A música pelo mundo – Parte 2

09/03/2009

A cena psicodélica do Zâmbia

Se há uma coisa que me irrita deveras é a falta de vontade de alguns indivíduos ditos “intelectuais” e que “sabem tudo” em conhecerem a cultura africana, que muitos deles teimam em dizer que não existe. Tartufice pura! Não só existe como possui coisas boas. Só um pouco de boa vontade pra descobri-las. E uma delas vamos comentar hoje.

Vou jogar as informações no ar pelo que eu pesquei há algum tempo. Durante os anos 70, alguns discos de rock chegavam em países africanos, seja por parte dos remanescentes da neocolonização, seja por parte do exército, ou pra comércio mesmo. Nesse meio tempo, houve uma explosão de rock psicodélico, mais precisamente no Zâmbia. Duas bandas se destacaram: o The Peace e o Amanaz.

Não se sabe ao certo quando o The Peace lançou seu álbum Black Power. Sabe-se que foi nos anos 70, mas não sabem precisar o ano. A banda surgiu na cidade de Ndola, na província de Copperbelt, uma importante zona de minério do país (Copperbelt, aliás, significa “cinturão de cobre”, devido à abundância do minério nessa região).
Segundo os boatos, a banda teria se formado no cerne da aeronáutica do Zâmbia, mas não se sabe até onde isso é verdade. O que se sabe é que, antes de se tornar The Peace, a banda teve outro nome anteriormente: The Boyfriends.

Ao gravarem o disco, os quatro componentes (suponho que sejam quatro) prensaram quinhentas míseras cópias do álbum, que depois se espalhou pelo mundo. O som da gravação é abafado, e com alguns ruídos, talvez devido ao equipamento precário do estúdio na época. Mas nota-se claramente arranjos de qualidade, muito bem elaborados.

Não se sabe que fim levaram os integrantes do grupo. A bem da verdade, descobri apenas o nome do produtor do álbum, que se chama Edward Khuzwayo. Infelizmente, as fontes do álbum são bem escassas. Em breve, posto link pra vocês baixarem. Desde já, recomendo.

Já o Amanaz surgiu da união de diversas bandas locais, em Kitwe, no norte do Zâmbia. Lançaram um único disco também, o Africa, em 1973. Há quem diga que o som deles é semelhante ao som do trio BLO, que surgiu na Nigéria. Eu respeito opiniões, mas discordo veementemente. O grupo parece ter um som mais encorpado que o The Peace, e algumas músicas até são cantadas em idioma nativo, o Bantu. A guitarra surge muito bem nas canções, e as batidas percussivas, bem como os arranjos de cordas, lembram muitos elementos africanos.
Recomendo também esse Africa.

E desde já, peço desculpas pelo atraso do post e pela pesquisa limitada, mas banda obscura é assim mesmo: difícil pra cacete de encontrar informação.

Assim que achar, posto links de downloads dos álbuns pra vocês.

Por ora é isso.
Um abraço!

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Esclarecimento

08/03/2009

Amigos,

Peço desculpas para vocês por não ter feito o prometido post sobre rock africano, prometido pra quarta passada, dia 4/3. Tive alguns contratempos e não consegui escrever o que precisava.

Prometo, até amanhã de noite (dia 9/3) este post.

Aguardem.


A música pelo mundo – Parte 1

01/03/2009

Antes de qualquer texto longo e altamente criticado (lembrem-se das nossas raízes, crianças), quero fazer um grande agradecimento ao amigo Diego, um dos editores da ProgShine, que se lembrou da gente na indicação ao Prêmio Dardos. Desde já, muito obrigado, meu velho.
Gostaria de avisar, também, que assim que entrarmos em consenso, listaremos aqui os 15 sites que indicamos para o mesmo prêmio. Em alguns dias, sairá o post com os nossos preferidos.

Sem mais delongas, já que as férias de faculdade acabaram, vamos ao que interessa.

Responda sem pestanejar: qual seu artista musical africano preferido?
– Ah, é o… Africano?

