Tintin na telona e outros causos

27/01/2009

tintin1Antes tarde, do que mais tarde cá estou outra vez para trazer a todos mais do mesmo: cultura pop enlatada e notícias diversas sobre um universo mais diverso ainda! Bom, vamos ao que interessa.

Desde o começo do ano passado pairam rumores sobre a transposição da história em quadrinhos Tintin para o cinema. Brigas moneycinematográficas para cá, brigas moneycinematográficas para lá, ficou acertado que quem irá filmar as aventuras do personagem criado pelo desenhista belga Hergé será o rei dos efeitos especiais E.T-Jurassic-Park-algum-fime-sério-no-meio-Spielberg em conjunto com o responsável pela transposição da obra de Tolkien para o cinema,  Peter Jackson.

73067311AG101_Berlinale_GolRá, mas não é isso o que interessa. Ao menos não a esse post. O COWABANGA! vem por meio deste comunicar que além dos diretores, o pessoal de Holywood fechou também os atores principais do filme. O papel do repórter magricelo, com uma queda pelo imperialismo e expert em confusões (e viva a  sessão da Tarde) ficou com, ta ta ta,  o também magricelo Jamie Bell. Mais conhecido por ter protagonizado o  filme Billy Elliot (2000), Bell será acompanhado pelo James Bond loiro, Daniel Craig, que interpretará o vilão Rackham, o Terrível e por Andy Serkis, o Gollum de O Senhor dos Anéis.

A primeira aventura do jovem Tintin em 3D, que em 2009 completa 80 anos, deverá se chamar  “The Adventures of Tintin: Secret of the Unicorn” (“As Aventuras de Tintin e o Segredo do Licorne”, como traduzido no quadrinho), e ainda não tem previsão de estréia.

tintin-au-pays-des-soviets* Momento almanaque. Segundo o documentário Tintin e eu **, a idéia de criar um personagem que fosse repórter veio de uma conversa de Hergé com o seu patrão, o abade Norbert Wallez, diretor do jornal direitista católico Século XX (Vingtième Siècle). Esse abade era contrário ao regime comunista, e teria incentivado Hergé à criar a história da viagem à Rússia Tintim no País dos Sovietes (1929), primeiro álbum de história em quadrinhos da série As Aventuras de Tintim –  na qual os comunistas aparecem como vilões. Parece que, depois da guerra, o abade foi preso pelos ingleses por vários anos, acusado de colaborar com o regime nazista.

milu

Agora a pergunta que não quer calar é:

E o Milu, quem vai interpretar?


** Documentário produzido em 2004 pelo dinamarquês Anders Østergaard. Tintin et moi (título original) é um filme-animação baseado em uma entrevista de quatro dias feita por Numa Sadoul com Hergé em 1971, transformada em 1975 no livro Tintin e Eu: conversando com Hergé. Abaixo, o comecinho do filme.

Post ainda não adequado as novas regras ortográficas da Língua Portuguesas. Em breve, idéias sem acento.


It’s magic, we don’t have to explain it #5

18/11/2008

Concluímos aqui (finalmente) a nossa série a respeito das mais polêmicas histórias da história do Homem-Aranha. Para o gran finale, como não poderia deixar de ser, falaremos da saga que inspirou esta série de posts. Com vocês…

Um Dia a Mais
One More Day

Peter Parker aliou-se à facção pró-registro e revelou sua identidade secreta ao mundo no início da Guerra Civil dos super-heróis. Entretanto, ele acabou mudando de lado e tornando-se um fugitivo da lei, junto com Mary Jane, sua esposa, e May, sua tia. Conhecendo sua identidade, o Rei do Crime manda um atirador para matar o Homem-Aranha quando ele estivesse desprevenido. E o tiro destinado a Peter acaba atingindo a Tia May, que fica às portas da morte. Eventualmente, o cabeça-de-teia dá uma surra no Rei e consegue internar May Parker em um hospital, com um nome falso – por causa do status de fugitivo de seu sobrinho.Página de Amazing Spider-Man #544

É nesse contexto que começa Um Dia a Mais. A Tia May está em um leito de hospital, mas encontra-se além de qualquer ajuda médica. Ela está morrendo e, aparentemente, não há o que se fazer a respeito. Peter culpa-se, pois o tiro que acertou a Tia era para ele, além de que nada daquilo estaria acontecendo se ele nunca tivesse cometido o erro de revelar ao mundo que era o Aranha. Assim, o herói parte em busca de alguém que possa salvar May Parker. Mas a busca revela-se infrutífera. Mesmo o mago supremo, o Dr. Estranho, é incapaz de ajudá-lo. Tudo parece perdido…

Página de Sensational Spider-Man #41Até que surge Mefisto, um dos lordes infernais do Universo Marvel, análogos ao Satã bíblico. Ele diz que pode salvar May, mas há um preço a se pagar… E, não, ele não quer a alma de Peter. Segundo o demônio, quem vende a alma para ajudar alguém, vai para o inferno e “sofre honradamente, amparado pela crença eterna de que suas ações salvaram outras pessoas”. Não, isso não teria graça. O que Mefisto quer é… O amor de Peter e Mary Jane, o casamento deles. O CASAMENTO!

O casal tem apenas Um Dia a Mais para desfrutar de suas vidas como estão. À meia-noite do dia seguinte, eles têm que decidir o que perderão: a tia ou o casamento. Chegada a hora, o Aranha ainda está em dúvida e é Mary Jane quem aceita o pacto com o Coisa-Ruim, desde que a identidade secreta de Peter seja restaurada, sua vida seja devolvida ao normal e ele tenha a chance de ser feliz. Pressionado, o cabeça-de-teia concorda com os termos. Num passe de mágica, o casamento dos dois é apagado da existência – como se nunca tivesse ocorrido –, eles estão brigados e não são mais um casal, Peter está de volta à casa da (agora saudável) Tia May, o falecido Harry Osborn está de volta de alguma maneira – embora a Marvel insista que sua “ressurreição” nada tem a ver com Mefisto –, ninguém sabe da identidade do Homem-Aranha e Peter e Mary Jane não se lembram do pacto com o Cramulhão.

