso Jon Anderson teve um ataque asmático em junho, e os médicos acharam melhor que o vocalista se preservasse por, pelo menos, seis meses. A princípio, os shows foram cancelados.

Por ora, o grupo vai se virar sem Jon Anderson e sem Rick Wakeman. Este último também foi aconselhado pelos médicos para não fazer longas viagens em turnês, além de estar tocando sua carreira solo. Vai ser substituído no Yes por seu filho, Oliver Wakeman. No caso dos vocais, Chris Squire ficou encarregado disso: achou um vocalista canadense de uma banda tributo do Yes chamado Benoit David. E até Anderson se recuperar (as previsões indicam que ele poderá voltar a cantar já no início de 2009), David estará à frente da cozinha formada por Alan White, Steve Howe e Chris Squire.

O site ProgShine indica uma tendência de que músicas do álbum Drama – cujo vocalista não era Jon Anderson, e sim Trevor Horn – sejam tocadas em shows dessa turnê. De acordo com o site, Squire – único membro que nunca saiu do Yes – tem uma certa simpatia pelo álbum, porém Jon Anderson se recusava a cantar músicas oriundas dele.

Acredito que, sinceramente, se Chris Squire – de quem sou muito fã – fizer uma besteira dessas, vai estar dando um tiro no pé. Nada contra o Drama: é um bom álbum e tem seu valor, ainda mais se levarmos em conta que, assim como hoje, Wakeman e Anderson não mais estavam no grupo, e mesmo assim os remanescentes fizeram um bom trabalho, da altura do Yes. Mas possivelmente esta será a última turnê mundial do Yes, pois a maioria dos membros já atingiu a terceira idade e não possuem mais agilidade e preparo físico para agüentarem viagens e mais viagens por todo o mundo, bem como manter uma postura no palco por duas ou três horas a cada dois dias. Tudo exige preparação, concentração e ensaios. E isso hoje, na idade que os músicos estão, é mais complicado de agregar para uma turnê mundial.

Se Squire fizer isso, vai estar atendendo a um desejo pessoal em detrimento de outras músicas que possivelmente os fãs querem ouvir ao vivo uma última vez. Ele vai ter a coragem de colocar uma Machine Messiah no lugar de uma I’ve Seen All Good People, Roundabout, Yours Is No Disgrace, Starship Trooper, Awaken ou Sound Chaser? Por uma questão pessoal? Acho difícil…

Que ele tome a melhor decisão. O que ele escolher, estará bem escolhido. Até porque, de qualquer forma, se eles vierem para o Brasil, não conseguirei vê-lo da forma que mais queria: de chapéu de barqueiro de gôndolas de Veneza, como ele aparece em um show de 1969 na França, tocando Beyond and Before.
Duvida? Pois confira o vídeo abaixo.

Se bem que o mais engraçado desse vídeo sejam as duas mocinhas apresentando a banda em francês, ambas com vozes engraçadas, e no final gritando “YES!” com a voz mais esganiçada ainda.

Mas buenas, pessoal, o que importa é que o Yes voltou. Iniciará a In The Present no dia 4 de novembro, em Ontário, Canadá.
Torceremos para que passem no Brasil. Será um sonho e tanto para que eu possa realizar.

Abraços a todos.

P.S.: A quem possa interessar, Rick Wakeman lançou um livro onde conta histórias que nunca antes foram contadas em sua carreira. De um homem quem deu um soco no Salvador Dalí no meio de um show, não duvido de mais nada. Ponto importante? Ele vai passar por algumas cidades na Europa para divulgar o livro. Marketing? Está mais do que certo, acredito eu. Vai tocar, vai agradar fãs e vai vender seu livro.
Você pode conferir do que se trata o livro clicando aqui.

P.S.2: Lembrando os desavisados que no vídeo aparece a primeira formação do Yes, que contava com Bill Bruford na bateria, Peter Banks na guitarra e Tony Kaye no teclado, além dos eternos Squire e Anderson.