Não sabe? Tudo bem, vamos facilitar. Na música celta, quem é seu artista preferido?
– Ah, essa é… Celta?

Tudo bem, tudo bem. Que tal mariachis? Ou artistas hindus? Ou um progressivo romeno? Ou…

Vejam quantas variações musicais citamos aqui. E poderíamos citar muito mais.
Música é uma cultura, uma linguagem universal, algo que unifica vários indivíduos, independente da nacionalidade deles. Um japonês pode cantarolar uma canção brasileira sem saber o português e se sentir tocado por ela. Assim como ouvimos o rock britânico e/ou norte-americano, muitos com letras sem sentido, e nos sentimos tocados com as belas melodias ecoadas em nossos fones ou caixas de som.

A bem da verdade, música é produzida a todo e qualquer momento no mundo, e vai continuar assim, até o final dos tempos. A ampla gama de possibilidades em compor música permite isso. O que fica impossibilitado é conhecer todas essas variações culturais da música composta no globo terrestre. Mesmo que a tecnologia tenha ajudado a aprimorar os meios de comunicação e pesquisa de bandas e artistas obscuros, muita gente não sabe nem por onde começar uma procura por esses artistas. Some isso à ampla divulgação de álbuns engendrados por artistas de grandes indústrias fonográficas, tanto em rádios quanto em propagandas e revistas do gênero, e temos aí o pecado mortal do detrimento e rebaixamento desses estilos musicais variados, em prol do cânone de Universais EMIs, BMGs, SomLivres e Orbeats da vida. E a alienação estará armada.

Pois bem, em virtude disso, escreverei durante o mês uma série de posts sobre os mais diversos artistas e bandas musicais espalhados pelos mais obscuros pontos da litosfera social. A princípio, começarei com bandas de rock africanas dos anos 70 (não serão muitas). Depois pretendo partir pelo rock argentino dos anos 80 e 90 (minha linha de pesquisa atual). E depois, veremos.

Pretendo publicar dois posts por semana, um sempre na quarta ou quinta-feira, e outro no final de semana. Essa é uma forma não só de manter uma periodicidade aqui, como também de me regrar em escrever estes posts (sim, estou aprendendo só agora a usar agenda).

Por ora, este post será apenas para avisá-los da ideia e para avisar que ainda estamos vivos, apesar da preguiça em publicar algo novo aqui. Mas como diz o velho ditado, o Cowabanga tarda, mas não falha!

É isso, pessoal.
Até quarta-feira, então, neste mesmo canal!


Tintin na telona e outros causos

27/01/2009

tintin1Antes tarde, do que mais tarde cá estou outra vez para trazer a todos mais do mesmo: cultura pop enlatada e notícias diversas sobre um universo mais diverso ainda! Bom, vamos ao que interessa.

Desde o começo do ano passado pairam rumores sobre a transposição da história em quadrinhos Tintin para o cinema. Brigas moneycinematográficas para cá, brigas moneycinematográficas para lá, ficou acertado que quem irá filmar as aventuras do personagem criado pelo desenhista belga Hergé será o rei dos efeitos especiais E.T-Jurassic-Park-algum-fime-sério-no-meio-Spielberg em conjunto com o responsável pela transposição da obra de Tolkien para o cinema,  Peter Jackson.

73067311AG101_Berlinale_GolRá, mas não é isso o que interessa. Ao menos não a esse post. O COWABANGA! vem por meio deste comunicar que além dos diretores, o pessoal de Holywood fechou também os atores principais do filme. O papel do repórter magricelo, com uma queda pelo imperialismo e expert em confusões (e viva a  sessão da Tarde) ficou com, ta ta ta,  o também magricelo Jamie Bell. Mais conhecido por ter protagonizado o  filme Billy Elliot (2000), Bell será acompanhado pelo James Bond loiro, Daniel Craig, que interpretará o vilão Rackham, o Terrível e por Andy Serkis, o Gollum de O Senhor dos Anéis.