Quadro de Amazing Spider-Man #545

A história é muito bem construída, muito bem conduzida por J. Michael Straczynski. Os diálogos são afiados, como de costume. Há uma atmosfera de drama quase palpável. Várias das situações são interessantes, como o confronto inicial com o Homem de Ferro – a quem Peter culpa, parcialmente, pelo ocorrido, visto que foi ele a incentivar o Aranha a revelar sua identidade –, as participações do mordomo Jarvis – que tinha, no mínimo, uma quedinha pela Tia May – e do Dr. Estranho – com uma referência muito bem bolada a uma HQ do início da fase JMS em Amazing Spider-Man –, os Peter Parkers alternativos (e frustrados), etc. Os desenhos de Joe Quesada – que, por acaso, também é o editor-chefe da Marvel – continuam bons como de costume e o comitê (de uma só pessoa) diria que sua narrativa, inclusive, evoluiu.

Entretanto, Um Dia a Mais será sempre lembrada por seu principal propósito, o de acabar com o casamento do Homem-Aranha, e pela solução absurda encontrada para alcançá-lo, um pacto com o Demônio. Aliás, esta é uma boa maneira de resumir a saga: uma solução idiota para um não-problema. Assim como com Pecados Pretéritos, a história não é ruim em si, pelo contrário, mas sua idéia central é ridícula e, para muitos fãs, um desrespeito.

Quadro de Sensational Spider-Man #41

Quesada, desde que assumiu como editor-chefe da Marvel, sempre proclamou aos quatro ventos que queria ver o fim do casamento de Peter e Mary Jane. Ele e alguns de seus editores e roteiristas achavam que o matrimônio limitava algumas boas possibilidades de histórias do herói. Finalmente, Quesada tomou uma atitude. Divórcio, é claro, nunca foi uma opção, afinal, para o chefão criativo da Marvel, isso tornaria o personagem mais velho aos olhos dos leitores (acho que já vi isso antes… Pequena May, alguém…?), além de ser um péssimo exemplo. Um pacto com o Demônio, sim, é que é um ótimo exemplo… (Bom, é verdade que Mefisto não é o próprio Satã bíblico, mas é quase como se fosse, certo?).

Arte da capa de Amazing Spider-Man #545Enfim, a reação dos fãs e da crítica em relação à saga foi quase que totalmente negativa. Muita gente chegou a propôr um boicote à nova fase do Aranha por causa de Um Dia a Mais. E o pior é que toda a situação gerou uma confusão danada na cronologia do teioso – a ponto de a Marvel divulgar um esquema tentando esclarecer algumas coisas. As histórias de Peter casado ainda valem? Diz a Marvel que sim, a única diferença é que Pete e MJ não estavam casados, apenas tendo um relacionamento – e, por motivos ainda desconhecidos, terminaram recentemente. Então, o que foi que Mefisto tomou? Apenas as alianças e a certidão? Aliás, como Mefisto foi capaz de promover uma alteração dessas na realidade? Opa! A resposta pra essa pergunta já se sabe. Como o próprio Quesada disse (e repetimos no título de nossa série): “It’s magic, we don’t have to explain it”. Ou, para os leigos na língua da Rainha: “É mágica, nós não temos que explicar”.

Essa “explicação” do editor-chefe levou, inclusive, a um atrito com Straczynski, o roteirista. Ele declarou que se trata de “uma solução malfeita. Viola todas as regras de ficção e fantasia que eu e todo escritor de sci-fi e fantasia sabemos que não pode ser violada. É elementar”. A rusga entre Quesada e Straza foi ainda maior porque o roteirista acabou entregando um script para a conclusão de Um Dia a Mais diferente do que havia sido combinado. Nele, a mudança que Mefisto faria na vida do Aranha teria sido bem anterior ao casamento, mexendo em HQs dos anos 70. Gwen Stacy nunca teria morrido e Harry Osborn e MJ teriam continuado namorando. Página final de Amazing Spider-Man #545O roteiro foi recusado e reescrito – afinal a seqüência da história já estava sendo produzida e dependia de um final específico –, o que fez com que Straczynski chegasse a pedir para ter seu nome retirado dos créditos. No fim das contas, parece que foi dos males o menor. Se JMS tivesse feito o que queria, mais de 30 anos de cronologia do Aranha seriam, de fato, invalidados, o que certamente provocaria a fúria dos fãs.

De qualquer forma, para Quesada, Um Dia a Mais foi um mal necessário. Para os fãs, não tão necessário assim. Pelo menos, a nova fase, intitulada Um Novo Dia, aparentemente, é boa e começa a ser publicada no Brasil neste mês.

Abaixo, ótimas tirinhas do SpiderFan.org relacionadas a Um Dia a Mais (clique para ampliar):

SpiderFun Strip #77

SpiderFun Strip #79

SpiderFun Strip #80

E este é, então, o fim da nossa série. Até a próxima, pessoal (se é que alguém lê isso aqui)!

Mais It’s magic, we don’t have to explain it:
– Parte 1.1: Saga do Clone
– Parte 1.2: Saga do Clone (continuação)
– Parte 2: Capítulo Final
– Parte 3: Pecados Pretéritos
– Parte 4: O Outro


It’s magic, we don’t have to explain it #4

09/11/2008

Parte 4 da série a respeito das mais polêmicas – ou piores – histórias do Homem-Aranha, segundo a avaliação de nosso comitê (de uma só pessoa). Nesta semana, falaremos de…

O Outro

O Homem(-Aranha) Vitruviano

Logo que J. Michael Straczynski assumiu o posto de escriba da principal revista do cabeça-de-teia, Amazing Spider-Man, já começou com seu blá-blá-blá místico e totêmico. Em suas histórias, JMS revelou que Peter Parker não ganhara seus poderes por acaso. Eles estavam ligados ao totem-aranha e, antes de Peter, sempre houvera outros como ele, dotados de habilidades aracnídeas. Mas também havia inimigos naturais daqueles ligados ao totem, seres que se nutriam de suas forças vitais, como Morlun, um dos principais vilões do início da fase Straczynski.

É em O Outro que toda essa baboseira totêmica do Straza atinge seu clímax. A saga foi publicada nos EUA de outubro de 2005 a janeiro de 2006, espalhando-se pelos três títulos regulares do Aranha: Friendly Neighbourhood Spider-Man (#1-#4), Marvel Knights Spider-Man (#19-#22) e Amazing Spider-Man (#525-#528). Nos três primeiros meses, cada um dos roteiristas das revistas-aranha escrevia todas as três publicações daquele mês e, no quarto mês, cada um escrevia uma parte da conclusão na sua própria revista  – parece bem confuso, mas não é tanto assim.