A primeira aventura do jovem Tintin em 3D, que em 2009 completa 80 anos, deverá se chamar  “The Adventures of Tintin: Secret of the Unicorn” (“As Aventuras de Tintin e o Segredo do Licorne”, como traduzido no quadrinho), e ainda não tem previsão de estréia.

tintin-au-pays-des-soviets* Momento almanaque. Segundo o documentário Tintin e eu **, a idéia de criar um personagem que fosse repórter veio de uma conversa de Hergé com o seu patrão, o abade Norbert Wallez, diretor do jornal direitista católico Século XX (Vingtième Siècle). Esse abade era contrário ao regime comunista, e teria incentivado Hergé à criar a história da viagem à Rússia Tintim no País dos Sovietes (1929), primeiro álbum de história em quadrinhos da série As Aventuras de Tintim –  na qual os comunistas aparecem como vilões. Parece que, depois da guerra, o abade foi preso pelos ingleses por vários anos, acusado de colaborar com o regime nazista.

milu

Agora a pergunta que não quer calar é:

E o Milu, quem vai interpretar?


** Documentário produzido em 2004 pelo dinamarquês Anders Østergaard. Tintin et moi (título original) é um filme-animação baseado em uma entrevista de quatro dias feita por Numa Sadoul com Hergé em 1971, transformada em 1975 no livro Tintin e Eu: conversando com Hergé. Abaixo, o comecinho do filme.

Post ainda não adequado as novas regras ortográficas da Língua Portuguesas. Em breve, idéias sem acento.


Feliz Nova Orelha

31/12/2008

Ok, isso aqui tá bem devagar. Mas vocês sabem como são as desculpas de um universitário: quando está com o semestre em andamento, não tem tempo porque há muitos trabalhos e cadeiras pegando pesado. Quando está de férias, quer cultivar a política da preguiça deitado numa rede com o traseiro apontado pro céu.

Entrementes, algumas coisas valem a pena serem postadas e comentadas. Como esta notícia do Whiplash (cujo link você pode ver no fim do post) sobre uma audição musical do vocalista, flautista e tecladista da banda holandesa Focus, Thijs Van Leer.
Não sei quem me contou que, dentre muitos motivos, a banda terminou devido aos atritos entre o guitarrista Jan Akkerman e Van Leer. Chegou num dado momento que Akkerman disse que o vocalista era um belo de um idiota e não agüentava mais conviver com o mesmo. Não sei até que ponto isso é verdade, mas depois da notícia lida, há de se desconfiar.

Basicamente, Van Leer participou de uma audição musical de várias canções de várias bandas, sem saber o nome delas e nem das músicas em questão. Lá pelas tantas, ao ouvir Metal Icarus, do Angra, encantou-se com a voz de André Mattos e comentou: “É um homem cantando? Impressionante!”

Mas o motivo do post não é o comentário sobre Metal Icarus, e sim sobre a ouvidela de Van Leer sobre um trabalho do Tool, banda cujo trabalho conheço uma ou duas músicas. Ao ouvir uma música da banda, o vocalista do Focus não hesitou e soltou a seguinte pérola:
“Eles tocam tudo com precisão, mas é um pouco rigído. Não há suingue, não consigo mexer minha bunda ouvindo isso. (…) Dá para entender o porquê de eles terem excursionado com o KING CRIMSON.

Vocês já podem entender por que grifei a última frase e também de ter comentado sobre a hipótese de briga do Akkerman com Van Leer: o King Crimson é uma das minhas bandas preferidas do ramo progressivo.
Mesmo assim, devo dizer que foi uma das coisas mais engraçadas que já li de um artista progressivo sobre outro grupo progressivo também. E por isso, vale nosso registro aqui.

No mais, Happy New (Y)ear pra todos vocês. Ou, em bom português, Feliz Nova Orelha. E torçamos para que o Peter Gabriel desembarque por estes pagos, pela glória de Tutatis!