No início da história, roteirizado por Peter David, surge um novo vilão, o Rastreador, que entra em conflito com o Homem-Aranha. Nas sombras, Morlun – supostamente morto em seu primeiro encontro com o teioso – espreita. Ferido em batalha, nosso herói procura ajuda médica e os diagnósticos acabam por apontar que há algo de errado com a fisiologia de Peter. No segundo ato de O Outro, cometido por Reginald Hudlin, o teioso vai atrás de ajuda na comunidade super-heróica e é analisado por grandes gênios científicos como o (alter ego do) Hulk e o Pantera Negra. Aparentemente, suas células estão degenerando-se devido ao seu sangue irradiado, mas ninguém consegue explicar por que ou pensar numa maneira de reverter o processo. O Homem-Aranha resolve, então, procurar ajuda mística com o Dr. Estranho, que simplesmente anuncia que o cabeça-de-teia irá morrer. E isso é tudo de relevante que ocorre em 4 edições, 88 páginas e mais de um mês de quadrinhos do Aranha: ele descobre que está doente e irá morrer (e o leitor descobre que Morlun está vivo). Santa descompressão narrativa, Bátimã!

Bom, pelo menos nos próximos números teremos mais ação e coisas realmente acontecendo. Isso só pode fazer com que a história melhore, certo? ERRADO! O que vem a seguir é uma da idéias mais absurdas que já se viu num gibi do Aranha… Peter decide invadir o laboratório do Dr. Destino na Latvéria e usar a máquina do tempo do vilão para voltar ao passado e, de alguma forma, impedir a si mesmo de ganhar os poderes de Homem-Aranha. Para a missão, leva consigo sua esposa, Mary Jane, e a Tia May, ambas vestindo velhas armaduras de Homem de Ferro. Sério… Tia May e Mary Jane de armadura lutando contra robôs do Dr. Destino…? O que é isso? Voltamos à Era de Prata?

No fim das contas, a viagem no tempo não dá muito certo. De volta ao presente, Peter eventualmente se vê cara a cara com Morlun, que quer sugar a essência vital do herói antes que ele morra. Enfraquecido por sua “doença”, o Aranha é presa fácil para o vilão, que o espanca, deixando-o sem ação, à beira da morte. Mas a polícia e outros heróis chegam antes que Morlun  possa fazer sua “refeição”. No entanto, ele não sai sem antes fazer um aperitivo. Literalmente. Antes de fugir, o bandidão arranca e devora um dos olhos do cabeça-de-teia. Hummmm! Delícia!

No ato três, escrito por Straczynski, o Homem-Aranha, inconsciente e quase morto, é levado a um hospital. Lá, enquanto Mary Jane está com o herói caído, Morlun ressurge. Ela vai pra cima do vilão, que revida. Peter desperta para protegê-la e, repentinamente, ataca Morlun com selvageria, agindo mais como aranha do que como homem. Espécies de estacas/ferrões saem de seus ante-braços (desde quando aranhas tem ferrões!?) durante a luta e, no fim das contas, o herói mata o vilão, consumindo sua essência, e, logo depois, cai morto nos braços de MJ.

Mas não pára por aí, o cadáver do Aranha é levado para o lar dos Vingadores, a Torre Stark. Ele é deixado de lado por um tempo e quando é checado novamente, só há uma casca vazia. O verdadeiro corpo do herói saiu de dentro da própria pele e agora está se regenerando dentro de um casulo de teia em algum lugar de Nova York. Dentro do casulo, Peter tem sonhos estranhos, é levado a confrontar o totem-aranha e a aceitar sua “aranha interior”. Ele percebe que seu potencial não vinha sendo completamente aproveitado porque sua metade humana oprimia sua porção aranha – que havia sido responsável por salvá-lo de Morlun. O Homem-Aranha emerge de lá e volta para sua família e os Vingadores, que vinham procurando-no incessantemente.

No ato final, descobrimos que o cabeça-de-teia ganhou um novo corpo, sem quaisquer cicatrizes (até mesmo sem qualquer sinal de sua velha apendectomia). E, enquanto a Torre Stark está vazia, várias aranhas se apoderam do local e da velha carcaça de Peter, gerando um novo corpo formado inteiramente por aranhas. O estranho ser, o tal Outro do título, tem uma breve altercação com Peter – durante a qual, seus “ferrões” manifestam-se novamente – e foge para uma igreja, onde vai para dentro de um casulo semelhante aquele em que Peter esteve. O Aranha e o Outro encontram-se novamente e, após um bate-papo totêmico esquisito, o bicho foge mais uma vez.

Mais tarde, o teioso vê-se em uma situação de perigo e acaba descobrindo seus novos poderes. Além dos ferrões, Peter agora tem uma espécie de visão noturna, pode sentir vibrações distantes através de sua teia e pode prender-se às paredes com diferentes partes de seu corpo.

Fim.

O Outro teve muito marketing e chegou a alcançar sucesso comercial, mas a (falta de) qualidade da história foi alvo de duras críticas na época de sua publicação. A saga tem diversos problemas, sendo o principal a inconsistência dos roteiros e desenhos. O que deveria ser meio óbvio, afinal foi escrita por três caras diferentes e desenhada por três caras diferentes – sendo um deles (Pat Lee), muito ruim. Entretanto, os roteiristas e editores deveriam ter trabalhado de forma mais integrada para evitar as diversas incoerências ao longo das HQs. E provavelmente poderiam ter sido selecionados desenhistas com estilos não tão destoantes para a saga. Além disso, diversas partes se arrastam demais, enquanto que algumas situações são resolvidas muito rapidamente. E muitas das próprias idéias da trama são simplesmente ruins. Por exemplo, a esposa e a tia velha de armadura, olho devorado, os “ferrões” e o próprio papo místico/totêmico (que não combina lá muito com o personagem). Tanto que o blá-blá-blá místico e os próprios novos poderes foram sumariamente ignorados durante a maior parte do tempo desde o fim de O Outro.

O melhor a vir dessa saga foram mesmo as capas alternativas do já saudoso Mike Wieringo, retratando várias versões do Aranha.