Ah, o link –> http://whiplash.net/materias/news_880/081351-angra.html


It’s magic, we don’t have to explain it #5

18/11/2008

Concluímos aqui (finalmente) a nossa série a respeito das mais polêmicas histórias da história do Homem-Aranha. Para o gran finale, como não poderia deixar de ser, falaremos da saga que inspirou esta série de posts. Com vocês…

Um Dia a Mais
One More Day

Peter Parker aliou-se à facção pró-registro e revelou sua identidade secreta ao mundo no início da Guerra Civil dos super-heróis. Entretanto, ele acabou mudando de lado e tornando-se um fugitivo da lei, junto com Mary Jane, sua esposa, e May, sua tia. Conhecendo sua identidade, o Rei do Crime manda um atirador para matar o Homem-Aranha quando ele estivesse desprevenido. E o tiro destinado a Peter acaba atingindo a Tia May, que fica às portas da morte. Eventualmente, o cabeça-de-teia dá uma surra no Rei e consegue internar May Parker em um hospital, com um nome falso – por causa do status de fugitivo de seu sobrinho.Página de Amazing Spider-Man #544

É nesse contexto que começa Um Dia a Mais. A Tia May está em um leito de hospital, mas encontra-se além de qualquer ajuda médica. Ela está morrendo e, aparentemente, não há o que se fazer a respeito. Peter culpa-se, pois o tiro que acertou a Tia era para ele, além de que nada daquilo estaria acontecendo se ele nunca tivesse cometido o erro de revelar ao mundo que era o Aranha. Assim, o herói parte em busca de alguém que possa salvar May Parker. Mas a busca revela-se infrutífera. Mesmo o mago supremo, o Dr. Estranho, é incapaz de ajudá-lo. Tudo parece perdido…

Página de Sensational Spider-Man #41Até que surge Mefisto, um dos lordes infernais do Universo Marvel, análogos ao Satã bíblico. Ele diz que pode salvar May, mas há um preço a se pagar… E, não, ele não quer a alma de Peter. Segundo o demônio, quem vende a alma para ajudar alguém, vai para o inferno e “sofre honradamente, amparado pela crença eterna de que suas ações salvaram outras pessoas”. Não, isso não teria graça. O que Mefisto quer é… O amor de Peter e Mary Jane, o casamento deles. O CASAMENTO!

O casal tem apenas Um Dia a Mais para desfrutar de suas vidas como estão. À meia-noite do dia seguinte, eles têm que decidir o que perderão: a tia ou o casamento. Chegada a hora, o Aranha ainda está em dúvida e é Mary Jane quem aceita o pacto com o Coisa-Ruim, desde que a identidade secreta de Peter seja restaurada, sua vida seja devolvida ao normal e ele tenha a chance de ser feliz. Pressionado, o cabeça-de-teia concorda com os termos. Num passe de mágica, o casamento dos dois é apagado da existência – como se nunca tivesse ocorrido –, eles estão brigados e não são mais um casal, Peter está de volta à casa da (agora saudável) Tia May, o falecido Harry Osborn está de volta de alguma maneira – embora a Marvel insista que sua “ressurreição” nada tem a ver com Mefisto –, ninguém sabe da identidade do Homem-Aranha e Peter e Mary Jane não se lembram do pacto com o Cramulhão.

Quadro de Amazing Spider-Man #545

A história é muito bem construída, muito bem conduzida por J. Michael Straczynski. Os diálogos são afiados, como de costume. Há uma atmosfera de drama quase palpável. Várias das situações são interessantes, como o confronto inicial com o Homem de Ferro – a quem Peter culpa, parcialmente, pelo ocorrido, visto que foi ele a incentivar o Aranha a revelar sua identidade –, as participações do mordomo Jarvis – que tinha, no mínimo, uma quedinha pela Tia May – e do Dr. Estranho – com uma referência muito bem bolada a uma HQ do início da fase JMS em Amazing Spider-Man –, os Peter Parkers alternativos (e frustrados), etc. Os desenhos de Joe Quesada – que, por acaso, também é o editor-chefe da Marvel – continuam bons como de costume e o comitê (de uma só pessoa) diria que sua narrativa, inclusive, evoluiu.

Entretanto, Um Dia a Mais será sempre lembrada por seu principal propósito, o de acabar com o casamento do Homem-Aranha, e pela solução absurda encontrada para alcançá-lo, um pacto com o Demônio. Aliás, esta é uma boa maneira de resumir a saga: uma solução idiota para um não-problema. Assim como com Pecados Pretéritos, a história não é ruim em si, pelo contrário, mas sua idéia central é ridícula e, para muitos fãs, um desrespeito.

Quadro de Sensational Spider-Man #41

Quesada, desde que assumiu como editor-chefe da Marvel, sempre proclamou aos quatro ventos que queria ver o fim do casamento de Peter e Mary Jane. Ele e alguns de seus editores e roteiristas achavam que o matrimônio limitava algumas boas possibilidades de histórias do herói. Finalmente, Quesada tomou uma atitude. Divórcio, é claro, nunca foi uma opção, afinal, para o chefão criativo da Marvel, isso tornaria o personagem mais velho aos olhos dos leitores (acho que já vi isso antes… Pequena May, alguém…?), além de ser um péssimo exemplo. Um pacto com o Demônio, sim, é que é um ótimo exemplo… (Bom, é verdade que Mefisto não é o próprio Satã bíblico, mas é quase como se fosse, certo?).

Arte da capa de Amazing Spider-Man #545Enfim, a reação dos fãs e da crítica em relação à saga foi quase que totalmente negativa. Muita gente chegou a propôr um boicote à nova fase do Aranha por causa de Um Dia a Mais. E o pior é que toda a situação gerou uma confusão danada na cronologia do teioso – a ponto de a Marvel divulgar um esquema tentando esclarecer algumas coisas. As histórias de Peter casado ainda valem? Diz a Marvel que sim, a única diferença é que Pete e MJ não estavam casados, apenas tendo um relacionamento – e, por motivos ainda desconhecidos, terminaram recentemente. Então, o que foi que Mefisto tomou? Apenas as alianças e a certidão? Aliás, como Mefisto foi capaz de promover uma alteração dessas na realidade? Opa! A resposta pra essa pergunta já se sabe. Como o próprio Quesada disse (e repetimos no título de nossa série): “It’s magic, we don’t have to explain it”. Ou, para os leigos na língua da Rainha: “É mágica, nós não temos que explicar”.

Essa “explicação” do editor-chefe levou, inclusive, a um atrito com Straczynski, o roteirista. Ele declarou que se trata de “uma solução malfeita. Viola todas as regras de ficção e fantasia que eu e todo escritor de sci-fi e fantasia sabemos que não pode ser violada. É elementar”. A rusga entre Quesada e Straza foi ainda maior porque o roteirista acabou entregando um script para a conclusão de Um Dia a Mais diferente do que havia sido combinado. Nele, a mudança que Mefisto faria na vida do Aranha teria sido bem anterior ao casamento, mexendo em HQs dos anos 70. Gwen Stacy nunca teria morrido e Harry Osborn e MJ teriam continuado namorando. Página final de Amazing Spider-Man #545O roteiro foi recusado e reescrito – afinal a seqüência da história já estava sendo produzida e dependia de um final específico –, o que fez com que Straczynski chegasse a pedir para ter seu nome retirado dos créditos. No fim das contas, parece que foi dos males o menor. Se JMS tivesse feito o que queria, mais de 30 anos de cronologia do Aranha seriam, de fato, invalidados, o que certamente provocaria a fúria dos fãs.

De qualquer forma, para Quesada, Um Dia a Mais foi um mal necessário. Para os fãs, não tão necessário assim. Pelo menos, a nova fase, intitulada Um Novo Dia, aparentemente, é boa e começa a ser publicada no Brasil neste mês.

Abaixo, ótimas tirinhas do SpiderFan.org relacionadas a Um Dia a Mais (clique para ampliar):

SpiderFun Strip #77

SpiderFun Strip #79

SpiderFun Strip #80

E este é, então, o fim da nossa série. Até a próxima, pessoal (se é que alguém lê isso aqui)!