Capas variantes, por Mike Wieringo

Em breve, o gran finale de nossa série com Um Dia a Mais

Mais It’s magic, we don’t have to explain it:
– Parte 1.1: Saga do Clone
– Parte 1.2: Saga do Clone (continuação)
– Parte 2: Capítulo Final
– Parte 3: Pecados Pretéritos
– Parte 5: Um Dia a Mais


It’s magic, we don’t have to explain it #3

01/11/2008

Chegou a hora da terceira parte da série que fala das mais polêmicas histórias do Homem-Aranha nos quadrinhos. Vamos em frente com a Saga da Gwen Puta, oficialmente conhecida como …

Pecados Pretéritos

Comecemos com uma breve contextualização… Em uma HQ do início da década de 1970, mais especificamente em Amazing Spider-Man #90, o Capitão Stacy, pai da então namorada do Aranha, Gwen Stacy, morre tragicamente ao salvar um inocente de escombros que caíam por causa de uma batalha entre o cabeça-de-teia e o Dr. Octopus. Gwen culpa o teioso pela morte do pai e, apesar de não conhecer a identidade secreta de seu namorado, isso acaba desgastando o relacionamento dos dois. Ela, então, decide passar algum tempo na Europa para esfriar a cabeça e lidar com sua perda. Gwen volta de viagem e tudo parece voltar ao normal para ela e Peter Parker. No entanto, não muito tempo depois, a jovem é morta pelo arquiinimigo do Aranha, Norman Osborn, o Duende Verde.

Eis que, anos depois, nas revistas Amazing Spider-Man #509-#514 (publicadas nos EUA entre agosto de 2004 e janeiro de 2005), o roteirista J. Michael Straczynski resolve revisitar esses fatos e inserir novos – e odiosos – elementos nessa trama pra criar uma nova – e ridícula – história, num dos mais cretinos retcons de que já se teve notícia – quase no nível de Tia May atriz.

Quando passava pela difícil fase após a morte de seu pai e os problemas no namoro com Peter, Gwen Stacy acabou tendo um affair com ninguém mais, ninguém menos que… Norman Osborn (sempre ele!). E, na verdade, Gwen havia ido para a Europa justamente para dar à luz aos frutos desse caso: os gêmeos Gabriel e Sarah. Na volta, a namorada do Aranha (corno!) vê o monstro que Osborn é por causa da indiferença dele para com seu filho Harry, na época, drogado e doente. Ela decide, então, que o melhor a fazer é educar as crianças com a ajuda de Peter. Entretanto, Norman enxerga isso como uma ameaça a seus herdeiros e resolve que os gêmeos serão criados sob a sua tutela. O resto, como dizem, é história. Teriam sido os gêmeos, então, o principal motivo para o Duende Verde ter matado Gwen Stacy anos atrás. Haja imaginação e retcons bizarros, hein, seu Straza?

Mas a história não pára por aí. Mary Jane, atual esposa do Homem-Aranha (e amiga de longa data de Peter e Gwen), sabia do caso entre o Duende Verde e Gwen Stacy. E nunca havia contado para Peter porque Gwen havia pedido que mantivesse segredo. Sensacional! Além disso, Norman criou Gabriel e Sarah como se fosse uma simples alma caridosa que os tivesse adotado. Mentiu para eles que Peter Parker era seu verdadeiro pai e grande responsável pela morte de sua mãe. Para completar, devido às alterações genéticas causadas em Osborn pelo soro do Duende, seus filhos sofrem de crescimento ultra-acelerado e tem corpos de pessoas de uns vinte anos, apesar de não terem nem dez.

Os gêmeos mutantes super-crescidos voltam (não me perguntem de onde), então, para atacar Peter Parker – que eles pensam ser seu pai – por tê-los abandonado e por seu suposto papel na morte de Gwen. O Aranha decide contar a verdade para Gabriel e Sarah e tentar ajudá-los com seus problemas de envelhecimento acelerado. Sarah acredita nele, mas Gabriel não. No confronto, entre ele e o Homem-Aranha, Sarah acaba sendo baleada pela polícia. Ela precisa de uma transfusão e é o Aranha quem fornece sangue. De alguma forma, seu sangue com veneno de aranha irradiado acaba “cancelando” o efeito de envelhecimento do sangue de Osborn que corre nas veias de Sarah.

Enquanto isso, Gabriel encontra acidentalmente um dos laboratórios secretos do Duende Verde, injeta em si mesmo a fórmula do Duende e torna-se o Duende Cinza. Sua carreira de super-vilão acaba sendo extremamente curta. Em um ataque do novo Duende ao cabeça-de-teia, a própria Sarah salva o teioso, dando um tiro no planador do irmão, que explode. Gabriel cai na água e reaparece em uma praia qualquer, com amnésia. Fim de papo.

De certa forma, a história é bem escrita. Ela avança naturalmente, os diálogos são bons, há mistério e um certo clima “novelesco” característico das histórias do Aranha. Entretanto, a idéia por trás da trama é simplesmente absurda. Inaceitável, até. O fato de Gwen ter tido um caso com Norman macula as lembranças de um tempo mais inocente. Mancha a memória de uma personagem pura, doce e completamente apaixonada por Peter Parker. Há quem defenda até hoje, inclusive, que Gwen Stacy é e sempre será o maior e verdadeiro amor do Homem-Aranha.

Na ficção, tudo é permitido. No entanto, há linhas que não se deve cruzar, memórias que devem ser deixadas intactas. Pecados Pretéritos não é uma história de todo ruim, mas ela cruza a linha, ela mexe com o que não deve. A saga quebra o encanto de uma instituição sagrada do passado do Aranha que é esse amor inocente entre Peter e Gwen.

Peter e Gwen no traço de John Romita

Algum tempo depois da publicação do arco – e da resposta negativa dos fãs –, Straczynski, o roteirista, declarou que a HQ sofreu pesadas intervenções editoriais. No seu plano original, os gêmeos seriam, de fato, filhos de Peter Parker, mas os editores da Marvel recusaram a idéia. Para eles, isso deixaria o cabeça-de-teia mais velho aos olhos dos leitores – além de sugerir que Gwen e Peter teriam feito sexo antes do casamento, o que seria um grande mal exemplo…

É claro que se fosse o Aranha o pai de Gabriel e Sarah, a imagem de Gwen Stacy ainda estaria imaculada e talvez Pecados Pretéritos não tivesse um lugar aqui na nossa série das piores HQs do teioso. Mas, de forma alguma, isso faria com que fosse uma boa história. Seja como for… Valeu por tudo, Straczynski!

E o pior de tudo é que esta não foi a última vez que você leu o nome desse roteirista em It’s magic, we don’t have to explain it. Semana que vem, seguimos com O Outro.

Mais It’s magic, we don’t have to explain it:
– Parte 1.1: Saga do Clone
– Parte 1.2: Saga do Clone (continuação)
– Parte 2: Capítulo Final
– Parte 4: O Outro
– Parte 5: Um Dia a Mais


It’s magic, we don’t have to explain it #2

25/10/2008

O COWABANGA! volta à ação com a segunda parte de nossa série a respeito das mais polêmicas – ou piores – histórias da história do Homem-Aranha nos quadrinhos, selecionadas arbitrariamente por nosso comitê (de uma só pessoa). Hoje é a vez de…

Capítulo Final

Nos primeiros anos após a famigerada Saga do Clone, o Espetacular Homem-Aranha até teve algumas boas histórias, mas nada de realmente… ahn… espetacular. E as vendas – sempre elas – não se encontravam num patamar dos mais “saudáveis”. Procurando dar uma sacodida nas HQs do herói, a Marvel resolveu fazer um reboot, dar início a uma nova fase, zerando dois dos títulos do herói e cancelando outros dois. Pra arrumar a casa antes do recomeço, veio a história Capítulo Final, cometida… digo… idealizada pelos roteiristas Howard Mackie e John Byrne, os dois principais responsáveis pelo iminente reboot. A saga foi publicada em novembro de 1998, nas revistas Amazing Spider-Man #441, Peter Parker: Spider-Man #97, Spectacular Spider-Man #263 e Peter Parker: Spider-Man #98.

Nas histórias anteriores, Norman Osborn havia conseguido limpar seu nome e fazer todos acreditarem que ele não era o Duende Verde. O vilão passou, então, a agir mais nos bastidores, a la Rei do Crime (ou Lex Luthor), manipulando das sombras a vida de Peter Parker a fim de torná-la o mais infernal possível. Sedento por poder, resolveu tomar parte da Reunião dos Cinco, ritual mágico que concederia a seus participantes um de cinco dons diferentes: imortalidade, sabedoria, loucura, morte e poder supremo.

É em meio a esse ritual, que começa Capítulo Final. Osborn aparentemente fica com o dom do poder e parte para colocar em movimento seu plano para acabar definitivamente com o Homem-Aranha. Enquanto isso, Alison Mongrain, antiga empregada de Osborn que havia raptado a filha de Peter e Mary Jane – ou o corpo da filha de Peter e Mary Jane – foge do vilão Magma (lobotomizado por Osborn) e procura os Parker para lhes contar um terrível segredo. Pouco antes de ser morta por Magma, Mongrain consegue falar com Mary Jane. May está viva.

Pensando tratar-se de sua filha, a pequena May, o Aranha vai à propriedade de Osborn em busca de respostas e confronta o vilão, agora, usando novamente seu traje de Duende Verde. O cabeça-de-teia consegue vencer o bandido – baita “poder definitivo”, hein, Osborn? – e encontra May. Mas… Rá!!! Pegadinha do Mallandro! Não é a May que todos esperávamos. É a Tia May! A Tia May que havia morrido durante a Saga do Clone, em Amazing Spider-Man #400, talvez uma das melhores e mais emocionantes HQs do teioso em todos os tempos, uma das mortes mais bem executadas e mais bem aceitas (pelos fãs) na história dos quadrinhos.

Aparentemente, os autores Byrne e Mackie colocaram em suas respectivas cabeças que precisavam da velha May de volta para o seu “glorioso” reboot – que acabou sendo um belo de um fracasso, diga-se de passagem. Até aí, tudo bem. Afinal, em gibis, quem é morto sempre aparece. E desfazer, invalidar, “retconear” histórias antigas é a coisa mais comum do mundo. O grande problema é a explicação absurda, vergonhosa e ridícula encontrada pelos roteiristas para a volta da Tia May. Sério! Até hoje, o comitê mal consegue acreditar que escritores profissionais tiveram essa idéia e que ela foi aprovada por uma editora (supostamente) séria como a Marvel. Bom… Chega de suspense. Apresento-lhes, então, uma das piores idéias da história da ficção moderna!

Na verdade, quem havia morrido no lugar de May Parker durante a Saga do Clone havia sido uma atriz. Isso mesmo, uma atriz moribunda contratada por Norman Osborn somente para fazer Peter Parker sofrer. Para ficar igual a Tia May, ela havia sido geneticamente alterada (e ensaiado muito). Pôde assim, despedir-se do mundo com seu último grande papel, interpretando a Tia do Homem-Aranha em seus momentos finais. Genial!

E quem revela tudo isso ao teioso é o próprio Osborn, após dar uma surra no Aranha e fazer uma demonstração de suas novíssimas bombas de DNA, capazes de degenerar e matar inúmeras pessoas em pouquíssimo tempo. E tem mais um detalhe: a Tia May tem, alojado em seu cérebro, um pequeno objeto que está lhe matando aos poucos. Se o objeto for retirado, acionará bombas de DNA do Duende Verde espalhadas por diversos locais. Mas May já está a caminho da mesa cirúrgica de Reed Richards, o Sr. Fantástico, para ter removido o corpo estranho de seu crânio. E agora, Homem-Aranha?

Agora, vem a batalha final! Duende Verde e Homem-Aranha lutam em frente ao Clarim Diário e quem vence a contenda é… o Duende! Ele desmascara o aracnídeo e o mata em frente a vários de seus amigos e conhecidos. É o fim do herói…

Ou não. A vitória de Osborn não passava de uma alucinação sua. Aparentemente, durante o Ritual dos Cinco, o dom concedido a ele não fora o poder absoluto, mas a loucura. O Aranha era quem havia realmente saído triunfante na “batalha final” entre os dois. Tudo certo, então? Não. O prédio do Clarim, danificado durante a luta, está prestes a cair e cabe ao nosso herói utilizar toda a sua força para mantê-lo de pé até que as autoridades entrem em ação. Além disso, o teioso ainda tem que correr para avisar o Dr. Richards que o objeto na cabeça da Tia May é um gatilho para as bombas de DNA de Osborn. No fim das contas, Richards consegue desativar o objeto e tirá-lo do cérebro de May de forma segura. Peter, por sua vez, resolve deixar de ser o Homem-Aranha (pela 43ª vez) e dedicar-se mais à família. Fim da história.