Mais It’s magic, we don’t have to explain it:
– Parte 1.1: Saga do Clone
– Parte 1.2: Saga do Clone (continuação)
– Parte 2: Capítulo Final
– Parte 3: Pecados Pretéritos
– Parte 4: O Outro


It’s magic, we don’t have to explain it #4

09/11/2008

Parte 4 da série a respeito das mais polêmicas – ou piores – histórias do Homem-Aranha, segundo a avaliação de nosso comitê (de uma só pessoa). Nesta semana, falaremos de…

O Outro

O Homem(-Aranha) Vitruviano

Logo que J. Michael Straczynski assumiu o posto de escriba da principal revista do cabeça-de-teia, Amazing Spider-Man, já começou com seu blá-blá-blá místico e totêmico. Em suas histórias, JMS revelou que Peter Parker não ganhara seus poderes por acaso. Eles estavam ligados ao totem-aranha e, antes de Peter, sempre houvera outros como ele, dotados de habilidades aracnídeas. Mas também havia inimigos naturais daqueles ligados ao totem, seres que se nutriam de suas forças vitais, como Morlun, um dos principais vilões do início da fase Straczynski.

É em O Outro que toda essa baboseira totêmica do Straza atinge seu clímax. A saga foi publicada nos EUA de outubro de 2005 a janeiro de 2006, espalhando-se pelos três títulos regulares do Aranha: Friendly Neighbourhood Spider-Man (#1-#4), Marvel Knights Spider-Man (#19-#22) e Amazing Spider-Man (#525-#528). Nos três primeiros meses, cada um dos roteiristas das revistas-aranha escrevia todas as três publicações daquele mês e, no quarto mês, cada um escrevia uma parte da conclusão na sua própria revista  – parece bem confuso, mas não é tanto assim.

No início da história, roteirizado por Peter David, surge um novo vilão, o Rastreador, que entra em conflito com o Homem-Aranha. Nas sombras, Morlun – supostamente morto em seu primeiro encontro com o teioso – espreita. Ferido em batalha, nosso herói procura ajuda médica e os diagnósticos acabam por apontar que há algo de errado com a fisiologia de Peter. No segundo ato de O Outro, cometido por Reginald Hudlin, o teioso vai atrás de ajuda na comunidade super-heróica e é analisado por grandes gênios científicos como o (alter ego do) Hulk e o Pantera Negra. Aparentemente, suas células estão degenerando-se devido ao seu sangue irradiado, mas ninguém consegue explicar por que ou pensar numa maneira de reverter o processo. O Homem-Aranha resolve, então, procurar ajuda mística com o Dr. Estranho, que simplesmente anuncia que o cabeça-de-teia irá morrer. E isso é tudo de relevante que ocorre em 4 edições, 88 páginas e mais de um mês de quadrinhos do Aranha: ele descobre que está doente e irá morrer (e o leitor descobre que Morlun está vivo). Santa descompressão narrativa, Bátimã!

Bom, pelo menos nos próximos números teremos mais ação e coisas realmente acontecendo. Isso só pode fazer com que a história melhore, certo? ERRADO! O que vem a seguir é uma da idéias mais absurdas que já se viu num gibi do Aranha… Peter decide invadir o laboratório do Dr. Destino na Latvéria e usar a máquina do tempo do vilão para voltar ao passado e, de alguma forma, impedir a si mesmo de ganhar os poderes de Homem-Aranha. Para a missão, leva consigo sua esposa, Mary Jane, e a Tia May, ambas vestindo velhas armaduras de Homem de Ferro. Sério… Tia May e Mary Jane de armadura lutando contra robôs do Dr. Destino…? O que é isso? Voltamos à Era de Prata?

No fim das contas, a viagem no tempo não dá muito certo. De volta ao presente, Peter eventualmente se vê cara a cara com Morlun, que quer sugar a essência vital do herói antes que ele morra. Enfraquecido por sua “doença”, o Aranha é presa fácil para o vilão, que o espanca, deixando-o sem ação, à beira da morte. Mas a polícia e outros heróis chegam antes que Morlun  possa fazer sua “refeição”. No entanto, ele não sai sem antes fazer um aperitivo. Literalmente. Antes de fugir, o bandidão arranca e devora um dos olhos do cabeça-de-teia. Hummmm! Delícia!

No ato três, escrito por Straczynski, o Homem-Aranha, inconsciente e quase morto, é levado a um hospital. Lá, enquanto Mary Jane está com o herói caído, Morlun ressurge. Ela vai pra cima do vilão, que revida. Peter desperta para protegê-la e, repentinamente, ataca Morlun com selvageria, agindo mais como aranha do que como homem. Espécies de estacas/ferrões saem de seus ante-braços (desde quando aranhas tem ferrões!?) durante a luta e, no fim das contas, o herói mata o vilão, consumindo sua essência, e, logo depois, cai morto nos braços de MJ.

Mas não pára por aí, o cadáver do Aranha é levado para o lar dos Vingadores, a Torre Stark. Ele é deixado de lado por um tempo e quando é checado novamente, só há uma casca vazia. O verdadeiro corpo do herói saiu de dentro da própria pele e agora está se regenerando dentro de um casulo de teia em algum lugar de Nova York. Dentro do casulo, Peter tem sonhos estranhos, é levado a confrontar o totem-aranha e a aceitar sua “aranha interior”. Ele percebe que seu potencial não vinha sendo completamente aproveitado porque sua metade humana oprimia sua porção aranha – que havia sido responsável por salvá-lo de Morlun. O Homem-Aranha emerge de lá e volta para sua família e os Vingadores, que vinham procurando-no incessantemente.

No ato final, descobrimos que o cabeça-de-teia ganhou um novo corpo, sem quaisquer cicatrizes (até mesmo sem qualquer sinal de sua velha apendectomia). E, enquanto a Torre Stark está vazia, várias aranhas se apoderam do local e da velha carcaça de Peter, gerando um novo corpo formado inteiramente por aranhas. O estranho ser, o tal Outro do título, tem uma breve altercação com Peter – durante a qual, seus “ferrões” manifestam-se novamente – e foge para uma igreja, onde vai para dentro de um casulo semelhante aquele em que Peter esteve. O Aranha e o Outro encontram-se novamente e, após um bate-papo totêmico esquisito, o bicho foge mais uma vez.

Mais tarde, o teioso vê-se em uma situação de perigo e acaba descobrindo seus novos poderes. Além dos ferrões, Peter agora tem uma espécie de visão noturna, pode sentir vibrações distantes através de sua teia e pode prender-se às paredes com diferentes partes de seu corpo.

Fim.

O Outro teve muito marketing e chegou a alcançar sucesso comercial, mas a (falta de) qualidade da história foi alvo de duras críticas na época de sua publicação. A saga tem diversos problemas, sendo o principal a inconsistência dos roteiros e desenhos. O que deveria ser meio óbvio, afinal foi escrita por três caras diferentes e desenhada por três caras diferentes – sendo um deles (Pat Lee), muito ruim. Entretanto, os roteiristas e editores deveriam ter trabalhado de forma mais integrada para evitar as diversas incoerências ao longo das HQs. E provavelmente poderiam ter sido selecionados desenhistas com estilos não tão destoantes para a saga. Além disso, diversas partes se arrastam demais, enquanto que algumas situações são resolvidas muito rapidamente. E muitas das próprias idéias da trama são simplesmente ruins. Por exemplo, a esposa e a tia velha de armadura, olho devorado, os “ferrões” e o próprio papo místico/totêmico (que não combina lá muito com o personagem). Tanto que o blá-blá-blá místico e os próprios novos poderes foram sumariamente ignorados durante a maior parte do tempo desde o fim de O Outro.

O melhor a vir dessa saga foram mesmo as capas alternativas do já saudoso Mike Wieringo, retratando várias versões do Aranha.

Capas variantes, por Mike Wieringo

Em breve, o gran finale de nossa série com Um Dia a Mais

Mais It’s magic, we don’t have to explain it:
– Parte 1.1: Saga do Clone
– Parte 1.2: Saga do Clone (continuação)
– Parte 2: Capítulo Final
– Parte 3: Pecados Pretéritos
– Parte 5: Um Dia a Mais