Analisemos, então, o saldo final. Norman Osborn por trás de tudo, como de costume. Rituais místicos obscuros. “Ressurreição” de uma personagem cuja morte tinha funcionado muitíssimo bem. A explicação mais tosca possível pra “ressurreição”. Dois velhos clichês idiotas: a) vilão contando todo o seu masterplan para o herói; b) parte do que o leitor viu não passava de sonho/alucinação. Bombas de DNA capazes de transformar pessoas em geléia orgânica inanimada. Peter desiste (temporariamente) de ser o Aranha, como de costume. Incoerências cronológicas diversas.

É… Acho que não foi uma história muito boa. Ainda assim, o maior problema do comitê (de uma só pessoa) com ela é justamente a solução ridícula utilizada para trazer a Tia May de volta. Se não fosse por esse “pequeno detalhe”, muito provavelmente, Capítulo Final nem mesmo entraria nesta nossa série sobre as piores HQs do cabeça-de-teia. Pois é… Uma atriz geneticamente modificada… UMA ATRIZ!

Bom… Semana que vem, continuamos com Pecados Pretéritos.

Mais It’s magic, we don’t have to explain it:
– Parte 1.1: Saga do Clone
– Parte 1.2: Saga do Clone (continuação)
– Parte 3: Pecados Pretéritos
– Parte 4: O Outro
– Parte 5: Um Dia a Mais


It’s magic, we don’t have to explain it #1.2

16/10/2008

Concluímos aqui a nossa “breve” análise de uma das mais polêmicas histórias do Homem-Aranha. Pra quem não leu a primeira parte do texto, aqui vai o link. Sigamos, então, com a nossa estimada…

Saga do Clone

Janeiro de 1996. Chegava, enfim, a nova fase do Aranha (com pelo menos 9 meses de atraso em relação ao plano original), quando era publicada a revista Sensational Spider-Man #0, trazendo a primeira aventura de Ben Reilly com o (novo e estiloso) uniforme de Homem-Aranha. Havia um único problema… Quando a revista foi lançada, os dias de Ben como o escalador de paredes titular já estavam contados. Meses antes, quando apenas as primeiras histórias da nova fase haviam sido escritas e planejadas, o editor responsável pela linha do Homem-Aranha, Bob Budiansky, já havia tomado a decisão: Peter Parker tinha que voltar a ser o único e verdadeiro cabeça-de-teia. O próprio roteirista de Sensational Spider-Man na época, Dan Jurgens, é quem havia conversado com Budiansky e ajudado a convencer o editor de que substituir Peter por Ben era inaceitável e que os fãs provavelmente não apoiariam a mudança. Ora, que leitor, afinal, gostaria de saber que o personagem que acompanhou fielmente pelos últimos vinte anos não passava de uma cópia e todas as suas histórias deixariam de ter grande significado…? Na verdade, Jurgens estava absolutamente certo. Mas o resultado da nova resolução de Budiansky gerou caos na equipe responsável pelas histórias do herói. Os arcos planejados a longo prazo iriam para o lixo e todos estavam convocados a criar uma trama que trouxesse Peter Parker de volta de maneira plausível – e sem uma filha. As propostas em torno da tal trama envolveram idéias que iam desde o envolvimento de Mefisto (como, ironicamente, acabou acontecendo anos depois, em Um Dia a Mais) e viagens no tempo – solução que quase acabou adotada – até a revelação de que não só Ben seria um clone, que acabaria degenerando, mas Mary Jane também, sendo que a original estaria aprisionada há tempos e nunca teria casado com Peter.

As sementes para o retorno de Peter Parker começaram a ser plantadas tão logo quanto possível. Ele voltou a aparecer regularmente na revistas-aranha. Mais aventuras envolvendo clones se seguiram. Depois de algum tempo, ficou decidido que haveria uma figura misteriosa, um gênio maligno mexendo os pauzinhos dos bastidores, manipulando a tudo e a todos, uma espécie de deus ex machina, responsável por toda a confusão dos clones. O personagem chegou até a aparecer em alguns quadros, sempre envolto pelas sombras, aparentemente utilizando aparelhos de suporte de vida. Só não estava decidido, ainda, quem ele seria. Talvez, um ressuscitado Harry Osborn. Mas Bob Harras, novo editor-chefe da Marvel não gostava da idéia. De qualquer forma, a decisão precisava ser tomada rapidamente, pois a Saga do Clone já tinha data para acabar: abril de 1996. Entretanto, Harras ordenou que a conclusão fosse adiada em 6 meses para não entrar em conflito com uma mega-saga dos X-Men que seria publicada na mesma época, o Massacre.

Nos meses seguintes, mais caos editorial. Jurgens decide deixar a equipe criativa do Aranha. Budiansky é demitido. Por outro lado, os escritores têm alguma liberdade para brincar com Ben Reilly e fazer algumas histórias que fogem um pouco do tumulto costumeiro da Saga do Clone. Em meio a isso, o chefão da Marvel, Bob Harras, decide quem seria o grande vilão por trás de tudo. Sua decisão causou bastante polêmica entre os próprios roteiristas e editores, mas, no fim, foi a idéia de Harras que prevaleceu.

Em dezembro de 1996, chegava às comic shops norte-americanas o arco Revelações que… ahn… revelava a quem pertencia a mente maligna que arquitetara toda a Saga do Clone. O culpado por tudo era… Norman Osborn, o Duende Verde original! E a figura sombria que sobrevivia apenas graças a aparelhos e que havia aparecido nos últimos meses nas histórias do Aranha era, na verdade, o Ogro – Mendel Stromm, antigo sócio de Norman Osborn supostamente morto, que agora obedecia suas ordens. Mas… Espera aí… Tem alguma coisa de errado nisso… Osborn não estava morto? Sim! Norman Osborn havia morrido em Amazing Spider-Man #122, de julho de 1973 – empalado por seu próprio planador –, uma edição depois de assassinar a então namorada do teioso, Gwen Stacy, em uma das mais emblemáticas histórias do herói. Então, como poderia ser ele o responsável por toda a confusão dos clones? A solução encontrada pelos escritores e editores da Marvel foi a seguinte… Norman sobrevivera ao seu “confronto final” com o Aranha graças à fórmula do Duende Verda que corria em suas veias e deixava-o mais forte e resistente que um humano comum. O funeral e tudo mais haviam sido uma farsa. Osborn passara, na verdade, anos na Europa, forjando um império criminoso – que incluia, por exemplo, a Irmandade dos Scriers –, sem nunca deixar de observar e influenciar a vida de Peter Parker. Com a morte de seu filho Harry, o segundo Duende Verde, após um duelo com o Aranha, Osborn havia decidido colocar em ação seu grande plano de vingança contra o cabeça-de-teia.

No clímax de Revelações, Peter Parker e Ben Reilly lutam contra Norman Osborn, que voltava a ser o Duende. Enquanto isso, Mary Jane é drogada por Alison Mongrain (empregada de Osborn) e entra em trabalho de parto prematuramente. A criança – que se chamaria May Parker – supostamente já nasce morta, mas aparentemente Mongrain a seqüestra (ou, pelo menos, seu corpo). Na batalha entre os Aranhas e o Duende, Peter e Ben conseguem derrotar Norman, mas a custo da vida de Ben, que salva Peter ao jogar-se na frente do planador do Duende que atingiria seu suposto clone. Mas eis que vem a “surpresa”: o corpo de Ben Reilly acaba se degenerando quase que instantaneamente, como acontecia com todos os clones criados pelo Chacal. Isso só poderia significar que Peter Parker sempre fora, de fato, o verdadeiro… ahn… Peter Parker. Os testes genéticos que haviam determinado que Ben era o original haviam sido sabotados por ordem de Osborn. E assim acabava a Saga do Clone. Quanto à sub-trama da filha de Peter e MJ, ela nunca foi propriamente resolvida. Como a Marvel não queria que o Homem-Aranha fosse pai, sua história foi simplesmente esquecida e o pessoal da editora gostaria que todos os leitores esquecessem também…

Haja confusão! Como já foi dito anteriormente, nem queira entender esse angu. A saga que deveria durar seis ou sete meses, alongou-se por mais de dois anos, gerou pontas soltas que até hoje não foram bem resolvidas, foi responsável por um decréscimo na popularidade do herói e, para muitos, maculou a história do Homem-Aranha nos quadrinhos para sempre. Vários leitores dizem que, para eles, o verdadeiro Aranha morreu assim que começou a Saga do Clone e até hoje não voltaram a ler suas aventuras – ou só voltaram recentemente, com Brand New Day. Há quem adore, mas a grande maioria dos fãs do escalador de paredes tem ódio mortal por essa fase e – assim como a Marvel – prefere ignorar o fato de que um dia ela existiu.

O comitê (de uma só pessoa) é obrigado a confessar que, quando a Saga do Clone foi publicada no Brasil, em 1997 e 1998, a juventude, a pouca experiência no mundo das HQs e o senso crítico ainda em formação fizeram com que acabasse gostando muito da história, de todas as suas reviravoltas e novidades. A nostalgia do comitê faz com que considere a saga uma das melhores do cabeça-de-teia. Entretanto, o comitê acredita que, se sua leitura fosse feita hoje em dia, provavelmente acharia tudo de uma absurdez incrível e de uma qualidade, na melhor das hipóteses, extremamente irregular. Por isso mesmo, a Saga do Clone vai ficar na memória do comitê do jeito que foi lida pela primeira vez, como se fosse a melhor coisa do mundo…

Semana que vem tem mais It’s magic, we don’t have to explain it, com uma visão geral do arco O Capítulo Final (e o comitê promete tentar ser mais breve).

Salve Ben Reilly!

P.S.: Por incrível que pareça, este post duplo só deu uma pequena pincelada no assunto Saga do Clone, deixando muita, mas muita coisa de fora. Se você tiver curiosidade e quiser saber mais sobre a saga, tanto em termos de histórias, quanto em relação a toda a bagunça editorial, recomendo vivamente a leitura do Life of Reilly, blog (em inglês) que abriga uma série de 35 artigos que falam de tudo a respeito da Saga do Clone, incluindo entrevistas com os autores e informações dos bastidores. A versão em português, A Vida de Reilly, tem os primeiros 22 artigos traduzidos.

Mais It’s magic, we don’t have to explain it:
– Parte 1.1: Saga do Clone
– Parte 2: Capítulo Final
– Parte 3: Pecados Pretéritos
– Parte 4: O Outro
– Parte 5: Um Dia a Mais


It’s magic, we don’t have to explain it #1.1

11/10/2008

Chega às bancas brasileiras neste mês a revista Homem-Aranha #82, trazendo a conclusão de Um Dia a Mais, uma das sagas mais execradas – tanto pelo público como pela crítica especializada (e até por membros da equipe criativa) – do teioso em seus 46 anos de HQs. Nela, o Demônio (Mefisto) exige o casamento – O CASAMENTO! – de Peter Parker em troca de salvar a vida da (eterna) Tia May, recentemente baleada, às portas da morte. No fim das contas, o pacto com o Coisa-Ruim altera a realidade ao redor do Aranha em diversos níveis, de uma maneira que não faz lá muito sentido. As palavras do editor-chefe da Marvel e idealizador da coisa toda, Joe Quesada, sobre as inúmeras mudanças? “It’s magic, we don’t have to explain it”. Ou, em bom português: “É mágica, nós não temos que explicar”. Maravilha!

Para marcar este momento especial (?) da publicação de Um Dia a Mais em terras tupiniquins, o COWABANGA! cumpre promessa feita ainda em fevereiro deste ano (“Mas One More Day e as sagas ruins do teioso são assunto para um post vindouro”) e traz uma série de cinco textos falando a respeito das mais polêmicas – ou, simplesmente, piores – histórias do Homem-Aranha de todos os tempos (selecionadas arbitrariamente por nosso comitê de uma só pessoa). Vamos, então, ao nosso primeiro capítulo (que será dividido em duas partes), com a famigerada…

Saga do Clone

O melhor resumo possível pra Saga do Clone seria mais ou menos assim: nem queira entender esse angu. Ou, talvez: it’s clones, we don’t have to explain it. Mas, ao contrário do sr. Quesada, tentaremos dar uma explicação que faça um mínimo de sentido… Vamos aos fatos.

A Saga do Clone original foi um arco publicado nos EUA em 1975, nas edições 144 à 151 de Amazing Spider-Man. Na história, o vilão Chacal revela que havia criado um clone do Aranha, com suas memórias e tudo o mais. Eventualmente, os dois lutam até que se dão conta que estão, na verdade, do mesmo lado. Numa explosão, um deles acaba morrendo e o Peter Parker sobrevivente leva o corpo de seu “irmão” para ser incinerado. Questionando-se se seria realmente o Parker “original”, o Homem-Aranha chega a conclusão de que sim, ele era o verdadeiro, pois tinha sentimentos reais por Mary Jane, que haviam se desenvolvido após a época em que ocorrera a clonagem.

Quase duas décadas depois, o herói aracnídeo vivia uma fase negra. Harry Osborn, o segundo Duende Verde, melhor amigo de Peter Parker e pior inimigo do Aranha, acabara de morrer. Não sem antes colocar em curso, junto com o Camaleão, um plano para fazer Peter acreditar que seus pais ainda estavam vivos. Na verdade, não passavam de MVAs (Modelos de Vida Artificial) projetados pelo Camaleão. A Tia May tinha novamente problemas de saúde. E o Homem-Aranha tornava-se cada vez mais sombrio. Por último e não menos importante, o interesse dos leitores pelo personagem ia diminuindo. Foi nesse contexto que a Marvel decidiu que precisava de uma grande saga para o cabeça-de-teia, nos moldes da Queda do Morcego ou da Morte do Super-Homem. Foi assim que aconteceu a volta do clone. Foi assim que surgiu a novíssima Saga do Clone.

A verdade era que o clone de Peter Parker não havia morrido na saga original. Ele acordou, escapou de ser cremado e quando voltou para “sua” casa, viu que o outro Peter estava lá. Confuso e julgando ser a cópia, partiu para um exílio de anos, adotando o nome de Ben Reilly (Ben, em homenagem ao Tio Ben, e Reilly, o sobrenome de solteira da Tia May). Mas agora May Parker estava às portas da morte e Ben decidia voltar a Nova York para se despedir de sua tia.

Começava aí uma das maiores confusões da história dos quadrinhos. Uma hora um era o clone, outra hora era o outro. Ben tornava-se o Aranha Escarlate. Surgiam personagens obscuros como os Scriers e Judas Traveller (sobre ele, o ex-editor Glenn Greenberg certa vez disse que “ninguém – nem os escritores, nem os editores – parecia saber quem ou o que diabos era Judas Traveller. Ele parecia um ser imensamente poderoso, quase místico com incríveis habilidades, mas qual era a real dele?”). Peter estava morrendo e, por algum motivo, o Doutor Octopus o salvava. Mary Jane engravidava. Outros clones surgiam aos montes, como o Aracnocida e Kaine (talvez o personagem mais legal da saga, com exceção de Ben Reilly). Kaine matava o Doutor Octopus. O Chacal voltava da morte. Mais clones. Ben era o verdadeiro, Peter, o clone. Peter era o verdadeiro, Ben, o clone. Ambos eram clones. Tia May morria (finalmente! Se bem que foi só temporário…). Traveller e os Scriers voltavam a dar as caras. Mais clones. Peter Parker era acusado de assassinato. Festival de clones. Até que, finalmente, depois de muita confusão (e muitos clones), testes comprovavam de uma vez por todas (até parece…) que Ben Reilly era o original.

Depois de uma batalha final contra o Chacal e mais clones, Peter Parker (o suposto clone) muda-se para Portland com uma Mary Jane grávida e deixa Ben Reilly (o suposto Peter Parker de verdade) com o manto de Homem-Aranha em Nova York.

O plano inicial da Marvel com a Saga do Clone era fechar uma era sombria do Aranha e dar a oportunidade de um novo início, com uma volta ao básico. Peter solteiro, com problemas financeiros, sem tantas tragédias pesando em sua consciência. Histórias mais leves, divertidas. A introdução de Ben Reilly como Homem-Aranha parecia servir justamente a esse propósito, mas as coisas fugiram ao controle.

A história deveria durar apenas alguns meses, de outubro de 1994 até abril de 1995, quando seria lançado o número 400 de Amazing Spider-Man – que traria um recomeço à franquia do Aranha, dando início à fase de Ben como o novo cabeça-de-teia. Entretanto, a saga (que se espalhava pelos quatro títulos mensais do herói, mais edições especiais) foi se alongando além da conta, mergulhando em tramas e sub-tramas cada vez mais complexas, mistérios quase insolúveis, confusões que nem os roteiristas e editores sabiam como resolver. Para complicar a situação, a Marvel passava por uma grave crise financeira e acabou tendo uma grande reestruturação de seu pessoal. O então editor-chefe Tom DeFalco, um dos idealizadores da Saga do Clone, foi rebaixado a simples roteirista e novos editores assumiram as HQs do teioso. A crise econômica e a crise criativa acabaram contribuindo para que diversas boas idéias acabassem sendo mal executadas, péssimas idéias surgissem, muitas mudanças fossem feitas de última hora (sem muita avaliação de suas conseqüências) e os roteiristas tivessem pouca liberdade na hora de escrever uma história que era concebida por editores que nem mesmo sabiam direito o que queriam.

O resultado foi confusão atrás de confusão, inúmeras reviravoltas que não faziam lá muito sentido e a ruína de uma saga que começara de forma bastante promissora. Se, no início, a Saga do Clone conseguiu prender a atenção dos leitores com seus diversos mistérios, ao longo dela, os fãs começaram a perder a paciência e acabaram descontentes – assim como alguns roteiristas e editores. Dizem que o lendário J.M. DeMatteis – um dos maiores roteiristas do teioso de todos os tempos, autor do clássico A Última Caçada de Kraven – demitiu-se da equipe criativa do Aranha em meados de 1995 por estar cansado de não poder escrever suas próprias histórias com liberdade, com início, meio e fim, e por causa da demora para o início da era Ben Reilly.

Mas, em Janeiro de 1996, a nova fase finalmente começava…

(CONTINUA NOS PRÓXIMOS DIAS…)

Mais It’s magic, we don’t have to explain it:
– Parte 1.2: Saga do Clone (continuação)
– Parte 2: Capítulo Final
– Parte 3: Pecados Pretéritos
– Parte 4: O Outro
– Parte 5: Um Dia a Mais